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A palavra que passou a guiar o discurso de Galípolo no BC

Presidente do BC diz que início do corte de juros exige cautela diante da resiliência da atividade

Por Camila Pati Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 9 fev 2026, 10h59

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira, no evento  “Estabilidade Financeira e Perspectivas para 2026 e 2027” promovido pela Associação Brasileira de Bancos , aABBC, que a palavra-chave do atual ciclo de política monetária é ‘calibragem’. Segundo ele, o BC reconhece uma melhora relevante no ambiente inflacionário, mas ainda convive com uma atividade econômica mais resiliente do que o esperado para um cenário de juros em 15%, o que exige cautela na condução do início do ciclo de flexibilização esperado para março.

“O início da flexibilização monetária está sinalizado para março, com o ritmo e a magnitude dependentes da evolução dos dados. O sentimento é de que o processo seja gradual”, disse Galípolo. Ele ressaltou que o BC não trabalha com um objetivo pré-definido para a taxa real de juros e que as decisões seguirão sendo tomadas com base na leitura contínua dos indicadores.

Presidente do BC faz balanço da política monetária

Ao fazer um balanço do último ano, Galípolo lembrou que o Banco Central reagiu de forma “ativa” à deterioração do cenário macroeconômico, com forte elevação da Selic diante da piora das expectativas de inflação, do câmbio e do aquecimento da atividade. “Chegamos a um momento em que as expectativas de inflação para o horizonte relevante começavam a namorar algo próximo de 6%. Tivemos 85% dos componentes do IPCA acima da meta e mais de 50% acima do dobro da meta”, afirmou.

Após esse período, segundo ele, o BC interrompeu o ciclo de alta para avaliar se o patamar dos juros era suficientemente contracionista, mantendo a taxa elevada por um período prolongado para permitir a transmissão dos efeitos à economia. “O Banco Central foi resiliente e paciente para ir ganhando confiança e deixando o efeito da taxa de juros se fazer sentir”, disse.

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Na avaliação do presidente do BC, há hoje uma melhora clara tanto da inflação corrente quanto das expectativas, mas isso não autoriza uma leitura complacente. “Não reconhecer que estamos numa situação diferente transmitiria alienação dos dados, mas isso não é uma volta da vitória”, afirmou. Segundo ele, a resiliência do mercado de trabalho, da renda e da atividade como um todo impõe prudência no ajuste.

Por que o Brasil têm juros altos, segundo o presidente do BC

Galípolo também afirmou que a política monetária “funcionou”, mas observou que alguns canais de transmissão,  como câmbio e expectativas,  atuaram de forma mais rápida do que o impacto sobre a atividade. “É possível dizer que esses mecanismos se apresentaram de maneira mais evidente do que se imaginava para a atividade econômica. É por isso que estamos usando a terminologia da calibragem”, explicou.

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Ao tratar da potência da política monetária no Brasil, o presidente do BC destacou idiossincrasias que reduzem a eficácia dos juros, como o modelo de financiamento imobiliário e a estrutura da dívida pública. “Hoje, praticamente 50% da dívida pública está indexada à Selic e cerca de 20% à inflação. Isso gera um sinal invertido: você sobe a taxa de juros e a transferência de renda aumenta”, disse.

Segundo Galípolo, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o país convive historicamente com juros elevados, dificuldade de convergência da inflação à meta e, ainda assim, uma atividade econômica resistente. “Esse é o grande desafio da quadra histórica da economia brasileira. E, diferente do Plano Real, não haverá bala de prata”, afirmou, defendendo a necessidade de reformas sucessivas e engajamento amplo da sociedade.

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