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Sem máscaras (e sem graça), Emmy ri da pandemia e entedia a audiência

Se no ano passado o Emmy arrebanhou elogios por sua versão virtual, agora, ao vislumbrar o 'velho normal', o prêmio volta a afastar o espectador

Por Felipe Branco Cruz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 set 2021, 08h51 • Atualizado em 20 set 2021, 10h25
  • Em certo momento da 73ª cerimônia do Emmy Awards, realizada na noite deste domingo, 19, o comediante Ken Jeong encenou um esquete tentando entrar no teatro onde o evento ocorria, em Los Angeles. Ele foi barrado por não apresentar o obrigatório comprovante de vacinação e um teste negativo para Covid-19. Jeong, então, argumenta que tomou cinco doses das vacinas. Ao ser revistado, ele deixa cair uma caixa do medicamento ivermectina, cujo uso contra a Covid foi proibido pela FDA, a agência responsável pelas aprovações das vacinas nos Estados Unidos. Resignado por ter sido impedido de entrar, ele apresenta um dos vencedores do lado de fora mesmo.

    Graças a vacinação, a edição deste ano finalmente voltou a ser presencial e sem máscaras, ao contrário da que ocorreu no ano passado, no auge da pandemia, realizada totalmente em formato virtual. Com os convidados mais descontraídos, a pandemia parecia ter ficado para trás, tanto que aqui e ali foram feitas piadinhas sobre as dificuldades causadas pela Covid-19 no dia-a-dia. O humorista Seth Rogen, por exemplo, fez graça sobre estar em um lugar fechado com pessoas espirrando em cima dele, e o apresentador Cedric the Entertainer classificou as vacinas, dizendo que a Pfizer é de rico, a Moderna é da classe média e a Janssen dá para comprar na liquidação. Nenhuma destas piadas, é importante ressaltar, teve graça.

    Apesar do período de exceção, no ano passado, a versão virtual do Emmy foi acompanhada de elogios positivos, por sua sagacidade e criatividade ao remodelar todo seu formato, sem deixar que a cerimônia parecesse uma grande reunião do Zoom. Porém, agora, ao vislumbrar um retorno ao “velho normal”, a premiação caiu nas mesmas armadilhas que, ano após ano, minam a audiência, afastando os espectadores.

    Para além das piadas ruins do típico humor americano, o Emmy foi tedioso, lento e engessado. Monopolizou os prêmios para poucos títulos, fazendo com que os demais presentes ficassem ali apenas para aplaudir The Crown e Ted Lasso. Para deixar o que já estava arrastado ainda pior, os premiados, agora, liberados das máscaras e das restrições, acharam que poderiam finalmente discursar livremente — e eles discursaram mesmo, longamente. O diretor Scott Frank, premiado por seu trabalho em O Gambito da Rainha, reclamou três vezes quando o som da música subiu insistentemente para alertá-lo de que o seu discurso havia estourado o tempo. O cineasta, no entanto, não arredou o pé do palco e ficou lá agradecendo a todo mundo. 

    Alguns poucos prêmios quebraram os padrões do passado pré-pandêmico (veja aqui a lista completa dos vencedores). Pela primeira vez duas mulheres ganharam nas categorias de melhor direção em série de comédia e melhor direção em série de drama para Lucia Aniello, por Hacks, e Jessica Hobbs, por The Crown.

    Mas uma velha reclamação voltou aos holofotes: o Emmy “so white”. Exceto pelas vitórias de RuPaul, que ganhou no melhor reality de competição por Drag Race, Michaela Coel, que levou o troféu de roteiro em minissérie por I May Destroy You, e Debbie Allen, homenageada com o Governors Awards, nenhum ator negro ganhou algum dos doze prêmios de atuação em disputa. Todos eles foram para atores brancos. O fato não passou despercebido pelo apresentador Cedric The Entertainer. “Temos muitas pessoas negras indicadas hoje, como meu amigo Anthony Anderson. Esta é a 11ª indicação dele, mas ele concorre com Michael Douglas e Jason Sudeikis. Boa sorte, irmão. Parece que ainda é difícil aqui para a gente”.

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