Ministério Público denuncia policial civil que lavou R$ 6 bilhões do PCC
Outros dois advogados também foram acusados de integrar esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa por meio de fintechs

O Ministério Público de São Paulo ofereceu denúncia contra o policial civil Cyllas Salerno Elias Júnior por envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio da fintech 2 Go Bank. Segundo o MP, a empresa foi responsável pela lavagem de mais de 6 bilhões de reais em dezesseis países — Estados Unidos, Paraguai, Peru, Holanda, Argentina, Bolívia, Canadá, Panamá, Colômbia, Inglaterra, Itália, Turquia, Dubai, Hong Kong e China, além do Brasil.
Além dele, também foram denunciados os advogados Carlos Alexandre Ballotin e Marcelo Henrique Antunes da Palma, apontados como operadores do mesmo esquema, porém por meio da InvBank Soluções Financeiras. As duas empresas teriam como reais donos integrantes da cúpula do PCC, segundo o Ministério Público. A defesa de Carlos Alexandre e Marcelo Henrique nega a participação dos dois em atividades criminosas e manifesta “absoluta indignação com a injusta inclusão de seus nomes em denúncia do MPSP por suposições que já foram devidamente esclarecidas na fase de investigação”.
A denúncia toma como ponto de partida as informações fornecidas pelo empresário Antonio Vinícius Gritzbach, durante acordo de delação premiada firmado cinco meses antes de ser assassinato a tiros no aeroporto de Guarulhos, em novembro passado. Ao MP o delator descreveu a logística utilizada pelo PCC para “esquentar” a circulação de valores arrecadados com a atividade criminosa, principalmente o tráfico de drogas.
Segundo o Ministério Público, as fintechs foram empregadas para a chamada “bancarização”, ou seja, para facilitar a compra e venda de imóveis, permitindo a entrada de valores em espécie de origem ilícita. “As fintechs direcionavam os depósitos para contas de ‘laranjas’ e sobre estas mantinham total controle. Assim, posteriormente, o negócio jurídico era formalizado sem despertar suspeitas de órgãos de fiscalização, como o Banco Central e a Receita Federal”, diz a denúncia assinada por promotores do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado, liderado pelo promotor Lincoln Gakiya.
De acordo com a investigação, a 2 Go Bank e a InvBank Soluções Financeiras atendiam aos interesses dos traficantes Anselmo Becheli Santa Fausta, conhecido como “Cara Preta”, e Rafael Maeda Pires, o Japa. Ambos foram assassinados.
Na delação, Gritzbach afirmou ter participado de reunião com Maeda na sede da 2Go Bank, e que na ocasião o integrante do PCC se apresentou como dono da empresa. E que o policial Cyllas Salerno “se utilizou do seu cargo e proximidade com indivíduos com vasto histórico criminal para auferir expressivos ganhos financeiros”.
Gritzbach relatou ainda que seu escritório entabulou alguns negócios nos quais Cara Preta figurava como cotista da InvBank, com a participação também de Maeda, embora o nome do advogado Carlos Alexandre Ballotin aparecesse no quadro societário.
“Verificou-se que tais fintechs serviram para dissimular e integrar recursos ilícitos na economia formal, montando e operacionalizando um sistema para blindagem patrimonial de seus clientes, notadamente de integrantes do PCC, na capital. A análise demonstrou, ainda, que o capital movimentado tem vínculo direto com pessoas que não possuem capacidade financeira lícita e com empresas de fachada, que usualmente sequer possuem local comercial e estão registradas em nome de “laranjas”, ou criminosos.
Além da condenação, o MP pede que os denunciados paguem multa no valor de 100 milhões de reais, a título de dano material coletivo. VEJA tenta contato com as defesas dos denunciados.
O que diz a defesa
Em nota, a defesa de Carlos Alexadre afirma que durante a gestão dele, de 2020 a setembro de 2022, a InvBank nunca se relacionou com qualquer fintech citada na denúncia, nem operava como tal. E argumenta que nenhuma das pessoas mencionadas na denúncia eram clientes da plataforma durante a gestão dele.
O texto, assinado pelo advogado Leandro Ponzo, afirma ainda que a transação financeira de Anselmo “Cara Preta” em favor da pessoa jurídica Invbank limitou-se a transferência bancária com finalidade de constituir sociedade em conta de participação (SCP) para investimento em um empreendimento imobiliário. “O negócio não se confunde com serviços financeiros prestados pelo Invbank e é absolutamente legítimo, com documentação já à disposição das investigações”, diz o texto.
Ponzo argumenta que, em outubro de 2021, quando houve a transferência, não havia qualquer informação pública a respeito de práticas criminosas atribuídas a Anselmo “Cara Preta”, incluindo a pesquisa de certidões cíveis e criminais. “Somente após a morte do sr. Anselmo é que o sr. Carlos Ballotin, assim como todo o público, tomou conhecimento das acusações e a SCP foi desfeita, com a devolução integral de todos os valores depositados ao espólio do falecido”, diz o advogado.
Segundo ele, as transações entre Carlos e Marcelo entre maio de 2020 e fevereiro de 2021 têm origem lícita e documentada perante a Receita Federal, sendo proveniente de receitas obtidas com o trabalho como advogados, como sócios.
VEJA tenta contato com a defesa de Cyllas Salerno Elias Júnior.