Agro fraco e serviços fortes: PIB cresce 3,4% com estímulos governamentais e mercado de trabalho aquecido
Esse é o maior crescimento desde 2021. O resultado foi o dobro do projetado pelo mercado no início do ano, que cravava um PIB de 1,5%

A economia brasileira cresceu 3,4% em 2024, totalizando 11,7 trilhões de reais, marcando uma de suas expansões mais fortes desde 2011, à exceção apenas de 2021, quando o PIB do país cresceu quase 5% no ano de recuperação do tombo profundo causado pela pandemia em 2020. O resultado foi o dobro do projetado pelo mercado no início do ano, que cravava um PIB de 1,5%.
Em 2024, o crescimento econômico foi impulsionado pelos setores de serviços, com alta de 3,7%, e pela indústria, que avançou 3,3%. O setor de serviços, responsável por 70% do PIB, foi beneficiado pela demanda interna aquecida. A indústria, por sua vez, aproveitou uma reativação gradual do consumo e do investimento em infraestrutura. Juntos, esses dois setores compensaram, em grande parte, a retração registrada na agropecuária, que caiu 3,2%, impactada por eventos climáticos adversos que prejudicaram colheitas-chave, como soja, com queda de 4,6%, e milho, com uma retração expressiva de 12,5%.
O crescimento econômico, contudo, não se deu por acaso. Ele foi apoiado por uma política fiscal deliberadamente expansionista, que incluiu programas de estímulo ao consumo e transferência de renda. Igor Cadilhac, economista do PicPay, explica que “a política fiscal expansionista e o aumento da oferta de crédito mantiveram a demanda interna aquecida, gerando impulso ao crescimento”. Esse cenário favorável refletiu-se no consumo das famílias, que registrou um aumento de 4,8% em relação ao ano anterior.
A combinação de transferências governamentais e recuperação do mercado de trabalho — com a taxa de desemprego caindo para 6,6%, um dos níveis mais baixos da história — ajudou a sustentar essa recuperação. Claudia Moreno, economista do C6 Bank, observa que “o crescimento do setor de serviços e o aumento do consumo das famílias foram diretamente impulsionados pelo aumento da ocupação e da massa salarial”.
Entretanto, apesar desses avanços, o último trimestre do ano sinalizou uma desaceleração, com o PIB registrando um crescimento de 0,2%, abaixo do esperado, de 0,5%, e dos índices observados nos trimestres anteriores, sugerindo uma perda de ritmo entre outubro e dezembro. “O resultado do quarto trimestre é um sinal de potenciais desafios à frente”, alerta Guilherme Sousa, economista da Ativa Investimentos. Ele aponta que o espaço fiscal do Brasil está se estreitando, limitando a capacidade do governo de manter altos níveis de gastos públicos — um dos principais motores do crescimento ao longo do ano.
Outro ponto de preocupação é a taxa de investimento do Brasil, que, embora tenha aumentado para 17% do PIB em 2024, contra 16,4% no ano anterior, ainda é insuficiente para sustentar a expansão econômica a longo prazo. A taxa de poupança, por sua vez, caiu para 14,5%, levantando dúvidas sobre a capacidade do país de financiar futuras expansões sem aumentar a dívida pública. Com a perspectiva de condições fiscais mais rígidas no horizonte, o Brasil enfrenta o desafio de manter o ímpeto sem depender de medidas de estímulo de curto prazo.
Em um evento no Rio Grande do Sul no mês passado, o presidente Lula afirmou que a economia continuará crescendo acima de 3% este ano, pedindo que a população ignore as “bobagens da macroeconomia” — uma referência às projeções mais conservadoras. O governo tem se empenhado em estimular o consumo por meio de programas como o Pé-de-Meia, o saque do FGTS na modalidade saque-aniversário e outras políticas, incluindo a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5.000 reais e a recente isenção da taxa de importação sobre alguns alimentos. Todas essas medidas têm o objetivo de injetar recursos na economia e impulsionar o crescimento.
Contudo, essa estratégia apresenta um risco: a inflação. No ano passado, o IPCA ultrapassou a meta, e as previsões indicam que a situação pode se repetir este ano, projetando uma inflação de 5,65%. Com a alta nos preços, o Banco Central será forçado a intervir, elevando as taxas de juros para conter a inflação. Diante das pressões inflacionárias crescentes, o espaço para cortes adicionais nos juros é limitado. O mercado projeta uma taxa Selic terminal de 15%.