O gatão e os ratinhos: Trump usa a força para estontear adversários
Das tarifas à ajuda para a Ucrânia, o presidente usa jogo duro para conseguir o que quer de oponentes que têm pouca capacidade de reação

Até quem não liga para o boxe já deve ter ouvido a frase famosa de Mohammad Ali, sobre o conselho de seu treinador para “flutuar como uma borboleta e picar como uma abelha”. Donald Trump só costuma seguir a segunda parte do mandamento, mas está obedecendo, à sua forma, o exemplo do magnífico boxeador.
No seu entorno, foi anunciado, no mesmo dia, que o fornecimento de dados de inteligência para a Ucrânia está suspenso – um golpe quase tão brutal quanto o congelamento da ajuda militar. Mas esta pode ser retomada assim que Volodymyr Zelensky voltar às negociações com a Casa Branca.
Isso deve acontecer num “prazo muito curto”, segundo as palavras do assessor de Segurança Nacional, Mike Waltz. É uma maneira nada sutil de tripudiar sobre o presidente ucraniano, sem nenhuma opção a não ser aceitar o que Trump disser para fazer. O gatão mais poderoso do mundo pode impor seus ditames ao ratinho reduzido à impotência.
Um rato heróico, certamente, mas sem saída fora da ajuda militar americana e, tão ou mais importante, os dados que os serviços de inteligência americano, capazes de ver tudo, passam sobre alvos russos para os mísseis de alcance maior, chamados Atacm. Sem o compartilhamento, a Ucrânia perde os “olhos” nos combates fora do cenário de curto alcance.
“Brincar” com as tarifas matadoras impostas ao México e ao Canadá, dando um prazo extra de um mês às sobretaxas automóveis fabricados nos dois vizinhos, também faz parte desse jogo. O que pode fazer um país como o Canadá, na prática já uma extensão econômica dos Estados Unidos, para quem vende 77% de suas exportações? Justin Trudeau, o primeiro-ministro com a saída anunciada, chamou a sobretaxa de 25% de “uma coisa muito idiota de se fazer”. Pronto, falou. Como reagirá o gatão?
‘PRONTOS PARA LUTAR’
O comportamento de Trump não tem paralelos mesmo com seu primeiro governo. Intelectuais de esquerda estão alegando o uso da teoria do executivo unitário para definir a busca de uma concentração de poder na figura do presidente, com tendências protofascistas. É um exagero, mas Trump realmente mudou seu modus operandi.
Irá a estratégia funcionar para adversários como a China?
“Se é guerra que os Estados Unidos querem, seja uma guerra tarifária, comercial ou qualquer outro tipo, estamos prontos para lutar até o fim”, reagiu o Ministério das Relações Exteriores chinês, na declaração mais forte a respeito, Para reforçar, foi anunciado um aumento de 7,2% no orçamento militar chinês.
“Estamos preparados”, escalou o secretário da Defesa, Pete Hegseth, apelado ao célebre ditado em latim: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Sem o uso da segunda pessoa, evidentemente.
Quando todas as distrações do momento passaram – não no sentido de que sejam desprezíveis, mas de que podem ser resolvidas -, o que restará é o confronto entre Estados Unidos e China.
No momento, a China não atravessa nenhuma fase brilhante na economia e as tarifas comerciais podem ser um golpe extra. Alguns especialistas acham que a China está preocupada com a possibilidade de que Trump seja um gato astuto e esteja acertando as arestas com a Rússia para afastá-la do eixo chinês.
Nessa conta, já está sacramentado fim da guerra na Ucrânia, com a perda dos territórios já incorporados pela Rússia e garantias relativamente fracas de que não haverá novas agressões. A abelha está ferroando, terá a borboleta algo para atenuar essas perdas?