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Exposição controlada: os desafios do ECA Digital para proteger a infância nas redes

A alta presença de crianças e adolescentes nas plataformas, onde alguns se tornam influencers seguidos por milhões, é alvo do novo estatuto

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 27 mar 2026, 10h29
  • Depois de uma era de navegação desenfreada nas redes sociais, sem qualquer balizador do que é razoável, uma ala de pais começa a tomar ciência das consequências do uso excessivo das telas pela garotada, seja porque subtraem um tempo precioso em plena fase de desenvolvimento, seja porque funcionam como porta de entrada para conteúdos impróprios para os mais jovens. O bem-vindo debate sobre a demarcação de limites on-line ingressou assim no rol dos assuntos prioritários, na escola e em casa. Mas, como em todo processo de depuração, há ainda vista grossa em demasia em relação às esticadas jornadas dos filhos diante de seus laptops e smartphones, o que não raro deságua em fenômeno ainda mais preocupante pelo potencial de danos: muitos progenitores não apenas os deixam à vontade para consumir de tudo, como permitem, e até estimulam, que criem contas em que se exibem sem filtros, acumulando multidões de seguidores que chegam a ombrear com as de influenciadores já crescidos.

    LIZ MACEDO - Idade: 16 anos - Seguidores 13,7 milhões - Marca registrada Fotos quase sempre com o uniforme de academia e divulgação de detalhes de relacionamentos amorosos e rotina na academia
    LIZ MACEDO – Idade: 16 anos – Seguidores 13,7 milhões – Marca registrada Fotos quase sempre com o uniforme de academia e divulgação de detalhes de relacionamentos amorosos e rotina na academia (@lizx.macedo/Instagram)

    É justamente nesse universo tão permeado de armadilhas que o novo Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, em vigor desde o último dia 17, atuará, podando as asas de menores de idade e lançando a responsabilidade pela rotina virtual a quem desde sempre deveria exercê-­la: os adultos. Será um desafio tirar do papel as novas regras, mas o esforço vale a pena. Se bem implantada, a cartilha do governo federal servirá de peneira para aquilo que o vasto público de até 17 anos poderá acessar, exigindo das redes a criação de mecanismos de verificação etária e vinculando seus perfis aos do pai ou da mãe, que desse modo conseguirão saber o que se desenrola nas telas.

    Em dado momento, a lei especificamente mira os influenciadores infanto-juvenis — agora, eles só vão atuar sob a anuência dos pais, que têm até três meses para obter um alvará judicial. Também, o festival de postagens que esses precoces “criadores” disseminam, frequentemente carregadas de teor erotizado e contextos adultos, não será mais impulsionado nem tampouco monetizado pelas plataformas — tudo fiscalizado (espera-se que a contento) pela Agência Nacional de Proteção de Dados e sujeito a altas penalidades, com um louvável objetivo: proteger uma geração que, mesmo se sentindo pronta para cuidar do próprio nariz, precisa naturalmente amadurecer para distinguir as nuances postas pela realidade. “A adultização nas redes é uma forma de ceifar o direito de crianças e adolescentes viverem de forma adequada à sua idade”, alerta Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

    arte influenciadores

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    As empresas que desafiarem a lei serão alvo de vultosas multas, de até 50 milhões de reais, como já o são em países que despertaram antes para o tema e colocaram de pé um arcabouço legal capaz de, se não extinguir, reduzir os riscos à infância trazidos pelo vale-tudo digital. Entre os mais citados aparecem a Austrália, que instituiu em 2025 a maior de todas as réguas etárias para a entrada nas redes, 16 anos, e a França, que pede autorização dos pais para a criação de perfis até os 15. Na terça-feira 24, um júri do Novo México, um dos mais avançados estados americanos neste sinuoso terreno, bateu o martelo contra a Meta — grupo controlador do Facebook e do Instagram — por não ter conseguido passar por um teste do departamento de Justiça local: o órgão inventou uma conta de uma menina de 13 anos, que não demorou a receber mensagens de abusadores. Por falhar em “fechar o cerco aos predadores sexuais”, a gigante de Mark Zuckerberg terá de desembolsar o equivalente a 1,9 bilhão de reais para arcar com a histórica penalidade, da qual avisou que vai recorrer. Em outra decisão simultânea e histórica, a Corte Superior de Los Angeles voltou a condenar a Meta e o Google — do YouTube — por “vício em redes”. O caso foi levado aos tribunais por famílias cujos filhos viviam mergulhados nas redes e apresentaram “danos mentais”. As empresas terão de pagar o equivalente a 15,6 milhões de reais em indenizações.

