As revelações sobre gênese de Bob Dylan no filme Um Completo Desconhecido
No filme, um afinado Timothée Chalamet vive o artista do início de carreira até um momento crucial da história da música

Segundos antes de Bob Dylan plugar sua guitarra em um amplificador no palco do Newport Folk Festival, nos Estados Unidos, em julho de 1965, o clima de tensão nos bastidores era quase palpável. Nos anos anteriores, o cantor e compositor havia se convertido no principal nome do renascimento da música folk, estilo tradicional americano cujos defensores puristas se negavam a aceitar o uso de instrumentos elétricos e consideravam o rock um gênero comercial e grosseiro. O clima, que já não era bom, se tornou hostil quando Dylan e o restante da banda iniciaram o show com Maggie’s Farm, um blues com guitarras. A coisa ficou ainda pior no momento em que o pianista Al Kooper tocou, em um órgão, as primeiras notas da hoje clássica Like a Rolling Stone. Dylan recebeu uma vaia monumental de mais da metade das 15 000 pessoas na plateia, e os organizadores ameaçaram cortar os fios de energia com um machado.
A cena recriada no filme Um Completo Desconhecido, que estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira 27, é hoje um dos momentos cruciais da história do rock. O longa narra com frescor a gênese de um artista que dali em diante se tornaria um ícone — não apenas pela estupenda carreira musical e excelência como letrista, que fez dele o primeiro bardo popular a receber o Nobel de Literatura, em 2016, mas também pela persona enigmática que erigiu. Não por acaso, enfim, o longa está indicado a oito categorias do Oscar, inclusive de filme do ano, diretor para o eficiente James Mangold, ator — pois Timothée Chalamet recria com perfeição os trejeitos de Dylan e chega a cantar, para muitos, melhor do que o original — e atriz coadjuvante — uma afinada Monica Barbaro convence na difícil missão de cantar como Joan Baez.
Um Completo Desconhecido resgata Dylan desde sua chegada a Nova York, no início dos anos 1960, até o fatídico show no Newport Folk Festival. “A pesquisa para esse filme se tornou uma obsessão para mim, um projeto em que fiquei mergulhado por mais de seis anos. Blowin’ in the Wind ou The Times They Are A-Changin’ permanecem relevantes até hoje”, declarou Chalamet recentemente. Foi no período retratado que Dylan, músico que jamais aceitou ser enquadrado em caixinhas de gênero, se tornou elétrico e fez um movimento essencial na evolução do rock: saíam as canções pueris e entravam músicas com letras densas e de protesto contra a Guerra do Vietnã, a ameaça nuclear e em defesa dos direitos civis. “Artisticamente, a década de 1960 foi um tempo fascinante de expansão cultural”, diz o diretor Mangold.

Desde o início, mostra o filme, o jovem Robert Allen Zimmerman soube beber das melhores fontes musicais. Fã de Little Richard e Buddy Holly, ele passou a se interessar por folk na universidade, quando conheceu a música de Woody Guthrie (Scoot McNairy), cantor folk que compôs canções de protesto como a lendária This Land Is Your Land. Guthrie foi a razão de Dylan se mudar para Nova York. Ele queria conhecer o ídolo, que então estava em um hospital para tratar de uma doença neurológica degenerativa. Ao chegar no local, o jovem conhece Pete Seeger (Edward Norton), músico responsável pelo movimento de resgate do folk. Impressionado com o talento de Dylan, Seeger abriga o cantor em sua casa, o apresenta a empresários e marca shows em bares da cidade.
Embora capte um período de poucos anos na longa carreira do artista, hoje aos 83, o longa ilumina como ele começou a construir uma aura misteriosa que ajudou a impulsionar seu sucesso — traço que se converteria em franca esquisitice com o tempo e que só foi alimentado com as tentativas de decifrar o enigma, como os documentários que Martin Scorsese fez sobre diferentes ângulos de Dylan em 2005 e 2019. Quando despontava, ele fazia questão de ser lacônico sobre sua origem na pequena Duluth, no Minnesota. “Para prender a atenção, você precisa ser uma aberração”, chegou a dizer Dylan, levando a máxima às últimas consequências em momentos inacreditáveis na carreira (leia abaixo).

Embora simpático ao artista, o filme não deixa de mostrar um lado hoje polêmico: sua conduta no complicado triângulo amoroso com duas mulheres que mudariam sua maneira de ver o mundo. A primeira, Suze Rotolo, que no filme teve o nome alterado para Sylvie Russo (Elle Fanning), foi a responsável por despertar o interesse do cantor por temas sociais. É ela quem aparece abraçada com ele na capa de The Freewheelin’, de 1963, enquanto caminhavam pelo West Village, em Nova York. A outra é Joan Baez (Monica Barbaro), com quem faria uma prolífica e conturbada parceria musical e amorosa — e que sofreu horrores nas mãos do cantor. Numa cena, Dylan compara a música de Joan, uma das maiores vozes femininas da época, a “uma obra-prima exposta em uma sala de espera de um consultório dentário”. Mesmo em sua gênese, o mito não era perfeito.
Três momentos inacreditáveis de Dylan
Em 65 anos de carreira, o ídolo cultivou com afinco sua persona enigmática — e alguns lances memoráveis resumem suas esquisitices:

O documentário “ficcional”
A turnê Rolling Thunder Revue, de 1975, com Joan Baez (foto), foi registrada em um caótico documentário de Martin Scorsese, misturando realidade com histórias ficcionais. Uma delas é a razão da maquiagem do cantor, que mentiu ao dizer ter se inspirado na banda Kiss. Na realidade, o visual de palhaço veio do filme francês Children of Paradise (1945).

Acanhado em We Are The World
Em 1985, Michael Jackson, Lionel Richie e Quincy Jones reuniram um supertime para gravar uma canção para ajudar a África. Bob Dylan topou, mas, ao deparar com vozes muito melhores que a dele, travou e não conseguiu cantar no coro. Na hora de gravar seu solo, o músico foi para um cantinho reservado e só soltou o gogó com a ajuda de Stevie Wonder ao piano.

A falta no Nobel
Em 2016, Dylan foi o primeiro (e até hoje o único) roqueiro a ganhar o Nobel de Literatura. O Bardo de Minnesota, no entanto, não foi à cerimônia de entrega da honraria, alegando “outros compromissos”. Só não perdeu seu Nobel porque pediu para a amiga Patti Smith representá-lo. Ela leu um discurso do músico e cantou uma de suas canções.
Publicado em VEJA de 21 de fevereiro de 2025, edição nº 2932