O luto das coisas invisíveis
Como lidar com uma perda delicada: os sonhos não realizados
Existe um tipo de luto que não tem velório, não recebe flores e ninguém sabe que a gente está vivendo. É o luto das coisas que não aconteceram. Desde cedo “aprendi” a lidar com perdas concretas: a morte de alguém querido, o fim de um trabalho, o adeus a um amigo que mudou de cidade, um relacionamento que desaba. Há rituais, abraços, mensagens, choros, confissões, uma legitimidade social para a dor. Mas ninguém nos prepara para as despedidas invisíveis. Para aquilo que não chegou a existir e que, ainda assim, ocupa um espaço inteiro dentro da gente. Às vezes é uma cidade onde queria morar, onde até vi um apartamento, a padaria da esquina e o caminho até o trabalho. Em algum momento, a vida virou para o outro lado e, sem perceber, nunca mais voltei à aquela rua, onde ia viver para sempre — na minha cabeça. Quando jovem, queria morar em Paris e estudar literatura. Mas só fui como turista e nem cheguei a subir na Torre Eiffel. Outras vezes é um amor. Não um amor longo. Pior: um amor possível, aquele que parou na fase do crush. Quase fomos. Havia planos, datas cogitadas, uma passagem que nunca foi comprada, look escolhido e trilha sonora. Nada terminou oficialmente, mesmo porque nada começou. Anos depois, talvez nem saiba mais o que foi feito daquela pessoa. Ainda assim, sinto saudade de quem eu seria ao lado dela.
Há também o filho imaginário. Muita gente tem o nome escolhido, a escola pensada, as histórias que contaria. A vida tomou outro rumo, até feliz. Mas às vezes, nos silêncios, percebe-se que existe alguém que nunca nasceu e, paradoxalmente, nunca deixou de existir. Existe a versão de nós mesmos, aquela pessoa que acreditei que seria aos 40, aos 50. Atualmente, aos 70. Mais corajoso, mais seguro, mais livre e — ai, meu Deus — mais fitness. Não é frustração exatamente. É um reconhecimento delicado de que viver também é fechar portas internas. O curioso é que essas perdas não podem ser compartilhadas com facilidade. Outro dia, confessei a amigos que já sonhei ter cabelo rastafári. Todo mundo riu, meu desejo pareceu absurdo. Mas era verdade. Em algum lugar do espaço e tempo existe uma versão minha rastafári.
“Crescer é aceitar que várias vidas minhas não vão acontecer. E, mesmo assim, seguir inteiro”
Como explicar que sinto falta de algo que nunca aconteceu? Soa ingrato, dramático demais. Então sigo adiante. Pago as contas, dou risadas, marco jantares. Mas carrego pequenas biografias paralelas que ficaram pelo caminho. Talvez amadurecer seja isso: aprender a conviver com minhas vidas não vividas, sem tratá-las como fracassos. Elas não foram erros. Mas possibilidades. E possibilidades nem sempre existem para serem cumpridas. No fim, não somos feitos apenas das escolhas que realizamos, mas também das que ficaram suspensas no ar. Como a purpurina do Carnaval que não pulei. Ainda brilha, mas só na imaginação.
Crescer é aceitar que várias vidas minhas não vão acontecer. E, mesmo assim, seguir inteiro.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983





