A maldição que paira sobre as novelas da 9 reforçada por ‘Mania de Você’
Mocinha Viola, interpretada por Gabz, é o grande problema do folhetim desde o início - mas ela não está sozinha

Mania de Você é a nova vítima de uma maldição que paira sobre as novelas da 9 da Globo há mais de 15 anos: o fracasso de uma mocinha negra. Diferentemente de Garota do Momento e Volta por Cima que conseguiram ter protagonistas negras bem-sucedidas perante o público na faixa das 6 e 7, o folhetim de João Emanuel Carneiro acabou repetindo o mesmo erro lamentável de Terra e Paixão (2023), Travessia (2023) e Viver a Vida (2009), que é ver sua protagonista escanteada da própria história.
Escolhida como protagonista, Viola (Gabz) perdeu a simpatia do público logo nas primeiras semanas, quando decidiu trair o noivo Mavi (Chay Suede) ao se envolver com Rudá (Nicolas Prattes), namorado de Luma (Agatha Moreira), sua então melhor amiga. Por mais que Mavi tivesse forçado a barra do romance com ela, e a carência de Luma fosse sufocante para a protagonista, seus atos seguintes também não despertaram uma torcida por seu final feliz. Ao longo dos capítulos tiveram várias tentativas de tornar a personagem de Gabz em vítima, fosse das armações do ex-noivo, da ex-amiga e de Mércia (Adriana Esteves) que a detesta desde o começo, mas nada foi bem-sucedido. Viola caiu cada vez mais em desgraça com os telespectadores, que preferiram abraçar o romance de “Lumavi”, que não consegue ir para frente por causa da obsessão do vilão pela mocinha.
É claro que a traição assombrou Viola durante toda a novela, até de forma cansativa, porque se tem uma coisa que mexe com os sentimentos do público é uma atitude condenável do ponto de vista moral. O fato da heroína ter um olhar dissimulado também não ajuda a dar qualquer ar de inocência a ela. Em determinado momento, a personagem perdeu tudo, foi humilhada em rede nacional e até roubada no meio de uma chuva torrencial, mas já era tarde. Houve quem torcesse para a mocinha permanecer morta quando ela teve que pular de um helicóptero no mar. Outro fator que atesta o fracasso da personagem é que seu par romântico, Rudá, será morto na novela. Uma medida drástica e tardia que talvez ajude a dar um sopro de esperança no ibope de 21 pontos de média na Grande São Paulo, mas nada que levantará defunto.
O que consola a mocinha é que ela não está sozinha. Em Terra e Paixão, a Aline de Bárbara Reis acabou ofuscada dentro de sua própria trama na novela de Walcyr Carrasco e Thelma Guedes. Quando não era pelo enredo do triângulo amoroso de vilões veteranos formado por Antônio La Selva (Tony Ramos), Irene (Gloria Pires) e Agatha (Eliane Giardini), era pelo romance gay de Kelvin (Diego Martins) e Ramiro (Amaury Lorenzo) ou ainda a dinâmica cômica de Anely (Tatá Werneck) e Luigi (Rainer Cadete).
Algo parecido aconteceu com a Brisa (Lucy Ramos), de Travessia (2023). Ela começou a novela como uma vítima de deep fake, mas viu sua saga ser escoada ao longo dos meses e, ao final, o público mal se lembrava o que havia acontecido com a protagonista. Já em Viver a Vida, Helena (Taís Araujo) também falhou em gerar empatia do público com sua personalidade considerada arrogante — precisou tomar um tapa na cara para baixar a bola — e viu o enredo de Luciana (Aline Moraes) tomar o protagonismo de assalto com o acidente que a tornou paraplégica e sua história de amor com o Dr. Miguel (Mateus Solano). Uma jornada de superação que deveria ser da mocinha ficou justamente com sua antagonista.
Na contramão dessa maldição das 9, as mocinhas negras de outras faixas vão bem. Caso da Sol (Sheron Menezzes) de Vai na Fé (2023), da Madalena (Jéssica Ellen) de Volta por Cima — ambas das 7 — e da Beatriz (Duda Santos) de Garota do Momento, atual novela das 6. O sucesso das três é diretamente relacionado à boa construção de seus enredos de mulheres humildes, fortes, vítimas de várias armações de inimigos e que têm um romance que gerou torcida do público. Fatores que faltaram às protagonistas negras das 9 até o momento.
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