O que é ‘masculinismo’, o movimento de coachs misóginos das redes sociais
Socióloga Isabelle Anchieta explica que o ódio contra as mulheres é baseado em uma 'frustração sexual'; entenda

Nos últimos anos, uma onda de ódio contra as mulheres se acentuou as redes sociais. Alimentado por certos influenciadores digitais, que se autodenominam “coachs da masculinidade”, este discurso, quase sempre, se utiliza de misoginia para forçar conteúdos de ofensas de gênero. Tal movimento, incentivado por uma frustração sexual masculina, já teve diferentes nominações: incels, redpils… e agora a mais nova é “masculinismo”. Quem se identifica como “masculinista” argumenta que é preciso defender os direitos dos homens, reagindo negativamente a conquistas femininas, ou até indagando sobre o papel de gênero da sociedade pelas mulheres, postas em posição inferior.
Uma das lideranças do “masculinismo” no Brasil, o influenciador Rafael Aires (com cerca de sete mil seguidores) se autodenomina no Instagram como “destruidor de ilusões”, ao criar o “metódo antiotário”, baseado em um livro que escreveu com nome homólogo. Ele argumenta que as mulheres querem usar os homens para conseguir regalias, iludindo-os. Com argumentos misóginos, o criador afirma que os homens não devem aceitar exigências das mulheres de não quererem, por exemplo, dividir a conta num jantar. Não esconde, entre outras pérolas, de que elas precisam ser submissas.
Segundo a socióloga da Universidade de São Paulo (USP), Isabelle Anchieta, esse movimento crescente nas redes sociais reflete uma expectativa frustrada e uma incapacidade de se relacionar com o outro sexo. “O fenômeno está relacionado a uma nova postura das mulheres. A reivindicação de uma vida própria e a busca por assumir seus projetos biográficos impactam não apenas os homens, mas também os filhos, a sociedade e suas instituições sociais como um todo. Trata-se de uma reação negativa à liberdade feminina em diversas áreas: educacional, econômica, sexual e moral”, explica em conversa com a coluna GENTE.
De acordo com Isabelle, as redes sociais são um ponto-chave para essa onda, já que a internet é marcada pelo isolamento e pela solidão. “Apesar de a mediação tecnológica parecer facilitar os encontros, na prática, ela constrói relações superficiais, incapazes de lidar com as nuances complexas dos sentimentos humanos. Essa dificuldade em lidar com a frustração e o desejo do outro tem contribuído para o surgimento e fortalecimento de grupos extremistas. Geralmente, esses movimentos atraem indivíduos fragilizados em suas relações interpessoais, oferecendo um senso de pertencimento, ainda que fundamentado no ódio – que, no fundo, é apenas uma gradação de uma atração mal resolvida”, afirma.
Os criadores de conteúdo que promovem misoginia se aproveitam de homens com dificuldade de interação social para crescer. Thiago Schutz, conhecido como “calvo do campari”, ganhou fama por defender a manipulação feminina – mexendo diretamente com inseguranças dos homens que não conseguem parceiras românticas. Com 436 mil seguidores em seu perfil no Instagram, ele dá conselhos amorosos. Num deles, responde à questão: “Como devo conquistar minha garota todos os dias?”. Thiago diz que o ideal é reformular a questão: “Como minha garota deve me conquistar todos os dias?”. Em outro post, chega ao cúmulo de perguntar ao chat GPT como saber se “uma mulher é rodada”. Na ausência de uma resposta via Inteligência Artificial, ele aproveita para vender seu curso aos seguidores.
Para a socióloga Isabelle Anchieta, este é mais um exemplo de como a desvalorização da mulher é crucial para se instalar uma cultura machista. “Vivemos em uma sociedade que ainda apresenta um único modelo de relacionamento – como casal. Não por acaso, esses grupos masculinos online encontram base no ressentimento e na frustração de caráter sexual”, diz a pesquisadora.
No universo cinematográfico, há diversos personagens que são o rosto do masculinismo – o famoso hétero top tóxico: O Poderoso Chefão e Taxidriver, só para ficar em dois títulos bastante populares. Mas também na televisão, em novelas ou séries, o que não falta é a representação de homens que perderam espaço para mulheres e agora se sentem diminuídos – e até dispostos a recuperar terreno à base de violência. Esses movimentos podem mudar de nome, mas o DNA continua o mesmo. O problema é que esses sujeitos andam tentando levantar novos muros, justamente com os tijolos dos que foram derrubados nas fronteiras de gêneros nas últimas décadas.