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A psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky reflete sobre saúde mental e suas conexões com a nossa sociedade

Muito além de uma mania: o que é o TOC e como ele pode abalar sua vida

É preciso desmistificar o transtorno obsessivo-compulsivo, uma doença por trás de muito sofrimento para a qual existem inclusive novos tratamentos em estudo

Por Ilana Pinsky
2 fev 2026, 17h00 •
  • Vamos combinar: quando você ouve a sigla TOC, de transtorno obsessivo-compulsivo, a imagem que costuma aparecer é quase sempre caricata. Um personagem excêntrico, organizado demais, previsível demais, engraçado demais. Alguém como o vivido por Jack Nicholson no filme Melhor é Impossível: o homem que precisa checar a porta dezenas de vezes antes de sair de casa, que evita qualquer contato físico, que se senta sempre na mesma mesa, no mesmo restaurante, para ser atendido pela mesma garçonete e comer exatamente o mesmo prato todos os dias.

    Ou então aquela pessoa cheia de “manias”, perfeccionista, que sofre porque o mundo insiste em não funcionar do jeito certo. Essas imagens ajudam pouco — e atrapalham muito. Transformam o TOC em algo quase simpático, próximo das pequenas excentricidades que todos temos, e apagam o essencial: o TOC é um dos transtornos psiquiátricos que mais causam sofrimento humano.

    Pouca gente sabe que o TOC está entre as condições psiquiátricas mais comuns do mundo, atrás apenas dos transtornos depressivos, ansiosos e dos transtornos por uso de substâncias (alcoolismo e dependência de outras drogas). Estimativas globais indicam que entre 2% e 4% da população terá TOC ao longo da vida.

    É um transtorno frequentemente persistente, que pode durar muitos anos ou acompanhar a pessoa por toda a vida. No Brasil, estudos epidemiológicos em grandes centros urbanos, como o Megacity São Paulo, encontraram prevalências ainda mais altas em determinados períodos.

    Durante muito tempo, o TOC foi classificado como um transtorno de ansiedade. E isso não era um erro completo: a ansiedade é um dos seus motores centrais. Mas, nas edições mais recentes do DSM, manual diagnóstico da psiquiatria, ele passou a ocupar uma categoria própria, ao lado de quadros relacionados como o transtorno dismórfico corporal (uma distorção persistente da autoimagem), a tricotilomania (arrancar cabelos), o transtorno de escoriação (cutucar a pele) e o transtorno de acumulação.

    Essa mudança reflete algo importante: o TOC tem mecanismos específicos, circuitos cerebrais próprios e exige abordagens terapêuticas muito particulares. Na prática clínica, o TOC se organiza em torno de dois eixos: obsessões e compulsões.

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    As obsessões não são simples preocupações exageradas. São pensamentos intrusivos, que surgem sem convite, contra a vontade da pessoa, e que não vão embora. Eles reverberam. Voltam. Insistem. Mesmo quando a pessoa reconhece que aquilo não faz sentido, que não corresponde à realidade, que é estranho ou absurdo. Esses pensamentos costumam se concentrar em alguns conteúdos clássicos: contaminação, doenças, catástrofes, temas religiosos, sexuais ou violentos.

    Pessoas profundamente pacíficas podem passar o dia apavoradas com a ideia de perder o controle e atacar alguém — algo que jamais fizeram e jamais desejariam fazer. Em muitos casos, as obsessões vêm acompanhadas de imagens mentais vívidas, quase como cenas involuntárias: a pessoa se vê cometendo um ato violento, sexualmente inadequado ou moralmente inaceitável. O choque entre quem ela é e o conteúdo desses pensamentos é devastador para o indivíduo.

    As compulsões surgem como uma tentativa desesperada de aliviar essa angústia. Podem ser comportamentos observáveis — lavar as mãos repetidamente, checar portas, repetir gestos, organizar objetos — ou rituais mentais invisíveis, como contar números, murmurar repetidamente frases ou rezar de forma rígida. Esses atos seguem regras estranhas, sem lógica aparente. Por que exatamente dez lavagens, e não nove? Por que contar até 32, e não até 28? A pessoa não sabe explicar. Mas sabe que, se não fizer daquele jeito, a ansiedade se torna insuportável.

    É um tipo de pensamento mágico: a sensação de que aquele ritual é a única barreira entre o pensamento e a catástrofe. O diagnóstico de TOC não se refere a alguém que seja organizado ou exigente. Ele é dado quando obsessões e compulsões passam a dominar a vida e causar prejuízos concretos.

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    A criança que não consegue sair do banheiro para ir à escola porque não consegue parar de lavar as mãos. O adulto que evita esportes coletivos por pensamentos sexuais intrusivos. O pai que não pega o próprio filho no colo por medo de deixá-lo cair. A família inteira que passa a viver sem facas em casa porque um dos membros, aterrorizado com a ideia de machucar outra pessoa, escondeu todos os objetos cortantes.

    Aliás, esse sofrimento pode ser amplificado por um fenômeno frequente chamado acomodação familiar. Sem perceber, familiares passam a se adaptar ao transtorno: seguem regras, evitam gatilhos, participam dos rituais. A intenção é aliviar o sofrimento de quem tem TOC, mas o efeito costuma ser o oposto: o transtorno se fortalece.

