Astrid Fontenelle: ‘Nos tornamos uma nação de gente careta e covarde’
À coluna GENTE, apresentadora fala sobre nova temporada de ‘Admiráveis Conselheiras’ e reflete sobre tabus na sociedade
Com mais de três décadas de trajetória na TV, Astrid Fontenelle, 64 anos, vive uma fase marcada pelo desejo de romper silêncios. À frente da segunda temporada de Admiráveis Conselheiras, recém-lançada no GNT, ela recebe mulheres inspiradoras com mais de 60 anos para debater assuntos ainda cercados de tabu — como sexo, menopausa, aborto e envelhecimento. Não por acaso, são temas que atravessam a própria história da apresentadora. À coluna GENTE, Astrid falou sobre os desafios da menopausa, da queda da libido à reposição hormonal, relembrou o aborto feito aos 18 anos e fez um diagnóstico duro sobre a sociedade atual: “O Brasil só anda para trás”.
Tem alguém que você queira muito levar? Sim. Fernanda Montenegro, Maria Bethânia e Alcione e a [ministra do STF] Carmen Lúcia, que anda fugindo de mim. Acho que o momento não a permitiria brincar comigo. Não é um programa sobre processos ou a profissão dela. É um programa para a gente rir e se emocionar.
Quais assuntos que não podem faltar no programa? A gente sempre tem que tentar descobrir como elas estão lidando com a velhice. E tem uma pergunta que eu gosto muito de fazer: “O que foi mais fácil? A juventude ou a velhice?”.
E o que é mais fácil? Para mim, está bem mais fácil agora. Os hormônios da juventude e da menopausa atrapalham demais a gente. Esse programa me dá a oportunidade de falar sobre isso, porque já passei da menopausa há muito tempo. Não sei o nome ainda do que estou vivendo, mas está tudo se encaixando e estou me sentindo muito bem de novo.
Sempre houve um tabu em relação à reposição hormonal nessa fase. Você chegou a fazer? A minha ginecologista era absolutamente contra e o antagônico dela era um homem considerado o papa da reposição hormonal no mundo. Ele não era meu médico, mas quis o destino que eu narrasse um documentário francês exibido no GNT com ele. Depois, vi que não estava errado. Fiz a reposição e algumas coisas ficaram confusas, como o sexo, mas, aos poucos, tudo foi se encaixando.
Uma das questões da menopausa é a diminuição da libido. Como foi isso com você? Igual a todo mundo. Vai embora pela janela, você dá até logo e espera que seu companheiro te compreenda, porque também não é bom para ele. Você se esforça, mas é horrível. Dá para perceber quando está fingindo. Ninguém é tão boa atriz assim, só as de pornô. Mas tive um companheiro que aguentou esperar.
A sua relação com o sexo mudou depois? Mudou. Porque parece que virei mais dona do jogo. Eu deixei de estar a serviço do outro para também colocar como eu quero hoje.
O que faz com que o sexo depois dos 60 ainda seja um tabu tão grande? A gente, culturalmente, foi criada para não falar. Embora na televisão a gente esteja conversando desde o TV Mulher (1980-1986), falta um formato de programa feminino de verdade na televisão aberta. Atualmente, os programas falam de culinária, da cidade, violência, música, mas não de sexo. Isso tem que ser uma pauta constante.
Sua trajetória na TV foi marcada por assuntos importantes. Como você entende sua função ao colocar esses temas em pauta? Acho que é carma. Ninguém me chama para ir a um programa para me divertir, falar besteira. Quando me chamam, é papo-cabeça. Até na minha vida de influencer, para fazer eventos, tenho que estudar. É uma missão, e vou cumpri-la, pois não vou fugir do assunto difícil.
Se te chamassem para fazer um programa na TV aberta hoje, você iria? Sim, porque não nego trabalho.
Já pensou em aposentadoria? Quando saí do Saia [Justa], pedi um tempo para poder criar outro programa. Precisava de um restart da máquina. Planejei tirar férias de verão e depois criar um programa novo. Naquele momento, eu me questionei se não deveria pensar melhor, mas acho que ainda tenho saúde física e mental para isso.
Na última temporada, um tema que marcou a entrevista com a Marília Gabriela foi a solidão e não só relativa a relações amorosas. Como você lida com isso? Hoje valorizo os momentos sozinha, mas também tenho amigos com quem compartilho a vida. O que a Marília disse faz todo sentido: a solidão foi construída por ela. É diferente do que muita gente imagina, como se no nosso meio todo mundo fosse amigo de todo mundo — e não é. Eu sei que sou cercada de amigos. Com o tempo aprendi que, nos momentos de aperto, quem realmente estará ao meu lado são os meus amigos.
No ‘Saia Justa’, você relembrou o aborto que viveu aos 18 anos. O que te motivou a compartilhar essa experiência e que aprendizados vieram daí? É muito descaramento não querer falar sobre isso. Quando decidi, me preparei e pensei muito em como iria falar. E foi com muita dor. Ninguém escolhe [fazer um aborto]. Você está sozinha, desamparada… Tem medo da sua mãe, do seu pai e do cara que dá as costas. E tudo isso com aqueles hormônios enlouquecidos. Depois que falei, fui muito acolhida nas redes sociais.
Na sua visão, o que faz com que o aborto ainda seja um tema tão sensível e controverso em 2025? Porque somos um país de maioria católicos e evangélicos. Ninguém entende que isso é uma questão feminina. No mínimo, o governo deveria apoiar, pois é uma questão de saúde pública. As clínicas de aborto estão por aí para aquelas que não têm recursos. E quem tem faz curetagem em hospital bacanudo com a cobertura do plano de saúde. Lamento profundamente que a gente não tenha essa conversa porque, ainda hoje, mulheres morrem por conta de abortos mal realizados.
E estamos perto ou longe de falarmos sobre isso? Longe. O Brasil só anda para trás. Nos tornamos uma nação de gente careta e covarde, de todos os lados. Não é só covardia, é um emburrecimento. Falta dar base educacional para a gente ter senso crítico. Não é só aprender a data da libertação dos escravizados. É ter senso crítico para falar sobre aquilo.
Como uma admirável conselheira, qual conselho você dá para essa nova geração? Tenham pelo menos uma amiga mais velha. Quando perdi a Rita Lee, fiquei desolada. Só pensava em quem eu vou mirar. Hoje sou a mais velha do meu grupo de amigas, sinto falta de uma mais velha só para mim.
Vivemos em uma era de influencers. Com mais de um milhão de seguidores, você se considera uma? Se tem alguém que é influencer, esse alguém sou eu. Não dá para chamar de influencer quem fica trocando de roupa por post. Isso se chama blogueira. Influenciadora sou eu, Ana Maria Braga, Miriam Leitão, Regina Casé… Elas passarão, nós seguiremos. Estou falando do macro, claro. O que me irrita são aquelas que ficaram milionárias à base da pobreza da sua audiência.







