Assédio, cabelo raspado e vingança: o que se sabe sobre a morte de Vitória
Corpo da adolescente foi encontrado com sinais de agressão severa; ex-namorado é investigado por mentir em depoimento

A Polícia Civil de São Paulo investiga se o assassinato de Vitória Regina Sousa, de 17 anos, foi um crime passional motivado por vingança. O corpo da jovem de Cajamar (SP) foi encontrado em uma região de matagal na última quarta-feira, 5, uma semana após seu desaparecimento, com sinais de brutalidade e agressão.
De acordo com o delegado Aldo Galiano Júnior, responsável pelo caso, Vitória foi encontrada nua e com ferimentos profundos na cabeça e na aorta, um sutiã amarrado ao redor do pescoço e os cabelos raspados. Este último elemento, afirma, é considerado típico de homicídios vingativos envolvendo traições em facções criminosas — o investigador, contudo, admite que não há evidências de envolvimento da jovem ou qualquer dos suspeitos com o crime organizado.
Desde que as buscas por Vitória começaram na quarta-feira da semana passada, 26, a polícia ouviu quatorze testemunhas, e sete pessoas são investigadas por possível envolvimento no crime — entre elas, o principal suspeito é Gustavo Vinícius Moraes, de 26 anos, ex-namorado da vítima, que se apresentou novamente à delegacia de Cajamar nesta quinta-feira, 6.
A polícia chegou a pedir uma ordem de prisão temporária contra Moraes após encontrar inconsistências entre seu depoimento inicial e as evidências da investigação, mas a solicitação foi negado pela Justiça. Ainda assim, segundo o delegado, o rapaz se entregou voluntariamente relatando que se sentia ameaçado e estaria mais seguro na prisão. Ele segue detido na delegacia.
Adolescente foi seguida após o trabalho e relatou medo à amiga
Na quarta-feira passada, por volta das 23h, Vitória deixou o shopping onde trabalha como operadora de caixa e foi até o ponto de ônibus, onde pegou uma das duas conduções a caminho de casa. Enquanto caminhava até o segundo ponto, dois homens passaram em um Toyota Yaris e a assediaram e, em seguida, ela teve a impressão de que outros dois a estariam seguindo — os quatro são considerados suspeitos na investigação.

Um dos homens teria ficado no ponto, e o outro subido junto com ela no ônibus. Em mensagens enviadas a uma amiga, a adolescente relatou que se sentia perseguida. “Tem uns dois meninos aqui do meu lado, to com medo”, escreveu Vitória por volta da meia-noite do dia em que desapareceu. Segundo a polícia, o suspeito seguiu no ônibus depois que Vitória desceu em seu destino final.
Ex-namorado ignorou pedido de ajuda e mentiu sobre local na noite do sequestro
Após descer do ônibus, Vitória teria de percorrer uma estrada mal-iluminada por cerca de quinze minutos até chegar em casa — o pai costumava buscá-la diariamente de carro para fazer o trajeto, mas naquele dia o veículo estava com problemas. Este foi o último local em que a jovem foi registrada com vida em câmeras de segurança.
Neste ponto da teoria, começam as suspeitas do envolvimento de Gustavo Moraes. Segundo o delegado, a adolescente mandou mensagens ao ex-namorado pedindo uma carona, pois estava com medo de fazer o percurso sozinha, mas foi ignorada. Minutos depois, os pais de Vitória também o chamaram pelo WhatsApp mostrando preocupação com o sumiço da garota, mas as mensagens também não foram respondidas.
No primeiro depoimento, Moraes disse à polícia que estaria na companhia de outra garota e só visualizou as mensagens por volta das 4h. No entanto, a triangulação das antenas de celular revelaram à polícia que o jovem, por volta das 0h35, estava próximo ao último local onde Vitória havia sido vista. Ele dirigia um Toyota Corolla de cor prata, que também foi descrito por testemunhas que estavam nas redondezas — o veículo foi apreendido e os fios de cabelo encontrados no interior passam por perícia.
Celular de Vitória foi detectado no extremo oposto da cidade
Ainda de acordo com a perícia técnica, o sinal do aparelho celular de Vitória foi detectado pela última vez perto de uma represa, localizada do outro lado de Cajamar. A polícia acredita que a adolescente foi morta neste local distante e levada para a região onde foi encontrada, já que a pouca quantidade de sangue detectada ao redor do corpo seria incompatível com a profundidade dos ferimentos — além disso, não havia cabelos e roupas da menina nas proximidades.
Segundo o delegado Galiano, há diversos pontos de fiscalização das polícias Militar e Rodoviária Federal no trajeto entre o suposto local do assassinato e a área onde estava o corpo — por este motivo, a polícia trabalha com a hipótese de que os criminosos conhecem a região e teriam utilizado atalhos para driblar os agentes.
Dono do Toyota Corolla é suspeito-chave para a investigação
Além dos cinco suspeitos já mencionados — o ex-namorado e os quatro homens vistos no caminho de casa –, dois nomes são investigados e ainda têm participação incerta no crime. O primeiro é Gustavo Henrique dos Santos, amigo e “ficante” de Vitória, que também teria recebido e ignorado pedidos de carona da jovem porque, segundo depoimento, estava com outra garota na noite do crime.
O sétimo suspeito, que não teve o nome revelado pela polícia, seria o proprietário do Toyota Corolla visto na noite do crime. O delegado Galiano afirmou que este homem, além de amigo de Gustavo Moraes, seria vizinho da família de Vitória, com quem teria “relações complicadas e confidenciais”.
Sem dar detalhes, o investigador disse que este suspeito havia desaparecido durante o primeiro dia de buscas pela adolescente e que durante a coletiva de imprensa da Polícia Civil, na noite de quinta-feira, 6, teria sido localizado em um sítio, interrogado e liberado. A relação entre este homem, Vitória e os outros investigados permanece sem esclarecimentos.