Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br
Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 7,99
Imagem Blog

Mundialista

Por Vilma Gryzinski Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O mundo que Rushdie criou

Como condiz a um poeta-profeta, o escritor antecipou o que viria

Por Vilma Gryzinski 20 ago 2022, 08h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 12h27
  • Nas linhas de abertura de Versos Satânicos, “dois homens vivos, reais e adultos caíram de uma grande altitude, 29 mil e dois pés, sem a ajuda de paraquedas ou asas”. A descrição que Salman Rushdie faz dos dois personagens, um atravessando o ar de cabeça para baixo, com o paletó do terno cinza abotoado e os braços junto ao corpo, é assustadoramente parecida com as cenas terríveis de vítimas que saltariam para a morte fugindo do incêndio provocado pelos aviões sequestrados que vararam o World Trade Center. Os personagens são atores indianos, um famosíssimo de Bollywood recém-recuperado da Doença Fantasma, outro radicado na Inglaterra, que se cruzaram por acaso no 747 sequestrado por militantes da religião sikh. A mais radical é a belíssima mulher do quarteto. É ela quem escolhe o refém que será executado, um sikh que abandonou exigências religiosas como usar sempre um turbante e não cortar o cabelo. “Apóstata traidor bastardo”, diz ela, antecipando os rótulos que seriam colados no escritor pela fatwa, a sentença de morte lavrada pelo grão-aiatolá Khomeini, o líder da revolução fundamentalista do Irã, que finalmente levou à gravíssimas punhaladas infligidas a Rushdie por um xiita de origem libanesa. O livro foi lançado em 1988, a fatwa decretada em 1989 e os atentados do 11 de Setembro, culminação ainda não ultrapassada do fanatismo fundamentalista, foram em 2001.

    “Diz Mario Vargas Llosa: ‘Escrever romances é um ato de rebelião contra a realidade, contra Deus’ ”

    O escritor como criador — ou Criador — de mundos, um antecipador da realidade que virá, um avatar do Divino, é um dos fundamentos mais conhecidos da literatura. Martim Vasques da Cunha reproduziu na Folha de S.Paulo um trecho da tese de doutorado de Mario Vargas Llosa, intitulada García Márquez: História de um Deicídio. Diz o seguinte: “Escrever romances é um ato de rebelião contra a realidade, contra Deus, contra essa criação de Deus que é o real. É uma tentativa de correção, mudança ou abolição da realidade real, da sua substituição por uma realidade ficcional criada pelo romancista”.

    Na realidade ficcional de Rushdie, a sequestradora explode o avião sobre o Canal da Mancha e os dois personagens chegam intactos ao chão, um como um recalcitrante e insone arcanjo Gabriel, outro como seu oposto de chifres. Entre os muitos recursos do arsenal do realismo mágico, o escritor indiano cria uma vivíssima Jahilia, a cidade de areia construída em torno da Rocha Negra, a pedra divina junto à qual Adão viu quatro pilares de esmeraldas encimados por um rubi gigantesco. Nessa Meca ficcional, circula um comerciante chamado Mahound, com “fronte alta, ombros largos e cílios compridos como os de uma garota”, que prega uma estranha religião na qual existe apenas um Deus, não os 360 cujas imagens circundam a Rocha. Seus seguidores são um carregador de água, um imigrante persa e um escravo. Brevemente, para ajudar a propagar sua mensagem, Mahound aceitará a existência de três das mais poderosas deusas veneradas em Jahilia. São esses os versículos satânicos.

    Rushdie em nenhum momento menospreza o profeta de uma das grandes religiões do mundo, mas outro dos personagens da cidade, o satirista Baal, avisa: “O trabalho do poeta é nomear o inominável, apontar fraudes, tomar partido, comprar brigas, dar forma ao mundo e impedi-lo de dormir”. Voltar um dia a impedir o mundo de dormir é a obra-prima que torcemos para que Salman Rushdie produza.

    Publicado em VEJA de 24 de agosto de 2022, edição nº 2803

    Publicidade
    TAGS:

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA RELÂMPAGO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    RESOLUÇÕES ANO NOVO

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.