Como a rivalidade entre Spielberg, Coppola e George Lucas moldou o cinema
Por meio de pesquisa minuciosa e entrevistas com figuras ilustres, um novo livro investiga as relações entre os diretores
Steven Spielberg tinha apenas 20 anos quando viu um curta-metragem que mudou sua vida. “Senti inveja até os ossos, aquele filminho era melhor do que todos os meus”, admitiu décadas mais tarde. Com apenas quinze minutos, a trama em questão carregava o peculiar nome THX 1138 4EB (1967) e havia recebido o Prêmio Nacional dos Estudantes de Cinema. Seu diretor era apenas um ano e meio mais velho que ele, mas esbanjava uma barba espessa e um nome em alta: George Lucas. O tal prodígio, por sua vez, era admirador do cinema experimental e avesso às tradições da velha Hollywood. Foi apadrinhado pelo cineasta mais bem-sucedido de sua geração, Francis Ford Coppola, que aos 28 anos dirigia o musical O Caminho do Arco-Íris para a Warner Bros., mas sonhava em inventar novos caminhos. Cheios de ambição, esses três homens não tardaram a firmar uma amizade competitiva — e a realizar seus sonhos. Em questão de uma década, alcançaram as maiores bilheterias da história até então: O Poderoso Chefão (1972), de Coppola, Tubarão (1975), de Spielberg, e Star Wars (1977), de Lucas.
A história dessa amizade “tóxica”, que vai das juras de amor e parcerias à pura inveja e disputa acirrada, se estende por quase sessenta anos e acumula uma montanha de nuances e detalhes sórdidos que compõem o folclore do cinema. O conteúdo é demais para um filme, mas cabe em um livro, como bem percebeu o escritor Paul Fischer, de 40 anos — ele próprio um dos fãs que cresceram com a obra do trio: “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (1981) foi o primeiro filme que vi”, disse Fischer a VEJA. Assim surgiu The Last Kings of Hollywood, recém-publicado nos Estados Unidos e ainda sem tradução no Brasil. A obra é um levantamento minucioso e envolvente da relação que transformou a indústria audiovisual americana. Ao todo, Fischer lista 412 fontes, além de entrevistas com figuras que observaram os três titãs de perto, como os cineastas Brian De Palma e Paul Schrader.
Tudo começa com a juventude de cada um. Lucas teria sido um automobilista, não fosse um acidente de carro quase fatal. Para Coppola, o cataclismo foi a poliomielite na infância, que o deixou paralisado e isolado por semanas, enquanto Spielberg teve de lidar com o antissemitismo ao longo de todo o ensino básico, como retratou em Os Fabelmans (2022). Cada uma das mazelas os transformou em rapazes determinados.
Os três chegaram a Hollywood em meio a uma troca de guarda, quando os estúdios estavam desesperados para encontrar novos criadores capazes de resgatar o esplendor de outrora. Coppola teve como mentor Roger Corman, rei do cinema B, e soube desde cedo como aproveitar um orçamento enxuto. Passou seus ensinamentos a Lucas e, juntos, criaram a produtora American Zoetrope, em 1969 — que o barbudo abandonaria em 1971 para fundar a Lucasfilm. Anos depois, isso seria motivo para a briga mais feia entre ambos: Coppola não quis vender os direitos do roteiro de Apocalypse Now para o amigo, que planejava dirigir o filme — e o fez ele próprio, mudando a história do cinema. Mais tarde, Lucas deu o troco quando se recusou a compartilhar os lucros de Star Wars.
Esses e outros causos povoam o livro, que revela também podres de outros cineastas fenomenais daquela geração — o caso de Martin Scorsese com Liza Minnelli, por exemplo, merece páginas saborosas, contando detalhes do romance movido a sexo e drogas, que virou escândalo quando a mulher do diretor descobriu que estava sendo traída. Mais que fofocas, o livro ilumina uma indústria em perpétua transformação, na qual valores rígidos são impossíveis de se manter. Lucas, que já foi um jovem rebelde, hoje é um bilionário aposentado de 81 anos. Coppola, de 86, se mantém fiel à missão que tinha quando fundou sua produtora, mas já não consegue se conectar com o público. Financiou o vexaminoso Megalópolis (2024) com 120 milhões de dólares e teve apenas 14,3 milhões de retorno. Segundo Fischer, o caso de Coppola mostra como esses maiorais se tornaram tão poderosos que incomodam a própria Hollywood — e despertam sua reação. “Eles pensam: esses caras que abandonaram o sistema estão sendo tão bem-sucedidos que precisamos copiar o que estão fazendo, cortá-los de tudo e retomar controle”, diz.
Spielberg foi o mais esperto do trio: conseguiu operar de dentro do sistema e, assim, se tornou o vencedor inquestionável. Aos 79 anos, ele lançará uma nova megaprodução em 11 de junho, a ficção científica Dia D. “Dos três, é quem tem a dedicação mais pura ao cinema”, opina Fischer. “Se perguntar para os outros o que querem fazer hoje, o Coppola pode dizer ‘acho que vou abrir um hotel’.” Mesmo assim, é inegável que não só Spielberg, mas o criador de O Poderoso Chefão e Lucas moldaram a indústria de cinema como a conhecemos hoje, das inescapáveis franquias ao conceito de filme de prestígio.
Fischer batizou seu livro de Os Últimos Reis de Hollywood não por crer que a ascensão de outros talentos seja impossível, mas porque aquele reino, em sua visão, não existe mais numa era em que até fisicamente Hollywood é um vazio de produções — boa parte delas hoje é filmada longe de Los Angeles, em países longínquos que oferecem incentivos fiscais. Mas os ecos da disputa de gigantes que produziu tanta magia — e tanto lucro — ainda se fazem sentir. Vida longa aos reis.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987






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