No final de outubro, metade do país estará decepcionada com o resultado da eleição para presidente. O processo de redemocratização que progride há décadas é interpretado de diferentes formas pelos brasileiros. Em 2026, mais uma vez, ele desemboca em convivências fragmentadas que tornarão a eleição, principal evento deste ano, uma representação dos embates entre visões de mundo conflitantes. Aos olhos de hoje, é muito improvável que ocorra outro cenário que não o da repetição dos acirramentos ocorridos em 2018 e, principalmente, em 2022. À medida que a votação se aproxima, esse ambiente belicoso — comum hoje a muitos países — impõe aos cidadãos um envolvimento com política que, por tão emocional, resulta em menos reflexão sobre os mais relevantes problemas da nação.
Nos últimos anos intensificaram-se entre os brasileiros uma espécie de ansiedade estrutural, a insegurança, o medo do futuro, a descrença em instituições e a sensação de decadência. Mesmo dados objetivos de recuperação econômica são pouco percebidos na vida real. Contra os bons índices econômicos obtidos pelo atual governo, a maioria dos brasileiros responde com pessimismo. Isso confirma a frase cunhada pela economista Maria da Conceição Tavares, em 2014: “O povo não come PIB, come alimentos”.
Nesse ambiente em que prevalece a desconfiança, as mais recentes pesquisas mostram Lula na liderança em simulações de primeiro turno contra diversas alternativas de nomes da oposição. Estas, se somadas, aproximam-se do líder. Nos cenários de segundo turno há um acirramento que projeta mais fielmente as proporções do eleitorado, mas que não anula o favoritismo natural dos incumbentes em disputas por reeleição. O mais recente levantamento, feito pela Quaest na segunda semana de janeiro, mostra que a vantagem de Lula sobre os mais prováveis adversários é de 5 pontos contra Tarcísio, 7 contra Flávio Bolsonaro e 9 contra Ratinho Jr. Isso mostra que a fragmentação da oposição no primeiro turno se equilibraria na etapa seguinte caso a eleição fosse hoje.
“O clima belicoso resulta em menos reflexão sobre os temas relevantes”
Como as intenções de voto estão sujeitas a mudanças até o momento do voto, outras perguntas dicotômicas, que impõem ao entrevistado uma escolha entre duas opções, podem ser mais reveladoras das duas metades em que o eleitorado se divide e julga a conjuntura. Quando a Quaest pede para os entrevistados avaliarem se aprovam ou desaprovam o atual governo, impõe-se o equilíbrio: 49% desaprovam e 47% aprovam. O mesmo ocorre ao serem questionados sobre o que provoca mais medo hoje: Lula continuar (40%) ou a família Bolsonaro voltar (46%). Diante de duas opções, como a que será vivenciada nas urnas no dia 25 de outubro, a disputa tende a ser decidida por diferença residual, marcada por desejos antagônicos de futuro e de condução do país.
Até lá, temas apontados como mais preocupantes pela população serão tratados com a atenção que também deveriam ter em períodos não eleitorais. Alguns desses assuntos, como segurança pública, economia, saúde e corrupção, surgem com destaque em várias pesquisas. A hierarquia em que aparecem varia ao longo dos anos de acordo com a conjuntura e a percepção das camadas mais numerosas da sociedade. Neste momento, segurança pública é o problema mais citado por significativos 31%, segundo a mesma Quaest do início do mês. Desde maio do ano passado as menções a esse tema ultrapassaram as questões econômicas, atingindo o pico de 38% em novembro, logo após a ação policial ocorrida no Rio de Janeiro. É um número relevante por ser resultado de menções espontâneas, sem nenhum estímulo aos entrevistados, revelando o que está no topo da mente dos brasileiros. O aumento da preocupação com a violência não significa que os demais problemas perderam importância, mas revela que, dentre tantas inseguranças a que estão submetidos, as ameaças recorrentes a partir da atuação de facções e milícias e, muitas vezes, da letalidade policial nas periferias tornaram-se a parte mais assustadora do cotidiano.
Em outubro do ano passado, o Datafolha revelou que ao menos 28,5 milhões de pessoas convivem com o crime organizado no bairro onde moram. A pesquisa foi encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entidade que mais produz informações sobre o tema. Os dados mostram que facções criminosas e milícias estão presentes, atualmente, na vizinhança de 19% dos brasileiros. Em 2024 eram 14%. Essa preocupação crescente se materializa em medo de sair às ruas e tensão constante por ter filhos cooptados e expostos ao crime e às ações da polícia em bairros periféricos. Operações como a efetuada no Rio, avaliada como “bem-sucedida” pelas autoridades, recebem apoio popular gerado pela necessidade de soluções imediatas para um problema urgente muito presente. Mas os dados mostram que o método da “guerra às drogas”, com ações violentas nas periferias, teve como resultado principal o fortalecimento do crime organizado e a vitimização crescente de segmentos mais desprotegidos. Além disso, o recrudescimento de crimes como roubo de celulares, também ligados a redes criminosas, espalha o medo por todas as camadas da sociedade. Bairros de classe média passaram a ser alvos mais frequentes desse tipo de ação. Será tema central e decisivo nos numerosos debates, entrevistas e discussões dos próximos nove meses, exigindo respostas claras e factíveis dos candidatos.
Nesse contexto, pesquisas de opinião pública ganham ainda mais importância do que sempre tiveram para a compreensão das complexidades do processo eleitoral e dos anseios reais da sociedade. Em ambiente repleto de falseamentos, com propagação profissional de mentiras em massa, e no qual a reflexão dá lugar a paixões cegas, as análises independentes de dados científicos são vacinas fundamentais contra distorções que visam confundir o público. Assim como contribuem decisivamente com seus dados para explicar a história, os institutos de pesquisas precisam também ser vigiados em sua transparência e isenção.
Um Brasil cindido irá às urnas em momento crucial para a saúde de sua democracia. Caminhar ao lado dela, em sua defesa intransigente e sem concessões, é a melhor contribuição para que ela prevaleça sobre tantas ameaças e para diminuir as tensões da convivência entre as duas metades de um Brasil fraturado em um momento crucial para o país.
Mauro Paulino é analista de eleições e opinião pública. Foi diretor-geral do Datafolha por 25 anos
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Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979






