O ‘reaça’ desbocado da Fox News que é o novo rei dos talk-shows americanos
Quem é o humorista que, no embalo do segundo governo Trump, pôs emissora no topo do ranking desses programas de sucesso no país

A língua dele fere à distância — e é capaz de atingir até seus colegas de emissora. Mesmo para os padrões da Fox News, canal que é uma espécie de universo paralelo conservador na mídia americana com seus comentaristas duvidosos e trumpistas delirantes, Greg Gutfeld é radioatividade pura. Em seu talk-show, Gutfeld!, ele desfere piadas e opiniões sem um pingo de compostura ou correção política — ao contrário, faz questão de desancar as ideias liberais e emitir considerações que virariam escândalo instantâneo em qualquer outro lugar na TV americana. Pois bem: seu estilo explosivo casou à perfeição com a zeitgeist dos Estados Unidos nesse início do segundo governo Trump. Surfando a onda, o “reaça” desbocado chegou lá. Ele acaba de sair na capa da prestigiosa revista Variety por sua “revolução” no humor conservador — e se tornou a maior estrela dos tradicionais talk-shows do fim de noite do país, vencendo nos índices de audiência os pesos pesados que vinham dominando a seara há anos, Stephen Colbert e Jimmy Fallon.
Quem é Greg Gutfeld?
A comparação com os dois concorrentes fornece uma pista eloquente do que projetou Gutfeld. Enquanto Colbert, Fallon e outros apresentadores de talk-shows da TV americana rezam pela cartilha liberal, desviando cuidadosa — ou medrosamente — de tiradas que possam ferir susceptibilidades politicamente corretas, Gutfeld investe naquele humor ferino, caricatural e carregado de preconceitos que era considerado “normal” na televisão até alguns anos atrás, e hoje é nitroglicerina da brava. Em resumo: ele dispara sua metralhadora giratória como se não houvesse amanhã — e a audiência trumpista aplaude.
Um bom exemplo do valor dessa falta de amarras (e pudor) se deu durante o recente escândalo envolvendo o filme Emilia Pérez. Quando vieram à luz antigos posts infames de Karla Sofía Gascón, a estrela trans do filme indicado a treze Oscars e maior concorrente do brasileiro Ainda Estou Aqui, Colbert, Falllon e outros liberais perceberam o campo minado — e fizeram cara de paisagem diante do assunto. Gutfeld, não: ele deitou e rolou ao satirizar as agruras de Karla, não por ser contra ou a favor da atriz em si, mas para espezinhar a incoerência progressista em festejá-la como a primeira trans a concorrer ao Oscar, e agora ficar muda de tanto constrangimento com a descoberta de suas postagens racistas e islamofóbicas.
As origens de Greg Gutfeld
Mas esse caso foi fichinha em meio à lista farta de polêmicas do apresentador. Em 2009, quando o exército do Canadá anunciou um período sabático após participar da guerra no Afeganistão, ele detonou o país vizinho, basicamente acusando seus militares de não gostaram muito do batente — pegou tão mal que teve de se desculpar no ar. Gutfeld também já fez comentários impróprios sobre o Holocausto, provocando reação da comunidade judia. E perpetrou um ataque que acabou tendo efeito de fogo amigo contra a própria Fox News: no início da guerra da Ucrânia, insinuou que as emissoras americanas estavam dando uma dimensão muito mais dramática do que o conflito real teria. O que despertou a reação indignada de um correspondente da emissora em território ucraniano – que acabaria ferido na guerra.
Aos 60 anos, Gutfeld nasceu numa família católica na Califórnia. Foi coroinha numa paróquia local, mas durante o ensino médio se desencantou com a religião — e também diz ter descoberto que não queria ser nem liberal, nem conservador, pois os dois lados seriam “moralistas”. Agora, ele se diz agnóstico e “libertário” — o que nos Estados Unidos atual significa, na prática, estar mais à direita que a direita. Durma-se com um barulhento desses.
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