Como Wall Street se enganou sobre Trump, em quatro análises
Investidores e grandes executivos acreditaram, erroneamente, que Trump focaria cortes de impostos e a desregulamentação da economia

A preocupação dos investidores em Wall Street e dos grandes empresários americanos nos últimos dias foi além da queda nas bolsas americanas, que em menos de um mês reverteram o período de alta que começou com a vitória de Donald Trump nas eleições do ano passado e atingiu o pico em meados de fevereiro. Foi a quinta correção de mercado mais abrupta dos últimos 75 anos nos Estados Unidos, enquanto os índices na Europa e na Ásia alçaram voo. Ninguém está muito seguro para afirmar que o fundo do poço em Wall Street já foi atingido. Há preocupações reais de que as medidas disruptivas que vêm sendo adotadas por Trump até agora empurrem o país para um cenário de recessão, depois de anos de crescimento consistente.
Ficou evidente, nesta semana, que a elite econômica do país foi pega de surpresa com os rumos trilhados por Trump, especialmente no que se refere à política tarifária. Mas são raros os chefes corporativos que estão dispostos a reclamar em público: conforme revelou um levantamento feito por pesquisadores da Universidade Yale com CEOs de grandes empresas, a maioria só se sentirá compelida a fazer isso se as perdas em valor de mercado dobrarem ou triplicarem. A imprevisibilidade de Trump gera medo de retaliação e, com isso, a resistência se esvai. É uma mudança significativa em relação ao que ocorria em seu primeiro mandato.
Daí deriva uma pergunta que vem sendo abordada pelos analistas de economia e finanças das principais publicações internacionais: como empresários, executivos e investidores puderam errar tanto na avaliação de como seria o segundo mandato de Trump na economia, conforme se viu refletido no otimismo dos mercados após a sua vitória? Abaixo estão algumas das análises recentes a esse respeito.
Greg Ip, do Wall Street Journal, resume da seguinte forma: “Eles pensavam que o segundo mandato seria como o primeiro, priorizando crescimento econômico e bolsa de valores. Ele (Trump) tinha outros planos”. Ip diz que os investidores e grandes executivos acreditaram, erroneamente, que Trump focaria cortes de impostos e a desregulamentação da economia, deixando o aumento das tarifas mais para frente, e ainda assim só depois de muitos estudos e discussões. Aconteceu o contrário. “Trata-se de um despertar turbulento para o setor financeiro”, afirma o analista. Ele levanta a hipótese de que Wall Street e o mundo corporativo foram levados ao engano porque os assessores de Trump deram declarações mais realistas que os fizeram acreditar na primeira opção. Gente como o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o secretário de Comércio, Howard Lutnick, oriundo do mercado financeiro.
Catherine Rampell, do Washington Post, escreveu que não faltaram avisos de que as políticas que Trump pretendia colocar em marcha tinham o potencial de causar danos à economia americana. “Wall Street está aparentemente em choque” com as medidas que levaram à correção dos mercados e ao risco de recessão, observa ela, mas isso ocorre porque investidores e empresas passaram os últimos meses acreditando apenas na parte que agradava a eles na agenda econômica de Trump (corte de impostos e desregulação), e não na parte que eles não queriam (tarifas, demissões arbitrárias no funcionalismo público, expulsão de imigrantes).
A revista The Economist avalia que esse otimismo seletivo do mercado financeiro e das empresas se explica porque acreditava-se na repetição do comportamento que Trump revelou em seu primeiro mandato, quando sempre se mostrou sensível e atento aos movimentos das bolsas de valores e aos interesses corporativos. Agora, Trump dá de ombros para o nervosismo de Wall Street e afirma que as dificuldades à vista na economia são meramente um “período de transição”.
Janan Ganesh, do Financial Times, prevê que essa vai ser a postura padrão de Trump neste segundo mandato. E a razão é aparentemente simples: pelas regras dos Estados Unidos, ele não pode concorrer à reeleição porque já teve um mandato antes. Por causa disso, Ganesh aposta que Trump não vai se preocupar com impactos imediatos em empresas, no mercado financeiro, nos indicadores econômicos ou mesmo na própria taxa de aprovação popular. Ele se sente livre de tudo isso, diz Ganesh, e não há garantia nenhuma de que sequer tenha preocupação em eleger um sucessor. E isso significa que, se a situação econômica se deteriorar, Trump pode se ver tentado a cavar um buraco ainda mais fundo. “Das três coisas mais danosas que Trump está fazendo — prejudicando a Ucrânia, erodindo as instituições domésticas e impondo tarifas —, uma recessão pode levar o presidente a aprofundar ainda mais as duas primeiras.”
A queda das bolsas americanas nas últimas semanas é só uma parte de uma história de incertezas que está só começando.