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Como a robótica está transformando as complexas cirurgias intestinais

Pelo alto grau de precisão exigido, as cirurgias intestinais representam um terreno especialmente complexo e repleto de oportunidades

Por Ana Sarah Portilho*
8 jan 2026, 08h57 •
  • A cirurgia robótica vem transformando silenciosamente uma das áreas mais desafiadoras da medicina: as cirurgias do intestino. Diferentemente de outros campos em que a tecnologia ganhou visibilidade mais cedo, como a urologia e a ginecologia, foi na coloproctologia que a robótica encontrou um terreno especialmente complexo e, justamente por isso, repleto de oportunidades para melhorar resultados.

    As cirurgias intestinais, em especial aquelas realizadas na pelve, exigem altíssimo nível de precisão. Trata-se de uma região anatômica estreita, profunda e repleta de estruturas delicadas, como nervos responsáveis pelas funções urinária, sexual e pela continência fecal. Pequenos desvios técnicos, ou mesmo movimentos em falso durante a cirurgia, podem resultar em sequelas funcionais importantes, com impacto direto e duradouro na qualidade de vida dos pacientes.

    Nesse cenário, a tecnologia robótica representa um avanço real. Ao oferecer visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados que permitem movimentos mais delicados e controlados, o robô ajuda o cirurgião a trabalhar com maior precisão. Um exemplo disso é a dissecção, etapa fundamental da cirurgia que consiste em separar cuidadosamente os tecidos para expor e retirar a área doente sem lesar estruturas vizinhas. Na pelve, essa etapa é especialmente crítica. Na cirurgia pélvica, cada milímetro importa, e a robótica amplia a capacidade do cirurgião de respeitar estruturas fundamentais para a função urinária, sexual e intestinal.

    Na prática, esses benefícios já são observados em procedimentos de cirurgia colorretal oncológica, especialmente no tratamento do câncer de intestino. A robótica facilita a retirada adequada do tumor, com margens de segurança, ao mesmo tempo em que reduz o risco de lesões nos nervos da pelve. Não se trata apenas de remover o câncer, mas de preservar qualidade de vida. Isso é especialmente relevante em pacientes que vão conviver por muitos anos com os efeitos da cirurgia.

    Os ganhos não se limitam ao momento da cirurgia. Pacientes submetidos à cirurgia robótica tendem a apresentar menos dor no pós-operatório, menor necessidade de internação prolongada e retorno mais precoce às atividades cotidianas. Há também evidências crescentes de redução de sequelas funcionais, como alterações urinárias, sexuais e da continência. Durante muito tempo, essas consequências foram encaradas como quase inevitáveis em cirurgias pélvicas complexas. Hoje, sabemos que técnica, experiência e tecnologia fazem diferença real nos resultados.

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    Recentemente, a aprovação da cirurgia robótica no Sistema Único de Saúde para o tratamento do câncer de próstata reacendeu o debate sobre o papel dessa tecnologia na saúde pública. A decisão abre espaço para que, no futuro, doenças igualmente prevalentes e graves, como o câncer de intestino, também possam ser incorporadas ao sistema público.

    Ampliar o acesso à robótica é discutir segurança, redução de sequelas e melhores desfechos para uma parcela maior da população. Mais do que uma técnica mais moderna, a cirurgia robótica representa uma nova forma de cuidar. Uma medicina mais precisa, mais segura e mais atenta às consequências que vão além da retirada da doença, aquelas que determinam como o paciente vai viver depois da cirurgia.

    *Ana Sarah Portilho é diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Coloproctologia

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