Mansão envolta em tragédias e lendas reabre para visitação na Escócia
Evento dá gás a um circuito movido no mundo todo pelo pendor para o macabro
Nas margens enevoadas do lendário Lago Ness, na Escócia, um silêncio que já dura séculos está prestes a ser rompido — e isso não tem a ver com nenhum monstro no fundo das águas. Pela primeira vez em cerca de 260 anos, após um longo processo de restauração, a Boleskine House será aberta à visitação pública, marcando o renascimento de um endereço de arrepiar que sobreviveu a dois incêndios devastadores, em 2015 e 2019. A recuperação do imóvel, financiada em parte por fundos de apostas e loterias, devolve ao mapa turístico um local em que a história se confunde com o mito, oferecendo ao mesmo tempo uma janela única para o estudo do ocultismo, da história do rock e do crescente fascínio pelo turismo de terror.
A reabertura do solar depois de seis anos de reformas traz de volta um corolário de lendas que atravessou gerações. O casarão carrega o peso de seus antigos proprietários, sendo o mais notório deles Aleister Crowley (1875-1947), o ocultista britânico que adquiriu a mansão em 1899. Conhecido em sua época como “o homem mais perverso do mundo”, Crowley escolheu o isolamento das Terras Altas escocesas para realizar o ritual de Abramelin, uma cerimônia de magia que exigia meses de reclusão para invocar anjos e demônios. A história sugere que rituais mal finalizados teriam deixado uma marca indelével na casa, povoando-a com energias perturbadoras, que ecoariam para além da partida do mago da mansão, em 1913.
Essa aura de mistério foi o combustível para que, décadas mais tarde, a propriedade se tornasse uma peça fundamental na mitologia do rock. Em 1971, o guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page, colecionador de objetos de Crowley, comprou a mansão. O músico dizia que “a besta do Apocalipse”, outro dos apelidos do bruxo, era o gênio mais incompreendido do século XX. Page ajudou a transformar Boleskine em cartão-postal pop ao discorrer sobre a atmosfera opressiva do lugar. Na farta crônica do terror da história do endereço, há episódios macabros como o som de uma cabeça decapitada rolando pelas escadas e a história do suicídio de um major que teria acontecido no quarto de Crowley. Hóspedes mais corajosos para ficar ali relatavam noites insones de terror, em meio a sons de correntes sendo arrastadas. Page acabou vendendo a casa em 1992.
A abertura da Boleskine House insere oficialmente a casa no circuito global do chamado turismo de terror, um fenômeno em alta, impulsionado pelo desejo humano de visitar locais associados à morte, ao desastre e ao macabro. Esse segmento, que movimenta em torno de 33 bilhões de dólares no mundo, explora a fronteira entre o real e o imaginário, em que a tragédia histórica é não raro consumida através de uma lente de fascínio cultural. Não por acaso, a Europa detém a maior fatia desse nicho em ascensão (44%): um sinistro roteiro pontua todo o mapa do continente, muitos ligados às duas grandes guerras e ao Holocausto. O campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, as Catacumbas de Paris, na França, e a zona de exclusão de Chernobyl (até antes do atual conflito), na Ucrânia, são alguns dos pontos preferidos desses peregrinos da desgraça.
Trata-se de um seleto panteão de destinos fincados sobre narrativas sombrias, sejam elas baseadas em fatos, literatura ou cinema. Esse circuito inclui endereços icônicos como o Castelo de Bran, na Romênia, que magnetiza turistas embalado pelo marketing de ter sido residência de Drácula de Bram Stoker, apesar das tênues conexões históricas com Vlad, o Empalador, e o Stanley Hotel, em Estes Park, nos Estados Unidos. A atmosfera do hotel, aliás, inspirou Stephen King a escrever O Iluminado e atrai fãs da adaptação de Stanley Kubrick (embora o filme tenha sido rodado em estúdio).
Em contraste com alguns parques temáticos que se especializaram em fabricar o horror contratando atores maquiados, esses locais oferecem o pavor real de um legado de arrepiar: a Boleskine House, por exemplo, não precisa de efeitos especiais, pois sua história real, que envolve incêndios, rituais demoníacos e a passagem por lá de figuras famosas, já fornece o ingrediente extraordinário que o visitante contemporâneo busca para dar aquela escapada do cotidiano. Ao abrir suas portas, a casa convida o público a decidir onde termina a lenda e começa a história, provando que, no turismo cultural, as lendas do passado movimentam as engrenagens do presente. Os fantasmas se divertem, enquanto os lucros obtidos com os gritos de espanto dos turistas engordam o caixa dos promotores dessas noites do terror.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





