Carta ao Leitor: Tela quente
Demorou, mas o Brasil aprendeu a jogar o jogo duro (e fundamental) dos peixes grandes na briga por prêmios como o Oscar
O triunfo de O Agente Secreto no Globo de Ouro, no último domingo, 11 — e o provável desdobramento disso sob a forma de indicações ao Oscar, que serão reveladas ao mundo na próxima quinta-feira, 22 —, não se deu por acaso nem é um fato pontual envolvendo unicamente o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura. Outras produções recentes, como Manas e O Último Azul, também vêm se destacando no mercado internacional e fazem parte de um processo longo e consistente de empoderamento do cinema nacional nas últimas décadas. Essa ascensão é tema de reportagem desta edição, coordenada pela jornalista Raquel Carneiro. Muitas transformações remodelaram essa indústria e mudaram o modo como os filmes nacionais são vistos no exterior desde os agora longínquos anos 1990, quando Central do Brasil concorreu ao Oscar.
No plano interno, o audiovisual tomou um providencial banho de loja. Sim, o incentivo estatal continua a ter papel importante no financiamento da nossa indústria de cinema. Mas a presença de produtores privados é cada vez mais decisiva e vigorosa — e, não menos crucial, os acordos de parceria internacional, selados entre o governo brasileiro e outras nações com musculatura no segmento, desempenham uma parcela cada vez mais relevante nesse processo. O incensado O Agente Secreto, por exemplo, recebeu 14 milhões de reais de investimento de países como França, Alemanha e Holanda — o dobro da verba pública que obteve por meio do fundo de apoio ao audiovisual da Ancine.
Esse setor se profissionalizou de forma profunda nos últimos anos, com o advento da era do streaming e a abertura de um mercado vibrante voltado para a exibição global de produções de língua não inglesa em plataformas como a gigante Netflix — o exemplo cabal de como isso é bom para a evolução do país na área é o destaque obtido pelo brasileiro Adolpho Veloso como diretor de fotografia de Sonhos de Trem, longa da Netflix que pode render a ele, segundo as mais variadas bolsas de apostas em Hollywood, uma indicação na concorrida categoria.
No front externo, ocorreu uma guinada de impacto igualmente transformador: demorou, mas o Brasil aprendeu a jogar o jogo duro (e fundamental) dos peixes grandes na briga por prêmios como o Oscar. O filme de Mendonça tem como distribuidora lá fora a poderosa Neon, que transformou um longa menor como Anora no maior campeão do Oscar no ano passado. Por fim, Wagner Moura aprendeu com Fernanda Torres uma lição essencial: para chegar lá, a Hollywood, é preciso sambar muito, distribuindo sorrisos em uma infinidade de revistas badaladas, entrevistas na TV e participações em talk shows. Que essa roda da fortuna do cinema nacional continue girando forte — e nos traga mais alegrias em breve.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978








