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Faltou um pouco de humanismo

Linguagem tosca e ausência de ideias revelam preconceitos de Erika

Por Vilma Gryzinski 29 mar 2026, 08h00 •
  • Se uma mulher não usa o cabelo da forma que você acha certo, o que diz? “Ultrapassada, vai hidratar esse cabelo.” Foi nesses termos, opostos ao que se considera o respeito pela essência das mulheres, não por sua aparência, que a deputada Erika Hilton se referiu à colega Julia Zanatta (que, por sinal, tem um cabelo lindo). Os assessores-maquiadores da deputada devem ter achado a resposta o máximo, mas ela apenas diminuiu a estatura de uma pessoa que deveria ser exemplo admirável de superação, tendo morado na rua e se prostituído quando era adolescente, condição degradante que conseguiu mudar com força de vontade, estudos e entrada na política. As atitudes agressivas, ironicamente, típicas de homens que querem calar a boca de mulheres e intimidá-las com a ridicularização, ajudaram a criar uma rejeição de 84% ao nome de Erika como presidente da Comissão da Mulher. Não melhorou em nada que ela tivesse pouco de significativo a dizer sobre como propõe promover os direitos femininos. Em vez de contribuir para a causa trans, ajudando a opinião pública a entender como pessoas dessa natureza podem ter um papel positivo para a sociedade, ela fez exatamente o oposto: virou um exemplo de arrogância e de raiva às mulheres, as “imbeCIS” que ladram, nos seus termos.

    “Ela ainda pode virar o jogo, com uma atitude inteligente e generosa na Comissão da Mulher”

    A tensão entre direitos femininos e respeito pelas escolhas das mulheres trans é uma constante desde que o fenômeno aflorou, nos últimos vinte anos — homens trans não estão envolvidos porque, em geral, por mais másculos que sejam, não querem cumprir penas em penitenciárias masculinas. Nos países anglo-saxões, formou-se até uma divisão oficial: feministas da “velha guarda”, com currículo de lutas históricas, e mulheres trans. Em alguns eventos políticos em Londres, elas se encontram e as mulheres trans sempre saem ganhando nos sopapos. Recentemente, houve no país uma decisão relevante: um grupo de sete enfermeiras ganhou uma causa trabalhista contra o hospital onde um médico trans se trocava no mesmo vestiário que elas. Quando uma das enfermeiras alegou desconforto, ouviu que precisava ser reeducada a se mostrar mais inclusiva. J.K. Rowling apoiou a causa das enfermeiras — mais um motivo para ser acusada de todos os horrores imagináveis.

    Antes do advento trans, um homem feminilizado poderia ser travesti ou uma das várias categorias do leque da homossexualidade, mas passou a ter recursos inimagináveis: trocar de nome e de identidade, colocar seios de silicone, reeducar a voz e fazer um arremedo de vagina. Muitos ficam felizes, outros até se arrependem. Nada disso existia na época em que um dos homens mais poderosos do mundo, o imperador adolescente Heliogábalo, oferecia os maiores recursos de Roma ao médico que conseguisse mudar seus genitais. Prostituía-se no palácio imperial, escolhia autoridades pelo tamanho do pênis e promoveu um banquete em que os comensais foram sufocados por pétalas de rosas que, de repente, começaram a cair do teto. Foi assassinado aos 18 anos.

    Não deve ter sido fácil para Erika enfrentar a barreira de críticas dos últimos dias, mas ela tem condições de virar o jogo com uma atitude inteligente e generosa na Comissão da Mulher. Algo que a mostre como uma política humanista, não uma combatente da causa trans. Heliogábalo não é exemplo para ninguém.

    Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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