    A reportagem de VEJA mapeou os perfis infantojuvenis de maior alcance, um grupo que ultrapassa a marca dos 10 milhões de seguidores. O que os leva ao panteão de curtidas e compartilhamentos segue como mistério insondável: tudo indica que envolve elevadas doses de persistência — postar, postar, postar —, um afã acima da média para se expor e uma mãozinha do acaso. Ao estrear com tenros 11 anos, Liz Macedo, hoje com 16 e atual campeã de audiência nas redes, com seus quase 14 milhões de seguidores, mostrava os looks e o dia a dia escolar, até que o tom foi ficando mais sério. Começaram a falar mal de seu nariz, e não deu outra: ela se submeteu a duas rinoplastias e passou a agitar uma bandeira para lá de perigosa. “Ninguém vai te amar se você não for atraente”, chegou a declarar a influenciadora, que se exibe entre treinos pesados e eventos luxuosos a uma turma que ainda não virou a página para a vida adulta.

    SEM NOÇÃO - Virginia: a audiência salta com a exibição dos filhos em tempo real
    SEM NOÇÃO - Virginia: a audiência salta com a exibição dos filhos em tempo real (@virginia/Instagram)
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    Os efeitos deletérios desse tipo de mensagem já foram bem mapeados pelos estudiosos. “Adolescentes neste nível de exposição vão perdendo a espontaneidade, internalizam padrões inalcançáveis de comportamento e ainda os disseminam em grande escala”, diz a psicóloga Bianca Orrico, da SaferNet, organização voltada para direitos humanos na internet. Quando a monetização movida a publicidade alcança cifras expressivas, então, os riscos aumentam. “A expectativa de engajamento e retorno financeiro faz a pessoa ser cada vez menos ela mesma, o que é grave em um estágio já marcado por tantas incertezas”, ressalta a psicóloga. No ano passado, a carioca Antonela Braga, 17 anos recém-completos e dona de 13 milhões de seguidores, viu-se tragada para uma polêmica entre colegas que diziam que ela havia flertado com o namorado de uma delas. Pois o que poderia ser mais um daqueles desentendimentos inescapáveis da adolescência se transformou em um tribunal virtual que abalou as bases da garota. “Deixo de fazer coisas por saber que tudo pode repercutir”, reconheceu a VEJA Antonela, uma usina de postagens sobre maquiagem, roupa, procedimentos estéticos (aos quais recorreu) e coreografias ao som de funk.

    Como em tantos outros casos, a adolescente conta com a aprovação da mãe, a empresária Nathalia Braga, 36 anos, que, influenciadora posicionada no escaninho do lifestyle, a estimulou a seguir seus passos quase como um desdobramento natural. Com 2,5 milhões de seguidores, bem menos que a filha, Nathalia diz que faz o que pode para mantê-la em solo saudável. “Se toma alguma atitude que não condiz com as regras da nossa família, eu guardo seu celular”, garante, sem esconder o orgulho de ter em casa “uma das maiores influencers teen do Brasil”, guiada por “valores inegociáveis”. A questão essencial aí não é propriamente a intenção, mas o grau de subjetividade embutido na avaliação do que é próprio para ser tão maciçamente divulgado. “A nova lei preenche exatamente essa lacuna, ao dar a um juiz a missão de arbitrar sobre até onde os influenciadores mirins e juvenis podem ir”, defende Maria Mello, gerente do eixo digital do Instituto Alana, especializada nos direitos da criança.

    LORENA QUEIROZ - Idade: 15 anos - Seguidores 11 milhões - Marca registrada Desfile de looks em variados cenários e bastidores dos sets e palcos em que atua
    LORENA QUEIROZ – Idade: 15 anos – Seguidores 11 milhões – Marca registrada Desfile de looks em variados cenários e bastidores dos sets e palcos em que atua (@lorenaqueiroz/Instagram)
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    A discussão se faz inadiável diante da delicadeza das etapas que antecedem a vida adulta. Nesse período, o cérebro consolida circuitos ligados a regulação emocional, tomada de decisão e formação de identidade — processos que podem se ver comprometidos com o bombardeio de estímulos das redes. “Isso gera ansiedade em jovens que ainda estão sedimentando suas estruturas mentais e pode trazer necessidade por mais likes e seguidores, como um vício. Não à toa, é comum haver casos de depressão”, explica Danielle Admoni, da Associação Brasileira de Psiquiatria. Tudo ganha complexidade na infância — um nó ainda por desatar em um país em que estão a toda nas redes. De acordo com um recente levantamento do TIC Kids Online, 60% das crianças brasileiras entre 9 e 10 anos têm cadastro nos principais apps, mesmo que o regulamento exija idade mínima de 13. O sistema para averiguar a informação, até agora, era risível — bastava apertar um botão afirmando ter mais de 18 —, o que se espera mudar com o novo ECA.

    Os especialistas concordam que, a partir da idade permitida, a questão não é condenar a navegação da criançada nem vetar sua exposição, já que em níveis adequados ela até contribui para as tão valorizadas habilidades socioemocionais. O duro é achar o tal ponto de equilíbrio. Um dos mais bem-sucedidos representantes da ala mirim nas redes, o ator mineiro Isaac Ferreira, 12 anos (um a menos do que o autorizado pelas plataformas), revelação do filme Chico Bento, amealhou 6,5 milhões de seguidores em seus perfis, onde compartilha vídeos com a família condizentes com a pouca idade, sem apelação. “O apoio dos meus pais é fundamental”, já disse. A atriz Lorena Queiroz, 15 anos, foi outra que cedo na vida, ainda aos 5, já dava o ar da graça sob os holofotes virtuais. “Isso nunca foi problema”, afirma ela, do alto de seus 11 milhões de seguidores. A exposição precoce é sabidamente um território cheio de asperezas, como confirmam as conturbadas trajetórias de astros mirins de renome internacional — Macaulay Culkin, de Esqueceram de Mim, e a cantora Miley Cyrus, entre eles. E a internet complica o cenário. “Os rastros digitais são duradouros e podem gerar constrangimentos futuros”, lembra a psicóloga Bianca Orrico.

    ISAAC AMENDOIM - Idade: 12 anos - Seguidores 6,5 milhões - Marca registrada Vídeos com o dia a dia na fazenda da família e quadros de humor
    ISAAC AMENDOIM – Idade: 12 anos – Seguidores 6,5 milhões – Marca registrada Vídeos com o dia a dia na fazenda da família e quadros de humor (@oisaacamendoim/Instagram)
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    Sem dar bola para o que sinalizam os estudiosos, muitos pais caem na tentação de praticar o overposting para enaltecer a fofura dos rebentos e perdem a mão, às vezes de caso pensado. O engajamento costuma disparar, assim como o lucro. O mais emblemático exemplo no Brasil é o da influencer Virginia Fonseca, 26 anos, à frente de superlativos 97 milhões de seguidores, alvo de uma saraivada de críticas ao superexpor gracinhas e birras dos filhos — Maria Alice, 4, Maria Flor, 3, e José Leonardo, de 1 aninho. “Enquanto tiverem menos de 18, eu que mando e vai ser assim”, rebate. É um comportamento perigoso, segundo os especialistas. “As imagens disseminadas pelos pais oferecem riscos, como a preocupação excessiva da criança em agradar a audiência e a indevida invasão de sua privacidade, deixando-a inclusive vulnerável à pedofilia”, enfatiza Mauricio Cunha, presidente-executivo do ChildFund no Brasil. O novo ECA também resguarda os pequenos da inaceitável falta de noção dos pais, com punições variadas. Que tão salutar inciativa deixe o papel e demonstre ser mesmo capaz de proteger a criançada.

    Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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