Cortar ou não cortar? O dilema do Copom sobre a Selic
Crescem as apostas dos economistas em manutenção dos juros a 15%
Prever a taxa básica de juros no Brasil nunca foi uma ciência exata — e, neste momento, está ainda mais perto de um exercício de tentativa e erro. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, sai em meio a um ambiente que mistura variáveis domésticas já conhecidas com um ingrediente novo e incômodo: a escalada de tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Em outras palavras, qualquer projeção para a Selic amanhã é, sim, um chute — ainda que um chute informado por dados macroeconômicos.
Cai ou não cai?
Para Ricardo Rocha, colunista do programa Mercado de Veja e coordenador de finanças do Insper, o momento é digno de literatura dramática. Ele define a encruzilhada do Copom como um “dilema shakespeariano”: cortar juros e atender pressões políticas ou manter a coerência com o discurso anterior e agir com mais parcimônia. Na prática, isso pode significar uma redução menor do que parte do mercado gostaria — ou até mesmo nenhuma mudança, dependendo do humor da autoridade monetária diante do cenário.
Falta de avanço
Rocha vai além e lembra que o problema não é apenas conjuntural. Para ele, o Brasil carrega um histórico de decisões adiadas. “O país não faz a lição de casa”, resume, ao criticar a falta de avanço em reformas estruturais. Esse pano de fundo pesa diretamente nas decisões do Banco Central, que acaba tendo que compensar, via juros, fragilidades fiscais e institucionais que já se arrastam há anos.
Queda? Que queda?
Do outro lado, Igor Lucena, economista e professor de Relações Internacionais, adota uma leitura ainda mais cautelosa — quase cética. “Eu não estou acreditando numa queda de taxas de juros”, afirma. Se vier algum movimento, diz ele, seria algo muito tímido, de no máximo 0,25 ponto percentual, e ainda assim acompanhado de um discurso duro do Banco Central. O motivo é simples: o ambiente não ajuda. Tensões internas, ruídos institucionais e o cenário internacional mais instável fazem investidores recuarem, o que pressiona o câmbio e, por consequência, a inflação.
Credibilidade do BC
Lucena chama atenção para um ponto sensível: a credibilidade. Segundo ele, o Banco Central brasileiro ainda é respeitado globalmente, mas esse ativo pode se deteriorar rapidamente se houver percepção de interferência ou perda de disciplina econômica. No limite, o risco é comprometer uma construção que vem desde o Plano Real. E, no meio desse tabuleiro, juros altos continuam sendo um freio para empresas — especialmente aquelas em recuperação judicial, que dependem de crédito mais barato para voltar a crescer. No fim, a decisão de amanhã pode até trazer uma sinalização, mas dificilmente encerrará as dúvidas.