    O TOC é muitas vezes uma doença silenciosa. Muitos pacientes demoram anos para procurar ajuda. Há vergonha, medo de ser julgado, receio de que pensamentos de conteúdo sexual ou violento sejam interpretados como desejos reais. “Vão achar que sou um criminoso, um pervertido, um monstro”.

    Esse silêncio pode ter consequências graves: maior risco de depressão, tentativas de suicídio, piora na saúde física, dificuldades de trabalho, de relacionamento, uma qualidade de vida profundamente comprometida. Raramente o TOC vem sozinho; depressão e outros transtornos de ansiedade costumam caminhar junto.

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    Como lidar com o TOC

    A boa notícia é que o TOC tem tratamento — e tratamentos eficazes. Os pilares são medicamentos antidepressivos que atuam sobre a serotonina, geralmente em doses mais altas do que as usadas para depressão; e a terapia comportamental com exposição e prevenção de resposta, que ajuda o paciente a se expor ao desconforto sem realizar a compulsão, até que a ansiedade diminua por si só.

    O processo pode ser inicialmente desconfortável. Exige profissionais treinados e um alto grau de engajamento do paciente. Mas funciona. Quando bem conduzido, cerca de 70% dos pacientes apresentam boa resposta. Outros têm melhora parcial. Uma pequena parcela — cerca de 1% das pessoas com TOC — permanece gravemente incapacitada, mesmo após múltiplas tentativas terapêuticas. São esses casos que costumam desaparecer das estatísticas e da vida social.

    Nesse ponto entram as abordagens de neuromodulação cerebral, desenvolvidas e estudadas em centros especializados. No Brasil, uma das principais referências é o PROTOC, o Programa de Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo do Instituto de Psiquiatria da USP, coordenado pelo psiquiatra Marcelo Hoexter, que concedeu a entrevista que embasa grande parte das informações deste texto. Internacionalmente, outros grupos de experts também têm utilizado a técnica, com bons resultados.

    O ponto de partida é compreender que, nos quadros graves de TOC, alguns circuitos cerebrais permanecem cronicamente desregulados — como se estivessem presos a um curto-circuito. Medicamentos e psicoterapia atuam tentando restaurar esse equilíbrio. Em uma pequena parcela dos casos, cerca de 1%, essas abordagens não bastam. É para esses pacientes, classificados como portadores de TOC refratário, que entram as técnicas de neuromodulação, desenhadas para intervir diretamente nesses circuitos disfuncionais.

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    Existem dois grandes tipos de procedimentos. O primeiro são os chamados procedimentos ablativos. Neles, o neurocirurgião (com indicação do psiquiatra especializado) realiza uma lesão extremamente precisa em uma área específica do circuito cerebral envolvido no TOC, usando técnicas modernas como radiofrequência ou laser.

    Não se trata, obviamente, das práticas grosseiras e descontroladas do passado, como a lobotomia. Hoje, o alvo é milimetricamente definido, com base em décadas de pesquisa neuroanatômica e funcional. A grande vantagem é que, se o paciente melhora, o efeito tende a se manter. A desvantagem é que a lesão é irreversível.

    O segundo tipo é a estimulação cerebral profunda, conhecida pela sigla DBS (Deep Brain Stimulation). O princípio é semelhante ao de um marcapasso cardíaco. O neurocirurgião implanta eletrodos em regiões específicas do cérebro, conectados a uma bateria posicionada sob a pele, na região do tórax. Esses eletrodos emitem pulsos elétricos contínuos que modulam a atividade dos circuitos disfuncionais. A principal vantagem é a reversibilidade: se não funcionar ou causar efeitos indesejáveis, o sistema pode ser ajustado ou retirado. A desvantagem é a complexidade do manejo: ajustes frequentes, troca de bateria, acompanhamento intensivo.

    Os dados acumulados pelo PROTOC mostram taxas de resposta entre 40% e 60% nesses pacientes extremamente graves — resposta definida tecnicamente como uma redução de pelo menos 35% dos sintomas. Para pessoas que estavam completamente incapacitadas, isso pode significar voltar a sair de casa, cuidar da própria higiene, trabalhar, dirigir, se relacionar. Não é cura. É manejo. Mas, em muitos casos, é a diferença entre existir e viver.

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    Um dos pacientes acompanhados pelo serviço passou meses sem conseguir tomar banho, escovar os dentes ou cortar as unhas, porque os rituais não tinham fim. Evitava qualquer tentativa de higiene para não entrar em um ciclo interminável de sofrimento. Após o procedimento de neuromodulação, conseguiu retomar cuidados básicos, tirar carteira de motorista, sair de casa e voltar a buscar trabalho. Pequenos ganhos, enormes para quem havia perdido tudo.

    Esses procedimentos ainda são realizados no Brasil em contexto de pesquisa, não são cobertos pelo SUS nem por planos de saúde. O PROTOC já acompanhou dezenas de pacientes submetidos tanto a procedimentos ablativos quanto à estimulação cerebral profunda, e foi responsável pelo primeiro ensaio clínico randomizado, duplo-cego, mostrando a eficácia dessas intervenções — um marco internacional na área.

    O TOC não é frescura, nem mania, nem traço de personalidade. É um transtorno sério, comum, profundamente incapacitante em suas formas graves, mas tratável. E quanto mais cedo ele é reconhecido, diagnosticado e tratado corretamente, menor a chance de que a vida da pessoa seja engolida por rituais invisíveis que ninguém acha engraçados quando vistos de dentro.

    * Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp, e autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram

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