Oferta hexa: Assine por apenas 7,99
Imagem Blog

Radar Jurídico

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

O Cenário Vicioso: A Armadilha da Substituição

Terceiro artigo da série: IA, Economia, Sociedade e Advocacia

Por Ticiano Figueiredo 6 fev 2026, 10h08 | Atualizado em 6 fev 2026, 10h43
O Cenário Vicioso: A Armadilha da Substituição Priorizar nos meus resultados Google

Em dezembro de 2024, um dos maiores escritórios de advocacia do mundo cortou cerca de 50 posições em Londres — algo em torno de 10% do seu back-office. A justificativa incluía, explicitamente, o aumento do uso de inteligência artificial. Semanas depois, o relatório Citi/Hildebrandt, referência no setor, projetou que 63% dos grandes escritórios esperam mudanças estruturais em seus modelos de leverage até 2035. E Bruce MacEwen, um dos consultores mais respeitados do mercado jurídico, declarou que não consegue ver o modelo de hora faturável sobrevivendo à chegada da IA generativa. Não são previsões. São decisões operacionais, dados quantitativos e leituras de incentivos feitas por quem vive o setor.

Se o artigo anterior mostrou o cenário virtuoso — a IA como alavanca de inovação e prosperidade —, este mostra o que acontece quando o mesmo movimento é canalizado apenas para substituição. A diferença entre os dois não está na tecnologia. Está nas escolhas.

Existe uma diferença enorme entre “IA como ferramenta” e “IA como força institucional”. Ferramenta é quando você decide usar, em um caso específico, para ganhar velocidade ou clareza. Força institucional é quando, mesmo que você pessoalmente não queira, a tecnologia começa a mudar como escritórios contratam, treinam, cobram, entregam e erram — e como clientes e tribunais reagem. É aqui que a conversa deixa de ser só sobre produtividade e vira sobre estabilidade: a estabilidade do trabalho, da formação profissional, do modelo econômico da advocacia e, no limite, da confiança social no sistema de justiça.

O que torna 2025–2026 um ponto de virada é que a mudança já deixou de ser hipótese de futuro e virou decisão operacional concreta. Quando um grande escritório aponta IA como fator de corte de pessoal, isso funciona como sinal público — não apenas para o mercado, mas para a cultura interna de toda a indústria. O recado implícito é: o trabalho que sustentava certas funções agora pode ser reconfigurado. Não importa se a IA é a única causa; basta que ela seja uma causa admitida para inaugurar um novo tipo de justificativa social para reestruturações.

A reação em cadeia é previsível porque o mundo jurídico, especialmente em grandes firmas, é uma máquina de engrenagens muito específicas. Você não contrata dezenas ou centenas de profissionais juniores apenas por altruísmo ou tradição: você contrata porque o modelo econômico foi construído sobre uma base larga. Essa base faz triagem, pesquisa, revisão, diligências, primeiras versões de documentos — tarefas repetitivas e volumosas. Ela aprende fazendo. E, fazendo muito, ela também financia o topo, porque a diferença entre custo interno e preço cobrado por hora alimenta margens. Quando uma IA começa a fazer uma parte relevante dessas tarefas em minutos, o modelo não perde só tempo: ele perde uma parte da lógica que sustentava a pirâmide.

Continua após a publicidade

É por isso que a discussão mais séria não é “vai ter IA nos escritórios?”, mas “qual forma organizacional sobrevive quando a IA encurta a base?”. O próprio relatório Citi/Hildebrandt descreve a aceleração de um movimento “da pirâmide para o cilindro”, com base mais enxuta e maior dependência de profissionais seniores — porque o trabalho repetitivo e de baixo valor é justamente o mais automatizável. As firmas podem continuar crescendo o total de associados, mas planejam crescer menos nos primeiros anos. A escada começa a faltar justamente nos degraus iniciais.

A consequência mais importante aqui não é um gráfico de headcount. É uma pergunta de formação: se dezenas de milhares de horas de trabalho júnior desaparecem, onde acontece o aprendizado que transformava um recém-formado em alguém que, anos depois, consegue aconselhar estrategicamente um cliente sob pressão real? A própria executiva do Citi citada na reportagem descreve isso como a grande questão: como crescer pessoas para virarem conselheiros estratégicos quando o treino de base é nocauteado pela automação. E quando MacEwen diz que as firmas estão lamentavelmente despreparadas e que o modelo de hora faturável não sobrevive, não é apenas retórica apocalíptica; é uma leitura de incentivos. Se o valor entregue deixa de ser proporcional ao tempo gasto, insistir em cobrar tempo vira um atrito estrutural com o cliente — e a pressão por mudança não vem de dentro, vem de fora.

Aqui entra o ponto que conecta advocacia, economia e sociedade: o Direito não é só uma profissão, ele é infraestrutura. Ele reduz incerteza, organiza promessas, define riscos, viabiliza crédito, dá previsibilidade a contratos e disputas. Quando a infraestrutura muda rápido demais, a sociedade sente. E a velocidade, hoje, é parte do choque. O Thomson Reuters Institute, ao discutir cenários de inteligência artificial avançada, descreve exatamente o dilema: se o trabalho júnior some, como a expertise é construída e como as carreiras começam quando os degraus mais baixos da escada deixam de existir? E, no mesmo raciocínio, afirma que o modelo de hora faturável se torna completamente insustentável em cenários de sistemas capazes de produzir trabalho de alta qualidade em minutos. A pergunta retórica é direta: por que pagar US$ 500 por hora por pesquisa que um sistema muito avançado faz em segundos?

