Pode Macron peitar Trump? Publicamente, quer isso, mas em particular…
O discurso forte do presidente francês em Davos, com indiretas pertinentes ao americano, não tem contrapartida na realidade dos fatos
Emmanuel Macron provavelmente conseguiu um efeito indesejado quando disse em Davos que “está na hora da paz, da estabilidade e da previsibilidade”. O público que representa o suprassumo da elite mundial caiu na risada – e não foi por causa dos óculos escuros, muito mais chamativos do que o olho vermelho que procuravam esconder. Tudo o que o mundo não tem no momento é previsibilidade, com Donald Trump e suas destemperadas exigências sobre a Groenlândia, incluindo medidas punitivas contra países europeus que não as apoiarem.
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Todo mundo concorda que é um absurdo contrário a todos os princípios da autodeterminação e da soberania dos povos (o laivo colonial da Dinamarca, com seu controle sobre um território cinquenta vezes maior e a três mil quilômetros de distância, costuma ser ignorado; embora os groenlandeses queiram continuar a fazer parte do pequeno e bem-resolvido reino dinamarquês).
Nesse sentido, o discurso de Macron foi valente e teve razão ao argumentar que “preferimos o Estado de Direito à brutalidade. Não é qualquer um que peita Trump, mesmo sem citar nomes, reclamando de tentativas de “subordinar a Europa”. Macron vê a si mesmo como uma encarnação do europeísmo, embora evidentemente não tenha bala na agulha para comprar briga com o presidente americano.
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Nesse sentido, está correto na questão da Dinamarca e errado em relação ao Conselho de Paz através do qual Trump pretende uma abordagem inteiramente nova, e com ampla participação de sessenta países, para um problema que ninguém conseguiu até hoje resolver.
‘MEU AMIGO, EU NÃO ENTENDO’
A França diz que a iniciativa de Trump seria uma espécie de alternativa à ONU. Mas o que fez a ONU até hoje em relação ao Oriente Médio? Praticamente nada, inclusive porque a própria estrutura da organização mundial, que não é uma entidade com poder supraestatal ao contrário do que muitos imaginam, não permite.
Sobre a Groenlândia, está tudo em aberto. Trump dobra as apostas, como é seu estilo. Numa mensagem particular, revelada por ele, numa prova de falta de confiabilidade, Macron usou termos mais brandos. “Meu amigo, eu não entendo o que você está fazendo na Groenlândia”.
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Trump detonou o “amigo”, dizendo que “ninguém quer saber dele porque estará fora do cargo muito em breve”. Ah, sim, sobre a recusa em integrar o Conselho de Paz: “Vou colocar uma tarifa de 200% sobre seus vinhos e champanhes e ele irá aderir”.
Macron está promovendo uma reunião do G7 na quinta-feira, em Paris (convidou Trump para um jantar nesse dia), e o tom de confrontação com Trump está mobilizando as cabeças mais frias para acalmar os ânimos.
NOVAS ROTAS MARÍTIMAS
Quem imaginaria que os Estados Unidos fossem brigar com a Europa? Ou que a Groenlândia viraria um assunto dessas proporções?
Por mais necessária que a ilha seja para a segurança ocidental, os Estados Unidos e os europeus estão do mesmo lado, não em campos inimigos.
Conhecedores do mundo Trump dizem que muitos dos argumentos do presidente em relação à Groenlândia procedem de um amigo dos tempos de faculdade, Ronald Lauder, bilionário herdeiro do império de cosméticos criado por sua mãe, Esté Lauder.
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A revelação vem de John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional transformado em antitrumpista. Ele disse que, em 2018, foi convocado por Trump para responder uma pergunta aparentemente fora dos padrões: “Um empresário importante sugeriu que compremos a Groenlândia. O que você acha?”.
Bolton não descartou a hipótese de cara, dizendo que conhece o papel fundamental do Ártico na disputa por esferas de influência com a Rússia e a China, inclusive com a abertura de novas rotas de navegação decorrente do aquecimento das águas na região. Sem contar os depósitos de minerais críticos e terras raras.
EUROPA RACHADA?
Lauder, mais conhecido fora das esferas onde circula como patrono do mundo das artes, especialmente de artistas judeus banidos durante a era do nazismo, e tem interesses comerciais na Groenlândia – curiosamente, em parceria com o marido da ministra de Relações Exteriores da ilha, Vivian Motzfeldt. Como muitos outros groenlandeses, ela tem ascendentes nativos, do povo Inuit (esquimós, dizia-se antigamente, uma palavra hoje banida), e alemães.
Isso dá uma pequena ideia de como são complexos os temas – e os interesses – envolvidos.
Irá a ambição de Trump rachar a Europa, reconstruída no pós-guerra pelos Estados Unidos para promover seus interesses e se contrapor à União Soviética? O bloco que venceu a Guerra Fria resistirá à desproporcional cobiça de Trump sobre um território estratégico, mas não adversário?
Macron foi corajoso ao confrontar Trump, mas é pouco o que pode fazer. Moderado em relação à intervenção na Venezuela, com a abdução de Nicolas Maduro sem o desmanche do regime, e ao regime teocrático do Irã, a ponto de muitos opositores iranianos aos quais prometeu “ajuda a caminho” se sentirem traídos, o presidente americano está perdendo os freios em relação à Groenlândia. Macron, que se considerava um “Trump whisperer”, alguém capaz de amistosamente dissuadi-lo de atitudes mais intempestivas, tem pouco a fazer a respeito.






