Entre algoritmos e escolhas: planejamento financeiro é chave para viver melhor
A abundância de dados e plataformas ampliou ainda mais o alcance e o valor da programação financeira
Nunca estivemos tão cercados de dados. Aplicativos registram cada gasto, algoritmos recomendam investimentos, planilhas automáticas calculam a aposentadoria ideal. E, ainda assim, a maioria das pessoas segue distante do próprio planejamento financeiro. O excesso de informação gera paralisia. A ansiedade do agora suprime o futuro. Em um mundo em que tudo parece urgente, planejar exige uma dose rara de paciência e de propósito.
Com o tempo, aprendemos — muitas vezes à custa de erros — que o valor do dinheiro muda junto com o valor que damos às coisas. O jovem que se preocupa com o carro ou o apartamento é o mesmo adulto que, anos depois, gostaria de ter comprado tempo para estar com os filhos. A aposentadoria que parecia distante se torna urgente. O risco, que antes atraía, passa a assustar. Mudar de opinião sobre o uso dos recursos é sinal de evolução, não de contradição. O bom planejamento reconhece essa fluidez e oferece estrutura para navegar por ela.
Esse novo papel é essencial num mundo em que vivemos mais e enfrentamos mais incertezas. A longevidade, que é uma das maiores conquistas da Humanidade, também traz um desafio silencioso, sustentar, com dignidade, uma vida que pode durar noventa anos ou mais. O aumento da expectativa de vida exige que pensemos o dinheiro não apenas como instrumento de consumo, mas como meio de continuidade. Planejar o longo prazo é também planejar o envelhecimento — as mudanças de renda, de saúde, de afeto e de propósito.
Nas etapas da vida, o dinheiro muda de significado. Na juventude, ele é sinônimo de liberdade e conquista, o primeiro salário, o apartamento alugado, a viagem sonhada. Na maturidade, ele se transforma em ferramenta de estabilidade e proteção, o financiamento da casa, a educação dos filhos, o seguro de vida. E, na velhice, o dinheiro se torna sinônimo de serenidade — não para acumular, mas para sustentar a autonomia. Cada fase tem suas metas, seus horizontes e, sobretudo, seu apetite ao risco.
Na juventude, o tempo é aliado. O horizonte é longo, e a capacidade de assumir riscos é maior. As perdas eventuais são compensadas pela oportunidade de recomeçar. Já na maturidade, a consciência do tempo reduz o espaço para erros, e o olhar deve se voltar à preservação do patrimônio. A aposentadoria traz consigo a busca por estabilidade e liquidez, pois o foco deixa de ser o crescimento e passa a ser a continuidade. É natural que, com a idade, o nosso apetite ao risco diminua — não por medo, mas por sabedoria acumulada.
Mas o risco não é apenas técnico; ele é também emocional. Dois investidores com a mesma renda podem ter percepções completamente diferentes sobre o que é uma perda tolerável. A capacidade de perda — conceito central no planejamento — não se define apenas por patrimônio, mas pela estrutura emocional para lidar com a volatilidade. O que para um é oportunidade, para outro é insônia. E esse limite muda com o tempo, com a experiência e com as circunstâncias da vida.
A transformação digital ampliou ainda mais o alcance do planejamento financeiro moderno. Hoje, não lidamos apenas com dados, mas com ecossistemas inteiros de plataformas que conectam contas, investimentos, seguros e hábitos de consumo em um único ambiente fluido e inteligível. Essa integração tecnológica oferece ao investidor uma visão panorâmica da própria vida financeira, permitindo decisões mais rápidas, monitoramento contínuo e autonomia crescente. A digitalização não elimina a complexidade, mas a organiza, traduz e devolve clareza.
Além de tensões externas, o Brasil enfrentará em 2026 um desafio igualmente decisivo, o debate fiscal no contexto da eleição presidencial. A sustentabilidade das contas públicas, a trajetória da dívida, a credibilidade do arcabouço fiscal e a capacidade do Estado de financiar políticas essenciais sem comprometer o crescimento estarão no centro da agenda econômica. A incerteza fiscal afeta juros, inflação, confiança e investimento — e, portanto, impacta diretamente o planejamento financeiro das famílias. Por tudo isso, discutir responsabilidade fiscal não é tecnicismo, é definir o ambiente em que cada brasileiro construirá seu futuro.
Planejar não é viver menos, é viver melhor. É equilibrar o hoje e o amanhã, o desejo e a prudência. O prazer de gastar não é inimigo da segurança de poupar; o segredo está na proporção. Quando essa harmonia é alcançada, o dinheiro deixa de ser fonte de culpa e se torna aliado de escolhas conscientes. No fim, todo planejamento financeiro é sobre tempo. Tempo de trabalho, tempo de descanso, tempo de partilha. E o tempo, diferentemente do dinheiro, não se acumula. É por isso que o verdadeiro objetivo de planejar não é ter mais, mas viver melhor.
Ricardo Humberto Rocha é coordenador do Programa Avançado em Finanças do Insper
Publicado em VEJA, dezembro de 2025, edição VEJA Negócios nº 21








