O abismo entre teoria e prática no cuidado com o coração
Estudos indicam que empatia médica e mudanças de hábito podem reduzir internações e mortes
Nos consultórios, convivemos com o fato de a adesão ao tratamento cardiológico ficar muito aquém do esperado. São várias as pesquisas que comprovam o baixo comprometimento dos pacientes com a orientação médica proposta. No Estudo Multicêntrico Brasileiro para Avaliar Fatores Precipitantes de Descompensação da Insuficiência Cardíaca (EMBRACE), 55% dos casos de descompensação de insuficiência cardíaca ocorreram devido à baixa adesão ao tratamento.
A despeito dos avanços tecnológicos e dos esforços para controlar os fatores de risco, as taxas de morbimortalidade causadas por doenças cardiovasculares seguem altas. No Brasil, são a principal causa de morte, com cerca de 400 mil óbitos por ano. No mundo, os números de óbitos relacionados a doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes, obesidade e dislipidemia, chegam a 18 milhões anualmente, sendo que só as mortes relacionadas à hipertensão somam 11 milhões. Portanto, há uma lacuna a ser preenchida.
Boa prática clínica
Mas a conta da falta de adesão não pode pesar apenas nos ombros do paciente. A comunicação empática do médico, com explicações claras a respeito do diagnóstico, bem como de suas consequências, amplia a confiança no profissional e o entendimento do paciente e de seus familiares sobre a enfermidade, criando um ambiente de parceria na busca pelos melhores resultados.
Essa habilidade de conduzir o processo é conhecida como soft skills (habilidades sociais). São destrezas que envolvem competências não técnicas, mais voltadas aos aspectos emocionais e sociais, como comunicação eficaz, trabalho em equipe, empatia, resolução de problemas, pensamento crítico, adaptabilidade e liderança, entre outras.
Existem evidências científicas que testaram o diálogo empático como promotor de tratamentos cardiológicos bem-sucedidos. Uma revisão sistemática analisou o impacto positivo da qualidade dessa comunicação. Entre os resultados: “(…) esta meta-análise demonstrou que uma comunicação médico-paciente pobre aumenta em até 19% o risco de não adesão e que uma comunicação de alta qualidade está associada a maior adesão dos pacientes ao tratamento. Isso sugere que a forma como os médicos se comunicam com seus pacientes desempenha um papel importante na motivação e no comprometimento em seguir as instruções e o plano de tratamento recomendado (…).”
Conclusões assim denotam que precisamos ressignificar o sentido de “cuidar” em cardiologia. A transformação da saúde cardiovascular começa no cotidiano do consultório, onde diálogo, exemplo e engajamento valem tanto quanto a prescrição.
Medicina do estilo de vida
Quando falamos em adesão ao tratamento, estamos indo além de seguir a receita com remédios tomados de maneira correta. O tratamento das cardiopatias é multifatorial e depende da adoção de um estilo de vida saudável, com alimentação balanceada, sono adequado, controle do estresse, atividade física na rotina, não fumar, consumo moderado de bebidas alcoólicas e manutenção de conexões sociais.
Essas recomendações fazem parte da Medicina do Estilo de Vida, abordagem médica que visa promover a saúde, prevenir, tratar e até reverter doenças crônicas por meio da mudança de comportamentos no dia a dia. A ideia é colocar o paciente como protagonista e corresponsável pelos próprios cuidados, capacitando-o a adotar hábitos saudáveis, melhorar sua qualidade de vida e reduzir doenças.
Por vezes, falta informação sobre o tema para que a população se sinta motivada. Em pesquisa da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), 23,2% não entendem a má alimentação como risco cardiovascular; 30,1% não classificam a obesidade como nociva ao sistema cardiovascular; 31,3% desconhecem que a hipertensão é prejudicial e 33,5% não relacionam a inatividade física aos prejuízos da saúde do coração.
O ranking ainda inclui o desconhecimento de 33,7% sobre os efeitos negativos do colesterol e de 34,6% sobre o tabagismo. Para 47,7%, o diabetes não impacta o coração e, para 57,9%, os distúrbios do sono não são prejudiciais.
Há estudos que atestam que a dieta DASH, com alimentos ricos em frutas, hortaliças, grãos integrais, laticínios, leguminosas e oleaginosas, reduz em até 11 mmHg a pressão arterial sistólica em pessoas com hipertensão. Já a dieta mediterrânea, com alimentos de origem vegetal e gorduras monoinsaturadas, demonstrou diminuição de 30% no risco de eventos cardiovasculares.
Por outro lado, a alimentação à base de vegetais está associada à reversão da aterosclerose em casos selecionados. A negligência com a atividade física também preocupa: estima-se que 31,1% da população adulta no mundo não atinja os níveis mínimos de atividade física recomendados. No Brasil, apenas 19,4% praticam exercícios aeróbicos e 8,9% realizam exercícios de força conforme orientado.
Precisamos atacar o problema em seu ponto central, que é a conscientização do paciente — fazê-lo jogar do nosso lado, driblando as dificuldades impostas pelas doenças cardiovasculares e mantendo o time na defensiva a fim de minimizar os riscos e melhorar sua qualidade de vida.
Ricardo Pavanello é cardiologista e presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) no biênio 2026/2027. Luis Henrique Wolff Gowdak é cardiologista e vice-presidente da SOCESP no biênio 2026/2027