Continua após a publicidade

Imagine um ciclo vicioso simples: quanto maior a participação da IA na produção de trabalho jurídico, menos oportunidades reais de treinamento humano existem. Com menos treino, cai a produtividade humana independente — a capacidade de fazer sem IA e, principalmente, de supervisionar a IA com rigor. Com produtividade humana menor, cai a demanda por humanos para tarefas que antes eram a escola prática — e isso incentiva ainda mais a adoção de IA para preencher o buraco. O ciclo se reforça sozinho: mais IA reduz treino; menos treino aumenta dependência; mais dependência aumenta espaço para IA. Em profissões de alta responsabilidade, a perda de competência não é abstrata: ela vira erro em petição, cláusula mal interpretada, prazo perdido, orientação equivocada, condenação, dano reputacional.

E o erro, com IA, tem um traço novo: escala. Antes, a falha profissional tinha o ritmo humano. Agora, uma falha pode ser reproduzida em dezenas de peças em poucos minutos. O banco de dados de Damien Charlotin documenta a progressão de casos envolvendo alucinações de IA em arquivamentos judiciais: de um punhado em 2023 para mais de 300 instâncias identificadas. O ponto central não é moralista; é institucional: não se trata mais de lapsos individuais, e sim de uma falha profissional sistemática em escala inédita. Esse é o tipo de consequência que destrói confiança. E confiança é o combustível invisível do Direito.

E aqui aparece uma segunda armadilha econômica: verificação custa. Se a IA acelera a produção, mas a checagem precisa ser quase total — porque o risco de inventar uma citação ou distorcer um fato é real —, você pode estar trocando horas de produção por horas de verificação, e não necessariamente ganhando eficiência líquida. A dependência pode evoluir de uso como assistente para cegueira de dependência: quando a pessoa já não consegue reconhecer a falha porque desaprendeu a base.

Continua após a publicidade

Existe ainda um terceiro movimento que atinge a sociedade fora da bolha jurídica: a popularização da IA dá a não-advogados a sensação de que podem resolver sozinhos questões complexas. Isso pode ter um lado positivo, porque amplia acesso a informação e pode ajudar pessoas sem representação a entenderem se existe um problema jurídico. Mas também tem um lado perigoso: excesso de confiança. O relatório da Task Force on Artificial Intelligence da New York State Bar Association trata explicitamente do uso de IA por não-advogados e do risco de receber informação enganosa com aparência confiante, além da dificuldade de um leigo perceber vieses, casos falsos e outras alucinações. A maioria das partes em casos civis nos tribunais estaduais americanos não tem advogado. A tentação de substituir orientação por um chatbot é real — e a consequência pode ser piorar a qualidade do acesso à justiça, não melhorar, se as pessoas forem empurradas para decisões ruins com confiança falsa.

Esse ponto toca diretamente a dinâmica econômica mais ampla, porque a mesma força que reduz empregos na base do Direito reduz renda, e renda reduz consumo, e consumo reduz lucro agregado, e lucros menores reduzem investimento e estabilidade institucional. O Direito não escapa dessa cadeia: menos renda significa menos capacidade de pagar por assistência jurídica; mais pessoas ficam sem representação; o sistema fica mais congestionado; decisões demoram; a incerteza econômica aumenta.

Quando você junta todas essas peças, a instabilidade institucional fica clara e, principalmente, causal. Se você quiser um norte simples, dá para resumir a dinâmica assim: quando a IA entra para cortar tempo, ela mexe no preço; quando mexe no preço, mexe no modelo de receita; quando mexe no modelo de receita, mexe na estrutura de contratação; quando mexe na contratação, mexe no treinamento; quando mexe no treinamento, mexe na qualidade futura; quando mexe na qualidade futura, mexe na confiança; quando mexe na confiança, mexe no próprio papel institucional do Direito na economia. Esse encadeamento é tão forte que não depende de opinião — ele depende de incentivos.

Continua após a publicidade

Até aqui, parece um quadro inevitavelmente pessimista. Mas ele não é. Ele é condicional. E é aqui que entra a parte central do argumento: a IA pode ajudar ou piorar a vida — depende de como indivíduos e instituições adotam. O cenário virtuoso do artigo anterior e o cenário vicioso deste artigo não são destinos. São possibilidades. A mesma IA que pode reduzir desigualdade de acesso pode aumentar desigualdade de renda. A mesma automação que pode libertar o advogado de tarefas mecânicas pode destruir a escada que formava advogados competentes. A mesma velocidade que pode tornar o Direito mais barato pode torná-lo mais frágil se a confiança for corroída por erros em escala.

O desfecho, então, não é “aceitar ou rejeitar IA”. É escolher o tipo de profissão e o tipo de sociedade que você constrói com ela. Mas o que exatamente determina essa escolha? O que está nas mãos de empresas e indivíduos? Esse é o tema do próximo e último artigo desta série.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Estádio de futebol lotado com bandeira do Brasil e bola no campo, e um jogador de camisa amarela comemorando. À direita, capas de revistas Veja, Super, Viagem e Quatro Rodas flutuando sobre fundo verde escuroTorcedor de costas, vestindo camisa amarela, comemora com os braços erguidos em um estádio de futebol lotado, sob um céu verde-azulado. Uma bola de futebol com a bandeira do Brasil está no campo. À direita, um fundo verde escuro com um pequeno ícone de árvore branca no canto inferior direito
OFERTA RELÂMPAGO

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 14,99/mês Apenas R$ 2,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00) + Abril Signature Ouro, o novo programa de benefícios da Abril, que te dá acesso a descontos exclusivos e cashback em centenas de estabelecimentos.
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$35,88, equivalente a R$2,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).