Mês da mulher está acabando, mas atenção ao câncer deve durar o ano todo
Estigmas, costumes e desinformação são barreiras para erradicar tumores preveníveis

Estamos no final do Mês da Mulher, uma iniciativa global e uma data historicamente de grande impacto para a representatividade. Março Lilás e Outubro Rosa são meses emblemáticos para a saúde feminina e para o combate ao câncer. Em março, o foco está na prevenção dos tumores de colo do útero e na importância da vacinação contra o HPV. Em outubro, a atenção se volta para a mama e o impacto do diagnóstico precoce. São campanhas essenciais, mas infelizmente insuficientes. O câncer avança e não segue o calendário de conscientização. Ele continua afetando a vida das mulheres todos os dias do ano.
Dois tipos de câncer que figuram entre os mais comuns na população feminina – colo do útero e pulmão – são hoje preveníveis. O câncer de colo do útero pode ser evitado com a vacinação contra o HPV e exames de rastreamento regulares. O Brasil tem um dos melhores programas de imunização do mundo, e a vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos (com ampliação temporária até os 19 anos). Mesmo assim, a adesão ao imunizante ainda é baixa, e muitas mulheres também deixam de realizar o exame de Papanicolau, que pode detectar lesões pré-cancerígenas e impedir a progressão da doença. O resultado desse quadro frustrante é que, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 17 mil novos casos e mais de 7 mil mortes por câncer de colo do útero em 2025, uma estatística alarmante para um tumor altamente prevenível.
O câncer de pulmão também poderia ter sua incidência drasticamente reduzida. Cerca de 85% dos casos estão associados ao tabagismo, e o impacto do cigarro na saúde feminina segue crescendo. O número de mulheres fumantes caiu nos últimos anos, mas o câncer de pulmão continua avançando entre elas, pois muitas começaram a fumar mais tarde e os efeitos do tabaco podem levar décadas para se manifestar. Além disso, até 25% dos casos ocorrem em mulheres que nunca fumaram, o que mostra que outros fatores ambientais, como poluição e tabagismo passivo, também são relevantes. A prevenção passa pelo combate ao tabagismo, mas também pela ampliação do rastreamento para grupos de risco e pelo acesso a exames diagnósticos precoces.
O câncer de mama segue como o mais incidente entre as mulheres brasileiras, com projeção de 74 mil novos casos anuais. A mamografia permanece sendo a melhor ferramenta para detectar a doença em estágios iniciais, quando as chances de cura chegam a 95%. Apesar disso, muitas mulheres ainda negligenciam o exame, seja por medo, falta de acesso ou desinformação. O Ministério da Saúde recomenda a mamografia a cada dois anos a partir dos 50 anos, enquanto sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), defendem a realização anual do exame a partir dos 40 anos. A falta de consenso muitas vezes confunde as mulheres e gera atraso em diagnósticos, o que pode custar vidas.
A campanha do Outubro Rosa tem papel fundamental em alertar para a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama, mas isso não pode ser tema de debate apenas uma vez por ano. Assim como o Março Lilás, que chama a atenção para o câncer de colo do útero, não pode ser a única época em que falamos sobre a vacinação contra o HPV e a necessidade do rastreamento regular. Essas discussões precisam ser permanentes.
A primeira edição do evento “Mulheres em AntecipAÇÃO: Autoconhecimento é Poder”, uma realização conjunta dos Grupos Brasileiros de Tumores Ginecológicos (EVA), Tumores de Mama (GBECAM), Torácicos (GBOT) e Gastrointestinais (GTG) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica ( SBOC), nasceu neste mês de março com essa missão: tirar a saúde da mulher da pauta sazonal e transformá-la em uma prioridade contínua. A informação é uma arma poderosa na luta contra o câncer, e quanto mais mulheres forem conscientizadas sobre prevenção e rastreamento, maiores serão as chances de evitar diagnósticos tardios e reduzir a mortalidade.
A luta contra o câncer não pode ser interrompida ao fim de uma campanha de conscientização. Enquanto milhares de mulheres continuarem recebendo diagnósticos tardios ou sem acesso à prevenção adequada, precisamos seguir falando, educando e pressionando por políticas públicas mais eficazes. Para reduzir as estatísticas e salvar vidas, devemos intensificar campanhas de prevenção, incentivar o diagnóstico precoce, e trabalharmos contra estigmas, costumes e desinformação que são barreiras para erradicar cânceres preveníveis. A saúde da mulher deve ser lembrada muito além de março ou outubro. Ela precisa ser prioridade todos os dias do ano.
*Andréa Gadelha é presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) e Angélica Nogueira é presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).