O fantasma que mais tira o sono dos pais na minissérie ‘Adolescência’
Fenômeno do momento na Netflix, produção inglesa retrata problemas juvenis como o bullying, mas a questão mais aterrorizante que expõe é outra

Fenômeno do momento na Netflix, a minissérie inglesa Adolescência ostenta inúmeras razões para seu merecido sucesso. Do ponto de vista dramatúrgico, a história por trás da prisão de um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola é uma pérola rara: tudo vai se revelando em camadas surpreendentes, num quebra-cabeças procedural esmiuçado de forma cirúrgica e acachapante — e, não menos importante, filmado em planos-sequência de um virtuosismo notável. O elenco se mostra igualmente impecável, do pai vivido com perplexidade pungente por Stephen Graham à interpretação sóbria do investigador Luke Bascombe por Ashley Walters, que tenta em vão manter a frieza diante dos fatos que apura. O show maior, claro, é de Owen Cooper, novato de meros 15 anos e já favoritaço ao próximo Emmy por dar vida ao perturbador protagonista Jamie Miller.
Por que Adolescência é tão falada?
O principal trunfo de Adolescência, no entanto, é mais amplo e duradouro: a capacidade de tocar em questões reais que afligem e ameaçam os jovens da nova geração — o que faz com que a série ressoe fundo para os pais de crianças e adolescentes de hoje. A produção abre certa caixa de pandora dos problemas da criação dos filhos na era digital. Fantasmas que assustam todos os pais são expostos a cada cena, como o poder destrutivo do bullying e dos abusos em ambiente escolar, a influência perversa e tantas vezes trágica das redes sociais sobre uma geração que não consegue distinguir seu próprio self da vida ilusória nos smartphones.
Qual a verdadeira razão de Adolescência mexer com os pais?
Mas não é esse o verdadeiro motivo que tira o sono dos pais em Adolescência. Todos esses riscos, afinal, estão postos na sociedade há tempos — inclusive o risco representado pelo bullying escolar e pela chamada cultura Incel, que leva jovens (especialmente do sexo masculino, como Jamie Miller) a serem discriminados e a se isolarem com a pecha de “esquisitões”, com alto risco da situação explodir em violência (vide os tristes episódios de atiradores juvenis em escolas). Aceite-se ou não, a influência das redes sociais também é um dado da realidade atual cujos efeitos são vastamente conhecidos. O que a série traz de novo e amplifica sua potência é a constatação de algo profundamente: a impotência dos pais diante do fosso entre o modo de lidar com o mundo da geração hoje na faixa dos 50 e seu filhos.
Esse abismo entre pais e adolescentes sempre existiu, claro. Mas as transformações atuais o tornaram muito mais radical e dramático. Como o investigador Bascombe vai descobrindo com a ajuda do filho, que estuda no mesmo colégio do crime em foco, a pretensão de muitos adultos de estarem no controle dos adolescentes (e até das crianças mais novas) revela-se hoje ingênua. Os jovens se comunicam por códigos em que até as variações de cores dos emojis podem dizer coisas graves de que os mais velhos nem desconfiam e estão mergulhados numa bolha própria imperscrutável para a maioria dos pais, na qual vivem aventuras e dramas que podem ser perigosos para suas vidas — e seu futuro. É essa desconexão geracional — válida da Inglaterra ao Brasil — que tanto aterroriza em Adolescência.
Confira trailer da minissérie: