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Mundialista

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Será o fim da globalização?

Prestem atenção: o “homem de Davos” parece coisa do passado

Por Vilma Gryzinski 1 fev 2026, 08h00 •
  • Lembram-se de quando a globalização era uma ideia promovida pela direita e execrada pela esquerda como mais uma tramoia dos capitalistas malvados contra os pobres trabalhadores? Ah, as voltas que o globo dá. Hoje, chamar alguém de globalista equivale a um insulto proferido pela direita puro-sangue. Em geral, significando uma liderança política ou econômica que promove interesses supranacionais para disseminar modos de pensar (e de ganhar dinheiro) que desprezam valores aos quais consideram obsoletos, como patriotismo e autossuficiência produtiva. A guinada foi exposta em Davos — exatamente o lugar considerado o marco zero dos interesses globalizados.

    Enquanto todo mundo olhava para Trump, o recado mais forte foi dado por seu secretário do Comércio, Howard Lutnick, ao dizer que a globalização deixou a dever ao Ocidente em geral e aos Estados Unidos. “A verdade é que deixou os americanos para trás”, proclamou. Como tantas outras coisas nesse nosso globo, tem uma parte verdadeira e uma parte contestável. A globalização, no sentido de remover barreiras e incentivar o comércio entre as nações, foi, obviamente, sensacional para países como a China, tirando 400 milhões de pessoas da pobreza. Até países desequipados de ideias produtivas de desenvolvimento, como o Brasil, foram beneficiados — nós, tangencialmente, pela modernização da agricultura, de forma a prover os seres humanos do que desejam tão logo melhoram de padrão de vida: comer melhor. Os países desenvolvidos aproveitaram grandes vantagens. Por que pagar dez vezes mais a um trabalhador local, se os chineses faziam a mesma coisa e com melhores prazos? Todos lucraram, inclusive os Estados Unidos. Mas os empregos nas fábricas transferidos para a China realmente sumiram, deixando bolsões de insatisfação, uma das fontes de votos na direita.

    “A esquerda, como sempre, está indo buscar o caju enquanto outros já voltam com a castanha”

    Os empregos desencarnados não foram o único aspecto negativo. A pandemia mostrou graves fragilidades sistêmicas em países avançados e reativou um modo de pensar que parecia superado, o da necessidade de autossuficiência em produtos estratégicos, de agulhas de injeção a semicondutores. Muito do que faz Trump deve ser considerado à luz dessa visão. Reindustrializar o país para não deixá-lo exposto à China até para comprar um esparadrapo.

    Se é factível ou não, pode ser discutido, mas a lógica redobrou de força. As críticas à globalização coincidem com outras mudanças que pareciam sustentar o “homem de Davos”, expressão criada em 2004 pelo cientista político Samuel Huntington para definir o globalista por excelência. Entre as ideias em revisão está a mudança dos padrões energéticos, abandonando os fósseis que moveram as revoluções industriais em favor das caríssimas fontes renováveis — rentabilíssimas a seus investidores. A mudança é tamanha que o financista Howard Lutnick, com fortuna de 3,4 bilhões de dólares , soou como líder sindical. “América em primeiro lugar é a função de nosso governo: tomar conta de nossos trabalhadores e garantir que suas vidas sejam melhores por causa disso. Eu sugeriria que outros países cuidem dos seus e a partir daí construiremos magníficas relações.” É um manifesto da pós-globalização que deixa a direita liberal estarrecida. A esquerda, como sempre, ainda está indo buscar o caju enquanto outros já voltam com a castanha.

    Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980

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