O favoritismo instável de Lula
Medo da volta do bolsonarismo pesa mais que avaliação do governo
A pesquisa Genial/Quaest de janeiro de 2026 oferece um retrato mais sofisticado do que a simples leitura de intenção de voto costuma sugerir. Ela confirma que Lula entra no ciclo pré-eleitoral como favorito, mas expõe, ao mesmo tempo, os limites estruturais desse favoritismo e a fragilidade política que o sustenta.
É inegável que Lula parte em vantagem. Como presidente, tem a máquina na mão, controla a agenda pública, ocupa o centro do noticiário e dispõe dos instrumentos clássicos do poder. Soma-se a isso o fato de ter recebido do Congresso bilhões de reais em espaço fiscal para acionar medidas populares, ampliar programas sociais e irrigar a economia com políticas de impacto imediato. O incumbente nunca é um candidato comum.
O problema é que esse favoritismo não se converte em consolidação política duradoura. A pesquisa revela um presidente que lidera, mas não entusiasma; que vence nos cenários simulados, mas sem produzir sensação de inevitabilidade. O governo parece depender continuamente de novas rodadas de medidas populares para sustentar sua posição, como se estivesse sempre empurrando a bola morro acima. Falta o salto qualitativo capaz de transformar vantagem conjuntural em hegemonia política.
“O presidente tem um desafio decisivo: resolver o triângulo eleitoral formado por Rio, São Paulo e Minas Gerais”
Esse dado é central. O lulismo que retorna ao poder já não encontra um país virgem de políticas redistributivas. Encontra um eleitorado que se acostumou à vida mediada por programas sociais e transferências de renda. O que antes gerava gratidão e mobilização hoje produz expectativa e rotina. Há aqui um paradoxo: o próprio sucesso do primeiro ciclo lulista criou as condições de sua banalização no segundo. O populismo de sempre ainda protege, mas já não encanta.
Para consolidar seu favoritismo, Lula enfrenta um desafio decisivo: resolver o triângulo eleitoral formado por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Esses estados concentram peso demográfico e simbólico suficiente para definir o eixo da eleição — com Minas operando como pêndulo capaz de inclinar o resultado. O presidente precisa vencer nessas praças ou perder por margens controláveis.
Nesse contexto, o voto pró-Lula tende menos a ser adesão entusiasmada e mais cálculo defensivo. Parte expressiva do eleitorado escolhe o presidente não porque enxergue projeto renovado, mas porque percebe menos risco nele do que nas alternativas. O medo do retorno do bolsonarismo pesa mais do que a avaliação positiva do governo. Trata-se de um favoritismo sustentado pela aversão, não pela paixão.
Do outro lado, a oposição segue fragmentada, sem liderança clara e incapaz de converter o desgaste do governo em maioria política. O resultado é um sistema em suspensão: um presidente forte institucionalmente, porém politicamente dependente; um eleitorado pragmático, porém pouco mobilizado; e uma eleição que permanece aberta às contingências do caminho. Lula lidera porque pode, não porque convenceu plenamente.
Sobretudo porque demora a fazer acenos ao centro do eleitorado, acreditando que a aversão ao bolsonarismo e a presença de Geraldo Alckmin na chapa seriam suficientes para mitigar o esquerdismo — rejeitado pela maioria do eleitorado — de setores proeminentes do seu universo político.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978







