Uma breve história do Carnaval na arte
De Tarsila do Amaral a Beatriz Milhazes, artistas se inspiram e retratam o Carnaval de formas surpreendentes
Desde o século XIX, o Carnaval serviu como fonte de inspiração para diversos artistas brasileiros: “Do carnaval tirei o amor à cor, ao ritmo e à sensualidade de um Brasil original”, disse um dos mais importantes artistas modernos brasileiros, Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976). Das passarelas da Sapucaí, com carros alegóricos que deslumbram por sua monumentalidade e fantasias que surpreendem pela criatividade, o Carnaval é mundialmente conhecido como uma época de celebração e muito brilho.
Porém, o Carnaval nem sempre foi dessa forma, e uma aquarela feita em 1823 ajuda a compreender, em cores, os primórdios da festa além dos relatos escritos. O artista francês Jean-Baptiste Debret (1768–1848) viveu no Brasil por fazer parte da Missão Artística Francesa de 1816, atuando como pintor da corte de D. João VI e professor da Academia Imperial de Belas Artes. Ele registrou cenas do cotidiano e costumes brasileiros em sua obra Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, levada à França em uma época em que a curiosidade europeia pela cultura brasileira só crescia.
Uma das ilustrações desta obra é uma aquarela feita no Rio de Janeiro, em 1823, retratando um dia de Entrudo, como era chamado o Carnaval da época. Ao contrário das celebrações atuais, o Entrudo consistia em brincadeiras trazidas pelos portugueses no período colonial, com origens em festas medievais, que incluíam sujar e molhar uns aos outros com água, farinha e alimentos.
A aquarela mostra uma mulher com uma cesta na cabeça enquanto um homem atrás dela suja seu rosto com polvilho, e outro jovem, à direita, mira um jato de água. No canto direito, uma mulher sentada segura uma bandeja com limões-de-cheiro — pequenas bolas de cera recheadas com água perfumada, característica desse tipo de Carnaval. Essa cena colorida é colocada em evidência em contraste com o fundo, que apresenta uma construção colonial, uma montanha e algumas figuras aparentemente participando da mesma brincadeira; porém, os traços são leves e com aparência inacabada, conferindo espontaneidade à cena como um todo e situando-a no Rio de Janeiro colonial.
Praticamente um século depois da realização dessa aquarela, o Entrudo começou a ser criticado e perdeu força. Em seguida, no fim dos anos 1920, as escolas de samba foram criadas e, com isso, artistas modernos brasileiros passaram a se inspirar e retratar a alegria do Carnaval, cada um com sua linguagem pictórica única. Em 1924, Tarsila do Amaral pintou uma de suas obras mais icônicas, Carnaval em Madureira. Nela, Tarsila une o formato moderno europeu, com nítidas influências cubistas, ao conteúdo simbólico brasileiro, criando uma linguagem visual própria que ajudou a definir a identidade do modernismo na arte brasileira. Na pintura, uma réplica da Torre Eiffel ocupa o centro, enquanto figuras vestindo roupas de cores vivas e adornos na cabeça se reúnem em um ambiente com bandeiras e ornamentos festivos. No mesmo clima festivo, em 1940, Emiliano Di Cavalcanti pintou cenas carnavalescas com ênfase na dança e em movimentos fluidos, visíveis em suas pinceladas suaves e contínuas.
Nos anos 1960, os artistas continuaram a retratar aspectos marcantes das festividades carnavalescas, como Candido Portinari, com sua pintura intitulada Carnaval, que apresenta músicos, uma multidão na arquibancada ao fundo e, à esquerda, a porta-bandeira, com o calçadão de Copacabana e o mar. Na mesma época, Heitor dos Prazeres, artista e sambista, era conhecido por suas diversas pinturas que retratam o cotidiano popular, o samba e a vida nas comunidades do Rio de Janeiro. Em uma de suas pinturas sem título, de 1960, ele retrata a diversidade do Carnaval por meio de símbolos como fantasias de Pierrot e mulheres com cestos de frutas na cabeça, sugerindo a alegria coletiva que nasce do caráter lúdico, com os Arcos da Lapa ao fundo, reafirmando a força do Rio de Janeiro na tradição carnavalesca.
Artistas da atualidade continuam essa tradição de se inspirar no Carnaval de acordo com seus próprios estilos e linguagens pictóricas. Beatriz Milhazes propõe um Carnaval abstrato com sua técnica que se desdobra em colagem, na qual formas oriundas de flores, círculos e ornamentos, em cores vibrantes, se sobrepõem em composições rítmicas inspiradas nas curvas barrocas e nos adornos carnavalescos. Leda Catunda também apresenta uma estética carnavalesca, marcada pelo uso de materiais macios, tecidos e superfícies acolchoadas. Em suas obras, camadas se sobrepõem e se acumulam, dando origem a pinturas-objeto, dialogando com os excessos do Carnaval com abundância de ornamentações, cores e aglomerações.
Outro exemplo é a artista contemporânea Sophia Loeb, que faz referência ao Carnaval de forma abstrata por meio de explosões de cores que se encontram e de texturas criadas por pinceladas de estilos diversos, como em sua obra intitulada Cataclismos, Carnaval.
Para ver obras de artistas citados nesta matéria ao vivo, em um diálogo dedicado ao Carnaval, não perca as exposições atualmente em cartaz no Rio de Janeiro:
- “Como funcionam os vulcões”, na Carpintaria (Rua Jardim Botânico, 971)
- “Carnavalizar: Método e Invenção”, na Galeria Flexa (Rua Dias Ferreira, 214)





