As lições do joelho ralado: a ideia moderna por trás da nova safra de parquinhos
Com muita corda, troncos e trilhas irregulares, eles mostram que correr riscos controlados ajuda a crescer

Aos 6 anos, Clara não para quieta. A menina escala o pai como se ele fosse um trepa-trepa humano. “Me pega!”, grita, antes de se soltar e se lançar ao ar. Seu irmão, Tomás, 4, segue a cena com olhos atentos. “O que mais me dá medo é quando a brincadeira não depende só deles, mas também dos reflexos de outra pessoa ou da resistência dos objetos em volta”, diz Paula Ellinger, 42, bacharel em relações internacionais e mãe da dupla, com um misto de orgulho e apreensão. Clara adora subir em árvores, plantar bananeira com uma só mão e pendurar-se em qualquer estrutura disponível. Tomás tenta acompanhá-la, colocando para seus pais um dilema dos tempos modernos: é saudável permitir que crianças se arrisquem? Sim, é não só saudável como recomendável.
Em um mundo onde impera a diversão infantil controlada e previsível, embutida da sensação de segurança, essa visão adentrou com força o espaço urbano, moldando os parquinhos de grandes metrópoles para oferecerem experiências que ensinem os pequenos a superar o frio na barriga e se aventurar. No sentido oposto ao das estruturas projetadas para minimizar qualquer possibilidade de acidente, envoltas por cercas e revestidas de pisos uniformes, os playgrounds mais modernos giram cada vez mais em torno de uma filosofia que se traduz em zonas de lazer rústicas, povoadas por troncos, pedras pelo caminho e até atividades com fogo ao estilo escoteiro — tudo dentro dos parâmetros do que é seguro, claro, mas com direito ao bônus de um frio na barriga. Sob esta moldura mais radical, digamos assim, a superproteção cede lugar a uma ideia mais arejada — e produtiva — de farra ao ar livre. “Parquinhos seguros demais não oferecem oportunidades para a experimentação física, motora e emocional, que é muito benéfica”, afirma Maria Isabel de Barros, especialista do Instituto Alana, referência no país em educação infantil.

Segundo os especialistas, riscos moderados são essenciais para a formação de ferramentas muito úteis à etapa adulta. Quem não se arrisca nos primórdios da existência, fase de ebulição dos neurônios e de vasto aprendizado, pode se tornar mais inseguro e menos preparado para lidar com as incontornáveis adversidades da vida madura. Pesquisas sinalizam que crianças constantemente expostas a uma forma aventureira de brincar revelam boa capacidade para encarar incertezas e frustrações mesmo na mais tenra idade. Um levantamento realizado no Reino Unido mostra que garotos e garotas de 5 a 11 anos com permissão para se engajar em “atividades mais perigosas” apresentam inclusive menos sintomas de estresse e ansiedade. O contato direto com a natureza, como se costumava ver nos parquinhos pós-Segunda Guerra, também ajuda a domar o medo e contribui para o autocontrole.
Outro aspecto que emerge da farra sobre terrenos irregulares e alturas que podem a princípio espantar é o quanto experimentar “apuros” em grupo aproxima a criançada. De acordo com ampla pesquisa conduzida em uma parceria de universidades da Califórnia e do Canadá, os desbravadores mirins revelaram maior estofo para enfrentar riscos e firmaram valiosos elos com os companheiros de aperto. “Escalar um tronco ou correr onde há pedras e buracos fortalece o corpo e a mente”, enfatiza Daniel Becker, especialista em infância. Neste caso, uma engrenagem simples empurra a garotada rumo à conquista de resiliência. “Quando uma criança se machuca, ela aprende a avaliar seus limites e a tomar precauções na próxima vez”, explica Miguel Akkari, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

O candente debate atravessou até os portões escolares em países como Canadá, Holanda e Dinamarca, na vanguarda das trilhas permeadas de obstáculos para as jovens gerações de aventureiros. O modelo dos jardins de infância florestais, em Copenhague, transforma espaços verdes em sala de aula, estimulando crianças de 2 a 6 anos a se enfronhar na natureza, manusear facas afiadas, interagir com animais e cozinhar em torno de fogueiras — isso sob o zeloso olhar de educadores. No Brasil, a cena urbana de municípios como Jundiaí, no interior de São Paulo, e Fortaleza, no Ceará, ligados a uma rede global que vê o planejamento das cidades à luz das demandas infantis, a Urban95, abriga espaços infantis fartos em areia, cordas e aclives e declives. Os pais, naturalmente, se assustam com um tombo aqui, um joelho ralado ali. “A vigilância permanente é necessária e o medo, compreensível, mas correr riscos faz parte de um desenvolvimento completo e saudável”, lembra Daniel Becker. Na montanha-russa da vida adulta, afinal, poucos desafios vêm com pisos acolchoados, e é bom aprender desde cedo.
Publicado em VEJA de 28 de março de 2025, edição nº 2937