Um olhar sobre “O Diabo Veste Prada 2” e sua conexão com a realidade
Menos tendência, mais permanência: como o filme se mostra atualizado e atemporal independente das mudanças de algoritmo
Em “O Diabo Veste Prada 2”, bastou alguém anunciar no rádio “Miranda Priestly está vindo” para que o set inteiro sentisse o mesmo arrepio coletivo. Não era apenas Meryl Streep entrando em cena: era a memória afetiva de uma geração sendo ativada. Como descreveu Anne Hathaway, o momento abriu “portais” entre a Andy de 22 anos e a mulher que retorna agora, duas décadas depois. E, como sempre, é o figurino que traduz esse salto no tempo.
Sob o comando de Molly Rogers, que assume o bastão deixado por Patricia Field, a continuação faz uma escolha clara: menos obediência ao ciclo frenético de tendências, mais aposta em roupas que sobrevivem ao calendário da moda. A regra número um foi evitar o óbvio. Nada de acessórios fáceis ou looks que denunciem a estação. A proposta é outra: criar imagens que possam ser vistas daqui a dez anos sem parecerem datadas — como aconteceu com o primeiro filme, hoje referência estética permanente.
Miranda Priestly surge fiel ao próprio mito, mas atualizada. Ombros poderosos, silhuetas lapidadas, joias de cores saturadas, ecos de Audrey Hepburn e um vestido sob medida da Balenciaga, já na fase Pierpaolo Piccioli, reforçam a ideia de uma mulher que manteve o trono, mas ajustou a armadura. Há também Lanvin, couture de Gaultier de arquivo e um jogo entre estrutura e fluidez que reflete uma editora que continua mandando, só que em um cenário de mídia mais instável.
Emily, de Emily Blunt, agora no comando de uma marca de luxo, veste poder com a mesma precisão com que dispara frases cortantes. O bob vermelho segue como assinatura visual, mas os looks ganham peso corporativo: alfaiataria afiada, acessórios que sinalizam status, roupas que comunicam que ela não é mais a assistente que corre atrás — é quem segura as chaves do dinheiro.
Nigel, interpretado por Stanley Tucci, continua sendo o coração elegante da fictícia Runway. Seus ternos e escolhas refinadas reforçam o papel do personagem como guardião do bom gosto, aquele que entende que moda não é só espetáculo, mas também construção de identidade.
A virada mais interessante, porém, está em Andy Sachs, de Anne Hathaway. Sua volta à redação vem costurada por uma estética quase masculina: ternos, gravatas, coletes, saias plissadas, Gabriela Hearst, Sacai, Ulla Johnson e muito vintage. Um terno listrado de três peças de Jean Paul Gaultier, blazers Armani garimpados e referências diretas a Annie Hall desenham uma mulher que passou anos na estrada, fez jornalismo investigativo, aprendeu a se vestir fora do radar óbvio da moda. Cada peça carrega biografia. O mais interessante, porém, é que vem bem mais real.
Beleza real acompanha maturidade do filme
A beleza acompanha essa maturidade. Menos cabelo engessado, mais movimento. Menos maquiagem de passarela, mais pele real. A proposta foi fugir do efeito “Instagram” e abraçar uma beleza mais limpa, mais adulta, mais coerente com personagens que já viveram — e que não precisam fingir que ainda têm 20 anos.
Em um filme onde a roupa sempre foi instrumento de poder, “O Diabo Veste Prada 2” amplia o discurso em que o figurino não apenas impressiona, mas explica: quem ficou, quem saiu, quem voltou diferente. Quando Miranda atravessa o corredor outra vez, não é só para ser temida. É para lembrar que estilo verdadeiro não envelhece, mas se adapta, se aprofunda e continua mandando, mesmo quando o mundo ao redor muda de algoritmo.






