Para quem tem a força, o seu uso é inevitável. Donald Trump, por exemplo, está fazendo uma nova versão da “diplomacia das canhoneiras”, o ápice do imperialismo praticado no século XIX por potências como a Inglaterra e a França. Além, claro, dos Estados Unidos, com o famoso princípio da América para os americanos da Doutrina Monroe — significando todos os habitantes do continente, não só os, perdoem-nos a horrível palavra, estadunidenses, embora interpretada, não sem razão, como uma declaração de esferas de influência. A intenção era não deixar as potências europeias vir beber nas águas mais vulneráveis da América do Sul e do Caribe. A nova política introduzida por Trump pode ser chamada de diplomacia dos porta-aviões em escala global. Todo mundo está assistindo como funciona: uma movimentação monumental de poder bélico, por meio dos porta-aviões que, em conjunto com embarcações de apoio, têm uma acachapante capacidade de fogo. Nicolás Maduro está tendo a oportunidade de refletir sobre o assunto. Deveria ter negociado uma transição ou realmente acreditava que as patéticas forças armadas venezuelanas tinham um efeito dissuasivo sobre os americanos? Ao contrário da imagem de brucutu falastrão, Trump foi econômico. Só tirou Maduro e senhora do quebra-cabeça que agora está sendo remontado pelas mesmas figuras que continuam a proferir juramentos de lealdade ao chavismo. Funcionará como instrumento de uma mudança de regime sem precedentes?
Esse uso da força limitado, ou cirúrgico, conforme o jargão, segue um princípio enunciado por Maquiavel da seguinte maneira: “Não me interpretem mal e achem que eu penso que nunca se deve usar armas e força, mas elas devem ser preservadas como último recurso, onde e quando outros métodos não bastem”. Mas é, incontestavelmente, uma mudança nas práticas, instauradas depois da Segunda Guerra Mundial — sob inspiração, em especial, dos EUA. Representa, de fato, uma mudança na ordem internacional, embora os que hoje batam no peito em sua defesa frequentemente sejam os que queriam mudá-la para acabar com o imperialismo malvado e os princípios ocidentais de democracia e livre mercado.
“Estaríamos nós revertendo ao imperialismo tal como existiu no século XIX?”
Estaríamos nós, sob o princípio da diplomacia dos porta-aviões, revertendo ao imperialismo tal como existiu no século XIX, quando a Inglaterra, em especial, abria mercados mandando a Marinha Real impor a submissão ou a abertura dos portos, o que viesse antes? A mais atroz das consequências dessa política foi o incêndio do Palácio de Verão de Pequim, onde os imperadores chineses desfrutavam, para relaxar, de um incomparável complexo de 600 edificações. Havia inclusive uma espécie de aldeia cenográfica, com pontos de comércio, pessoas comuns e até ladrões, para que os imperadores soubessem como era a vida fora dos portões de seus palácios. O saque e o incêndio, em 1860, foram uma vingança pela prisão de uma delegação britânica, incluindo um correspondente do Times de Londres, presos e chinesamente torturados.
Maquiavel alertava para as inconveniências do uso da força: faz as pessoas ficarem com raiva e continuarem com raiva; custa caro e, como é preciso continuar a usá-la, continua caro; e o custo tende a subir. A Doutrina Donroe vai testar se isso é verdade?
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982





