O que os ucranianos acham da guerra e da paz? E quem sucederá Zelensky?
Trump deu as cartas e os principais interessados tendem a apoiar; falta decidir o que acontecerá com o presidente periclitante

Parece uma série daquelas de arrepiar: estará a Ucrânia caminhando para a paz? Irá a Rússia de Vladimir Putin aceitar o cessar-fogo de trinta dias e, depois disso, um acordo mais definitivo? E irá Volodymyr Zelensky sobreviver à paz, tendo já alcançado o prodígio de sobreviver à guerra?
Algumas pesquisas indicam os sentimentos dos principais interessados, os ucranianos. Vale a pena conhecê-las nesses momentos tão transformadores.
Em primeiro lugar, houve uma reação natural de cerrar fileiras em torno de Zelensky depois que ele foi brutalmente atacado por Trump e seu vice, JD Vance, na infame reunião do Salão Oval. Um levantamento do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev indicou que o apoio a Zelensky aumentou de 57% para 68%. Mesmo nas regiões mais próximas do fronte, com maiores conexões com a Rússia, ele alcançou a marca dos 60%.
Foi, obviamente, uma reação emocional. Além de compatível com a famosa teimosia eslava – a mesma que Zelensky não soube administrar diante de interlocutores hostis como Trump e Vance, resultando no conhecido desastre. Tudo isso vai ficar para trás? Zelensky voltará à Casa Branca em condições muito mais positivas? Tem chance de ser reeleito ou sua cabeça é o preço que a Rússia exigirá pela paz?
UM PAÍS RACHADO
Segundo o Survation, um instituto com base na Inglaterra, Zelensky hoje teria 44% dos votos, contra 21% para o homem que demitiu sem muita cerimônia, o ex-chefe do Estado Maior, general Valeri Zalujni, um venerado guerreiro que ganhou como prêmio de consolação a embaixada em Londres.
O ex-presidente Petro Poroshenko aparece em terceiro com 10%. Ele foi sondado por emissários americanos, da mesma forma que a ex-primeira-ministra Yulia Timochenko. Ambos disseram que são categoricamente contra eleições com o país em guerra – uma situação que agora pode, obviamente, mudar – e admitiram ter discutido como isso aconteceria.
E o que os cidadãos pensam sobre a forma de sair da guerra? A pesquisa mostra um país rachado: 39% acham que deve negociar um fim para a guerra o mais rápido possível, 39% que deve continuar lutando, mas buscar uma negociação se não houve progresso militar, e 16% querem que a luta continue em quaisquer circunstâncias.
Também é muito importante um outro resultado: 48% acham que as negociações entre Estados Unidos e Rússia são ilegítimas, 32% não sabem responder e 20% as consideram válidas.
Em outra pesquisa, do fim do ano passado, do Gallup e do Conselho Europeu de Relações Exteriores, foram dadas apenas duas opções: negociar um fim da guerra o mais rápido possível (52% apoiaram) ou continuar lutando (escolha de 38%). Dos que querem uma saída negociada, um pouco mais da metade aceita concessões territoriais.
MUDANÇA DE VENTOS
Em resumo, os ucranianos na maioria sabem que a guerra não vai bem para eles e que têm que aceitar perdas, apesar de toda a injustiça que isso representa. Também continuam a apoiar Zelensky, um símbolo da luta patriótica que conseguiu arrancar de países europeus e dos Estados Unidos a ajuda militar que manteve a integridade da maioria do território ucraniano, um verdadeiro milagre diante de um inimigo muitas vezes superior.
Mas é difícil ver, no momento, uma situação em que ele se candidatasse à reeleição.
A mudança nos ventos é perceptível em vários níveis políticos em Kiev. Disse ao jornal Telegraph um ex-alto funcionário: “A Ucrânia não pode ter um presidente que não tem a confiança de seu aliado mais poderoso. Só existe uma pergunta séria hoje na política, quem vai substituir Zelensky e quando”.
Os punhas já estão desembainhados, mas todos os três personagens principais envolvidos – Putin, Trump e Zelensky – demonstraram que têm um fôlego que desafia previsões.