Nas praias e nas piscinas, despontam modelos artesanais de biquínis
Elas dão a sensação de peças únicas
Intuição é tudo. O engenheiro francês Louis Réard (1896-1984) sabia do potencial explosivo de seu invento — tanto que, ao batizá-lo, inspirou-se no Atol de Bikini, conjunto de ilhas no Oceano Pacífico usado para testes nucleares dos Estados Unidos. A bomba de Réard, o primeiro biquíni, apresentado ao mundo à beira de uma piscina em Paris, em 1946, mudou a moda e o comportamento para sempre. Ao completar oitenta anos de existência, agora em 2026, a peça segue movendo mundos e fundos, em eterna e charmosa reinvenção. Pode-se medir a passagem do tempo, de verão a verão, pelo jeitão com que os minúsculos desenhos emolduram os corpos. A tendência, e olhe para o lado de modo a contemplá-la: o crochê, a pegada artesanal, no avesso da fast fashion, que chega também aos chapéus e bolsas coloridas.
Ela dá as mãos a um tipo de postura — alimentado pela chamada geração Z, de 20 e poucos anos — que rechaça os exageros da produção industrial, em série. A ideia, portanto, é namorar o que pode ser feito à mão, com zelo e imperfeições, vá lá. Trata-se de louvar um ritmo mais lento, mais doce, ainda que seja mera vontade e não passe de impressão, porque a vida lá fora, distante da areia da praia e das piscinas, corre com urgência. “Há um desejo crescente por produções únicas, exclusivas, que rompem com a lógica do descartável e com a sensação de exploração associada ao fast fashion”, diz o estilista Amir Slama. Para ele, a percepção de quem veste coleções dessa onda de simplicidade, digamos assim, é nítida: “Dão a sensação de que houve participação da pessoa que está usando, como se o criador e o consumidor estivessem na mesma trama”.
A explosão das malhas e rendas era bola cantada no calorão interrompido por chuvas do Hemisfério Sul — desfiles de marcas como Água de Coco, Lenny Niemeyer e a própria etiqueta de Slama anteciparam, em meados do ano passado, o que agora descobrimos sem pompa, mas com circunstância. Martha Medeiros, incansável designer de modelos inspirados na cultura nordestina, também caprichou nos trançados, nas rendas, na estética que por aqui se espraia e que chega ao mundo. Natural, portanto, que personalidades internacionais como Heidi Klum, Hailey Bieber e Salma Hayek tenham sido vistas a bordo de crochê no ano que passou — e naturalíssimo que Anitta, que sabe das coisas, e Izabel Goulart, sempre atenta, pegassem o bonde, levando-o a 2026.
O bacana do pacote todo: para além dos biquínis, os chapéus de palha concedem elegância. As bolsas, de materiais sustentáveis como a ráfia, leve e resistente à água, dão um quê a mais. Nos cabelos, vivam os lenços e as miçangas. Parece banal — é banal — mas vem carregado de atitude e história, sim. Desde os anos 1970, quando a contracultura trouxe o crochê e os tecidos naturais para o centro das discussões globais, o feito à mão vem e volta em ondas cíclicas. Assim é a moda, o retorno com novas camadas. E mantenha-se acesa — agora em tom artesanal — uma frase da editora de moda americana Diana Vreeland (1903-1989) ao navegar pelas águas de Réard: “O biquíni é a invenção mais importante depois da bomba atômica”. Alguém duvida?
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977





