Mundo por um fio: conciliação ou ruptura na fala de Trump à nação?
Todos aguardando para ver se presidente americano, em discurso no Congresso, vai abandonar aliados europeus ou soterrar a Ucrânia

“Estamos numa encruzilhada da história.” Parece um lugar comum, mas é verdade o que disse o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, um advogado esquerdista que abriu os braços a Volodymyr Zelensky, procurando ao mesmo tempo não fechar a porta a Donald Trump. O tamanho da encrenca já foi dado pela suspensão da ajuda à Ucrânia e será definido especificamente hoje pelo presidente americano, no seu discurso ao Congresso.
Como os temas mais importantes do país são obrigatoriamente abarcados nesse tipo de discurso, existe uma enorme expectativa sobre ele. Irá Trump impor condições absurdas para se reaproximar da Ucrânia? Ou o abandono da Ucrânia à própria sorte é apenas um capítulo de um afastamento geral em relação à Europa?
É até difícil fazer um enunciado assim, mas os fatos estão se acelerando vertiginosamente. Entendê-los exige um esforço extra para não escorregar no excesso de simplificação. Nessa vertente, criticar Trump na questão da Ucrânia é favorecer, indiretamente, o atual governo brasileiro (não obstante ele também tenha tripudiado sobre Zelensky). Inversamente, por esse raciocínio, dar razão a Trump em tudo, atribuindo-lhe astuciosos planos geopolíticos, prejudica a esquerda local.
Por favor, evitem essas armadilhas.
“ESCALADA DELIBERADA”
A causa ucraniana tem o apoio de políticos de esquerda, de direita e de centro na Europa porque todos entendem que um abuso como invadir e guerrear um país vizinho coloca a Rússia não só na posição de transgressora dos princípios mais básicos da convivência entre os povos, mas também aumenta os riscos de que o expansionismo de Moscou não pare na Ucrânia. E faz isso na condição de detentora do maior arsenal nuclear do mundo.
Não é errado que os líderes europeus, de diferentes tendências, tentem simultaneamente apaziguar Trump e apoiar Zelensky. Keir Starmer é um exemplo disso. Convocou até o rei, literalmente, para receber o tripudiado presidente ucraniano – uma manobra arriscada, pela possibilidade de transgredir a imparcialidade dos monarcas, mas com a qual Charles concordou.
Com um governo fraco e cheio de vícios esquerdistas, Starmer está demonstrando ter fibra na questão da Ucrânia. Outro homem de coragem é o alemão Friedrich Merz, atualmente em tratativas para um governo de coalizão que o torne primeiro-ministro.
Merz, um democrata-cristão de direita, disse com incomum franqueza que a fatídica reunião no Salão Oval da sexta-feira passada foi construída de propósito para ter o resultado que teve. “Na minha avaliação, não foi uma reação espontânea ao que Zelensky estava dizendo, mas claramente uma escalada deliberada.”
Antes mesmo desse choque, Merz já havia feito declarações fortes sobre a necessidade de que a Europa cuide da própria segurança muito mais efetivamente, pois a época do guarda-chuva americano, convencional e nuclear, está chegando ao fim.
“Minha prioridade absoluta será fortalecer a Europa o mais rapidamente possível para que possamos realmente atingir a independência em relação aos Estados Unidos”, disse ele depois da eleição que deu a maioria relativa a seu partido.
MUNDO VELHO E PERIGOSO
E acrescentou: “Nunca pensei que teria que dizer uma coisa assim num programa de televisão”.
Coisas que muitos jamais haviam pensado estão realmente acontecendo, e num ritmo acelerado.
Por exemplo, o eterno porta-voz de Vladimir Putin, Dimitri Peskov, fez a seguinte avaliação: “O novo governo está mudando rapidamente as configurações da política externa. Isso amplamente se alinha com a nossa visão”.
A atitude equivocada de Zelensky na reunião do Salão Oval, querendo discutir diante da imprensa assuntos que deveriam ser tratados em particular, chegando ao ponto de revirar os olhos e desafiar tanto Trump quanto seu vice, J.D. Vance, tem sido usada como justificativa para a guinada do novo governo. É errado. Zelensky não teve diplomacia nem jogo de cintura, mas não foi a origem do problema.
Hoje à noite saberemos mais sobre o verdadeiro tamanho do problema. Num editorial devastador, o Wall Street Journal, que pode ser considerado a voz do sistema mais do que qualquer outra publicação, disse que as posições assumidas por Trump indicam uma visão de mundo em que a China domina o Pacífico, a Rússia domina a Europa e os Estados Unidos dominam as Américas”.
“É menos um admirável mundo novo do que um retorno a um mundo velho e perigoso.”
Ontem Trump deu uma amostra do que virá hoje. Referindo-se a Zelensky, afirmou que “se alguém não quer fazer um acordo, essa pessoa não vai durar muito”. Em seguida, foi antecipado o corte da ajuda americana sem a qual a Ucrânia trava uma guerra com as mãos amarradas.