Sim, política é coisa séria. Mas está faltando bom humor na política de hoje. Às vezes irônico, outras vezes sarcástico ou simplesmente espirituoso, o bom humor é sinal de inteligência e tolerância. Mesmo em momentos de grande tensão, grandes políticos — como Winston Churchill — souberam usá-lo sem perder a gravidade do ofício. Quando bem empregado, o humor humaniza figuras públicas, aproxima-as do eleitorado e desarma conflitos. Em excesso, ou no tom errado, vira arma de destruição de reputações, rende gafes e desgastes. Líderes que dominam essa medida tornam-se não apenas operadores hábeis, mas personagens inesquecíveis da vida pública.
O problema é que a política brasileira tem desaprendido a rir de si mesma. A crescente agressividade do debate empurrou o humor para a margem, que foi substituído pela “lacração” grosseira. Em audiências públicas — sobretudo nas inquirições — o tom sobe para produzir o recorte perfeito para as redes sociais. Essa coreografia rende milhões de visualizações, mas empobrece a política: substitui o argumento pela caricatura, a síntese pela grosseria, o debate pelo linchamento.
“Precisamos recuperar uma cultura de tolerância, escuta e empatia — virtudes incompatíveis com o xingamento”
Não foi sempre assim. No Congresso, tivemos referências de bom humor como José Múcio Monteiro (hoje na Defesa), Inocêncio Oliveira e Marco Maciel — todos de Pernambuco. Houve também Getúlio Dias, “brizolista” fanático com histórias de gaúcho, e o paranaense Maurício Fruet, mestre em pregar peças nos amigos. Certa vez enviou para um parlamentar amigo, por Sedex a pagar no destinatário, paralelepípedos embrulhados e apresentados como livros, surpreendendo o incauto com o peso da “obra”. A lista de espirituosos inclui ainda Nelson Jobim, Delfim Netto, Paulo Maluf e Jarbas Passarinho — cada qual com um estilo, do elegante ao assertivo. Lembro também de Arthur Virgílio Neto, José Genoino e José Dirceu: combativos, por vezes mercuriais, mas capazes de rir e fazer rir sem rebaixar o adversário.
Vale a leitura de Folclore Político, de Sebastião Nery, com centenas de casos saborosos do nosso anedotário. Se vivo fosse, talvez penasse para encontrar material inédito nas primeiras décadas do século XXI: a política anda mais sisuda e, paradoxalmente, mais tóxica. Parte disso se explica pela lógica das plataformas, que premia a indignação instantânea, parte decorre da profissionalização do confronto, onde consultorias e “war rooms” administram crises com a frieza de um call center. Em meio a esse maquinário, a leveza virou suspeita — como se o sorriso retirasse seriedade do tema.
Lembrar do bom humor na política não é nostalgia e, sim, de compromisso. Precisamos recuperar uma cultura de tolerância, escuta e empatia — virtudes incompatíveis com o xingamento e perfeitamente compatíveis com o humor. O político que ri com (e não de) seus adversários dá um recado poderoso: está seguro o bastante para discutir ideias sem desqualificar pessoas. Brasília anda carente dessa leveza adulta. Quando ela falta, o sistema range, o diálogo trava e o país perde tempo precioso com tretas que não melhoram a vida de ninguém. Política é coisa séria — e exatamente por isso merece, de vez em quando, um sorriso que nos devolva humanidade.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2025, edição nº 2963
Os bastidores da 6ª temporada de ‘The Chosen’ são divulgados; confira os detalhes
‘A Empregada’, filme adaptado de best-seller de mistério, ganha trailer







