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Até onde pode subir o petróleo em um conflito entre EUA e Irã?

Projeções indicam que os preços podem oscilar entre US$ 80 e US$ 130, a depender do impacto sobre a infraestrutura energética e o tráfego no Estreito de Ormuz

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 fev 2026, 13h38 • Atualizado em 20 fev 2026, 13h41
  • O petróleo voltou a incorporar um prêmio geopolítico. O Brent, referência global, superou os US$ 70 por barril na quinta-feira, 19, alcançando o nível mais alto em sete meses, à medida que investidores reavaliam os riscos de um conflito entre Estados Unidos e Irã.

    A escalada ganhou tração após uma nova rodada de negociações realizada em Genebra, na Suíça, entre representantes dos dois países. O encontro tinha como objetivo estabelecer limites mais rígidos ao programa nuclear iraniano em troca de algum alívio nas sanções impostas por Washington. O vice-presidente americano, JD Vance, afirmou que Teerã continua a resistir a pontos considerados essenciais pelos EUA, sobretudo mecanismos de transparência e inspeções internacionais mais amplas.

    Ao expor essas divergências, a Casa Branca deixou claro que as conversas não avançaram como o esperado. Para os mercados, o recado é simples: se não houver concessões concretas, a tensão tende a aumentar, e cresce o risco de medidas mais duras, inclusive de natureza militar.

    Relatos de que uma eventual ação militar poderia durar semanas, diferentemente dos ataques mais cirúrgicos do ano passado, ampliaram a apreensão. O fechamento temporário de parte do Estreito de Ormuz durante exercícios militares iranianos reforçou a sensação de vulnerabilidade.

    Segundo analistas do banco holandês ING, o ponto nevrálgico não é apenas o 1,5 milhão de barris por dia exportados pelo Irã, mas os cerca de 20 milhões de barris diários de petróleo e derivados que atravessam o Estreito de Ormuz. A mera possibilidade de interrupção já altera prêmios de seguro marítimo e decisões de compra.

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    O especialista em risco político na indústria de energia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), Clayton Seigle, detalha os possíveis cenários dessa escalada nos preços do petróleo.

    Seigle descreve um primeiro cenário em que os EUA ou Israel bloqueiam carregamentos iranianos sem danificar a infraestrutura de exportação. Nesse caso, o impacto seria potencialmente reversível, com alta de US$ 10 a US$ 12 por barril, movimento semelhante ao observado no conflito de 12 dias entre Irã e Israel no ano passado, quando a infraestrutura energética foi amplamente poupada.

    Num segundo estágio, ataques diretos às instalações de exportação iranianas provocariam aumento mais expressivo, à medida que o choque deixasse de ser apenas logístico e passasse a afetar a capacidade produtiva.

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    O terceiro cenário envolve retaliação iraniana no Estreito de Ormuz. Uma interrupção relevante no fluxo poderia levar o Brent para acima de US$ 90 por barril. Nos Estados Unidos, isso significaria pressão imediata nas bombas. O preço médio da gasolina, atualmente em torno de US$ 2,93 por galão segundo a American Automobile Association, entidade que monitora o preço médio nos postos, poderia superar confortavelmente os US$ 3.

    O cenário mais extremo, segundo Seigle, envolveria ataques iranianos à infraestrutura petrolífera de grandes produtores do Golfo, como poços e terminais de exportação em países vizinhos. Nesse caso, o mercado poderia testemunhar um salto “histórico” para a faixa de US$ 130 por barril, patamar não visto de forma sustentada desde choques globais anteriores.

    Oferta ampla, mas indisponível 

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    Além da escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, que já altera a precificação do petróleo, o banco ING chama atenção para o que define como um paradoxo da oferta. No papel, os balanços globais apontam para superávit no primeiro semestre, o que, em tese, deveria pressionar os preços para baixo. Na prática, porém, a estrutura da curva futura do Brent sugere o contrário, indicando um mercado mais apertado do que os números agregados fazem parecer

    Segundo Warren Patterson, chefe de Estratégia de Commodities do ING, a curva futura do Brent permanece em backwardation, ou seja, os contratos de curto prazo são negociados acima dos de vencimentos mais longos. Essa configuração costuma sinalizar aperto no mercado, pois compradores pagam prêmio para garantir barris agora, não daqui a dois anos.

    A explicação está na diferença entre oferta “teórica” e oferta “acessível”. Parte relevante da produção global permanece sob sanções, especialmente volumes iranianos e russos. Embora esses barris existam, eles não circulam livremente. Além disso, há crescente cautela entre refinarias, inclusive na Índia, em adquirir petróleo sancionado, seja por risco reputacional, financeiro ou logístico.

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    O resultado é que o mercado disponível para transações abertas é menor do que os números agregados sugerem. Em outras palavras: pode haver petróleo suficiente no mundo, mas nem todo ele está realmente à disposição de quem precisa comprá-lo.

    Até agora, o mercado precifica probabilidade. Um choque contido implicaria alta moderada e reversível. Mas quanto mais a escalada se aproximar de danos estruturais nas instalações de grandes produtores do Golfo, maior o risco de um salto abrupto no preço do petróleo.

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