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Mauro Paulino

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O fator Bolsonaro

As intenções de voto escorrem de pai para filho de forma surpreendente

Por Mauro Paulino Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 20 fev 2026, 10h44
  • Jair Bolsonaro sumiu. Após um cerco jurídico sem precedentes para um ex-presidente — proporcional à série de crimes contra a democracia que liderou durante sua gestão —, foi condenado e detido em prisão domiciliar em agosto do ano passado, indo para regime fechado em novembro, após violar a tornozeleira. Está há pelo menos sete meses proibido de se manifestar publicamente. Inelegível desde junho de 2023, as informações sobre ele são, há anos, as mais negativas para um líder político, envolvendo, além dos crimes e condenações, doenças graves. Surgem também, e com constância, memórias de sua atuação negacionista durante a pandemia, que resultou em centenas de milhares de mortes evitáveis.

    Sua gestão da gravíssima crise sanitária foi repleta de escárnio, irresponsabilidades e omissões. Essa atuação foi decisiva para sua derrota em 2022, segundo seus próprios aliados. Pelo conjunto da obra, metade do país não votaria hoje de jeito nenhum em um candidato apoiado por ele (49%, segundo a última Quaest). Não há na história ator político que reúna tanto peso negativo indicando inevitável ostracismo. Pois, negando a lógica da história, Jair Bolsonaro resiste como a maior força gravitacional da direita brasileira.

    A mesma Quaest mostra que a influência do ex-presidente permanece como o principal fiel da balança para a oposição: 22% votariam em qualquer nome indicado por ele, enquanto outros 25% atribuem alguma importância a seu apoio. Somados, são 47% que mantêm atenção aos movimentos da família Bolsonaro. É suficiente para levar qualquer candidato ao segundo turno, com chances semelhantes às de Lula. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ungido candidato de forma unilateral, sem consulta aos aliados e lançado de maneira improvisada, é a prova desse poder de influência. Mês a mês as intenções de voto escorrem naturalmente de pai para filho de forma surpreendente até para o próprio clã. Já chega a um terço do eleitorado em simulações de primeiro turno e emparelha com Lula no cenário de segundo. O mesmo efeito se daria com os governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e com Ratinho Junior, do Paraná, ou com a ex-primeira-dama Michelle se abençoados pelo líder.

    É um poder de transferência inicial de votos inédito, comparável apenas ao de Lula que elegeu Dilma Rousseff do alto de seus 83% de aprovação ao fim do segundo mandato. A diferença para o Bolsonaro de hoje é que, no caso do apoio de Lula a Dilma, não foi um processo instantâneo, pois exigiu muito trabalho de comunicação e de apresentação da candidata para o país. Pesquisadores de eleições sempre afirmaram que transferência de votos nunca é automática. No caso de Bolsonaro, é.

    Enquanto Dilma partiu de um percentual irrisório de apenas 3% no Datafolha, em março de 2008, Flávio já larga consolidado e competitivo. Mesmo com um governo bem avaliado, Lula levou meses para tornar sua candidata conhecida e transferir seu prestígio. Já Bolsonaro, mesmo preso, mesmo doente, mesmo rejeitado pela maioria, entrega um sucessor instantâneo e protagonista que briga pela liderança da disputa.

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    “As intenções de voto escorrem de pai para filho de forma surpreendente”

    Mas é a alta rejeição que determina o teto do bolsonarismo e as chances de vitória semelhantes às de Lula, também com rejeição nas alturas. Assim como em 2022, ambas as candidaturas lutarão para diminuir resistências e convencer a parte mais independente do eleitorado. Segundo classificação criada pela Quaest, esse grupo corresponde a 32% e é o alvo principal das campanhas. A esquerda conta hoje com 33%, sendo 19% de lulistas e 14% de não lulistas. Do outro lado, há também 33% de direita formados por 12% de bolsonaristas e 21% de não bolsonaristas. É mais um retrato da teoria dos três terços em que se divide o eleitorado e é constatada por diversos estudos. Tanto não lulistas de esquerda quanto não bolsonaristas de direita tendem a se agrupar naturalmente às candidaturas predominantes à medida que o segundo turno se aproxima. Cabe aos independentes, mais resistentes à polarização, penderem mais para um lado ou para outro, com tendência a praticarem o voto útil já no primeiro turno se houver ameaça de vitória do candidato adversário. Foi o que aconteceu na arrancada final em 2022, que gerou surpresa diante das pesquisas feitas na véspera do pleito. Na última hora, houve um movimento de eleitores independentes de direita para evitar a vitória de Lula já no primeiro turno.

    É nesse xadrez que a resiliência da marca Bolsonaro será testada. Até que ponto os atributos do ungido serão suficientes para suprir a ausência do criador na comparação direta com o poder de fogo do incumbente? É uma incógnita o desempenho de Flávio durante uma campanha presidencial. Não dá para comparar seu poder de sedução e de mobilização frente ao do pai, aos olhos atuais do eleitorado. Pesa sobre sua imagem a desistência de um debate pela disputa a prefeitura do Rio de Janeiro por ter passado mal, em 2016. A campanha responderá se o carisma oculto do pai também será transferido para o filho. Flávio terá que dar conta do espólio que envolve a pauta de costumes, a relação direta com o eleitorado evangélico, a defesa da liberdade econômica e o antipetismo, entre tantas posições que o pai sustentou durante sua longa trajetória.

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    Entre os argumentos mais fortes que o favorecem está o da alegada perseguição política, com o Poder Judiciário no centro das causas. Pesquisas do Datafolha indicam que essa percepção alimenta o engajamento. Para uma parcela significativa da base bolsonarista, votar no indicado é uma forma de protesto contra as decisões do STF, que, por sua vez, sofre com o forte desgaste da imagem pelas recentes suspeitas levantadas no caso Master e que devem render mais alguns meses de noticiário negativo.

    Em dezembro do ano passado, o instituto de pesquisas Datafolha mostrou que 91% dos eleitores de Bolsonaro não se arrependem do voto. Essa convicção cria uma barreira contra o desgaste da imagem do “mito”. Os próximos meses dirão se Flávio terá talento para enfrentar um adversário carismático, com números positivos na economia, compensando o sumiço forçado do pai. O desejo real da massa bolsonarista é ver Jair vestindo a faixa. Estará o filho Zero Um à altura desse apetite?

    Mauro Paulino é analista de eleições e opinião pública. Foi diretor-geral do Datafolha por 25 anos

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    Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

    Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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