ASSINE VEJA NEGÓCIOS

EUA se afastam, e Europa busca reinventar seu papel no mundo

Com o abandono de Trump à Ucrânia e o fomento da guerra comercial, europeus terão agora de enfrentar sozinhos seus desafios de segurança e econômicos

Por Felipe Erlich Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 mar 2025, 06h00

“O mundo livre precisa de um novo líder. Cabe a nós, europeus, assumir esse desafio”, afirmou a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), a estoniana Kaja Kallas, no dia 28 de fevereiro. Horas antes, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, havia chegado à Casa Branca para conversar com Donald Trump sobre a guerra de seu país contra a Rússia. Em uma cena inédita, o presidente americano e seu vice, JD Vance, abandonaram o manual da diplomacia e passaram a fazer acusações e críticas diretas ao ucraniano. Dias depois, os Estados Unidos suspenderam sua ajuda militar à Ucrânia, cuja resistência é considerada um teste de fogo para a Europa como um todo: se o país cair, nenhum outro da região estará a salvo do expansionismo russo. Ficou claro para os europeus que o governo americano iniciou um processo de ruptura histórica com a aliança ocidental que definiu a geopolítica global desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Trump deixou evidente que a Europa precisará cuidar da própria segurança.

O distanciamento entre Estados Unidos e Europa não se restringe ao campo militar. O isolacionismo de Trump se manifesta também por meio da palavra que ele elegeu como “a mais bonita do dicionário”: tarifa. Ele impôs a todos os países — incluindo os europeus — tarifas de importação de 25% sobre aço e alumínio. Em contrapartida, a UE anunciou que vai sobretaxar em cerca de 26 bilhões de euros (o equivalente a 161 bilhões de reais) exportações americanas. Trump dobrou a aposta, ameaçando com tarifas sobre bebidas alcoólicas e automóveis, além de perseguir reciprocidade na taxação. A UE é um dos seus alvos declarados: o déficit comercial dos Estados Unidos com o bloco está na máxima histórica, alcançando 235 bilhões de dólares em 2024, algo que desagrada — e muito — ao presidente Trump. O desejo do governo americano de equilibrar a balança é indicativo de que o conflito comercial está longe do fim.

Ruptura: Trump está disposto a abandonar consensos da atual ordem mundial
Ruptura: Trump está disposto a abandonar consensos da atual ordem mundial (Roberto Schmidt/AFP)

Após acreditar durante oito décadas que poderia contar com os Estados Unidos, a Europa se vê diante do desafio de encontrar um rumo próprio e se reinventar. De imediato, as alternativas que se apresentam são investir pesadamente na expansão e na modernização de sua capacidade militar, aprofundar a integração entre os membros do bloco e buscar novas parcerias comerciais. “Mesmo que os democratas ganhem a próxima eleição americana, pode ser que um governo semelhante ao de Trump chegue ao poder de novo dali a quatro anos”, diz Filipe Campante, professor de economia política na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. “Esse isolacionismo é, no mínimo, uma possibilidade permanente, o que muda tudo para os europeus no longo prazo.”

A ficha caiu de vez para as principais lideranças da Europa. “A ordem da segurança europeia está sendo abalada, e muitas das nossas ilusões estão ruindo”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em discurso ao Parlamento Europeu em março. A líder do bloco alertou os eurodeputados de que, após o fim da Guerra Fria, a ameaça russa foi negligenciada, pois se acreditava que o continente poderia contar com a proteção americana indefinidamente. Foi um erro de cálculo. “Baixamos a guarda. Reduzimos nossos gastos com defesa, que costumavam ultrapassar 3,5% do produto interno bruto, para menos da metade disso”, disse Von der Leyen. Nos últimos anos, contudo, a UE vem recuperando os gastos com defesa, principalmente após a eclosão da guerra na Ucrânia, em 2022. O investimento no setor cresceu quase 36% desde então, chegando a 326 bilhões de euros (o equivalente a 2 trilhões de reais) no ano passado, cerca de 1,9% do PIB do bloco.

Continua após a publicidade

arte Europa

A volta às armas incentivada pelas mudanças geo­políticas impostas pela gestão Trump deve culminar em cifras ainda maiores — que, além de atenderem às preocupações de segurança dos europeus, podem ter o efeito colateral benéfico de turbinar a economia do bloco como um todo. Um estudo do Instituto Kiel para a Economia Mundial prevê que a cada 300 bilhões de euros injetados em pesquisa e produção de tecnologia militar haverá um incremento de até 1,5% no PIB da UE.

A Alemanha, especialmente, aposta nessa forma de estímulo. O futuro chanceler, o conservador Friedrich Merz, conseguiu aprovar no Parlamento um plano que prevê investimentos de 500 bilhões de euros (mais de 3 trilhões de reais) em infraestrutura pelos próximos dez anos, além de colocar os gastos com defesa fora das regras fiscais do país. Merz vai bancar o pacote de estímulos com a emissão de títulos da dívida alemã, e não com o aumento de impostos. Ele pode se dar ao luxo de fazer isso. Décadas de disciplina fiscal fizeram da Alemanha um dos países menos endividados do mundo desenvolvido, com um passivo equivalente a 62% do produto interno bruto. O percentual é menor do que a média da Zona do Euro, hoje de 88% do PIB, além de muito melhor que as situações da França e da Itália, com dívidas públicas de 112% e 137% do PIB, respectivamente. Nesse sentido, os alemães têm margem para gastar e — em uma guinada histórica — decidiram que o momento é agora.

Continua após a publicidade

arte Europa

A Alemanha não tomou a dianteira por mais gastos à toa. Sua economia está estagnada, com um desempenho abaixo até mesmo da média da UE. Enquanto o PIB da Alemanha encolheu 0,2% em 2024, a UE teve alta de 0,9%. “Trump foi a faísca que estimulou o aumento de gastos com defesa, mas a Alemanha já tem um problema de infraestrutura há algum tempo”, diz Alexander Kulitz, ex-membro do Comitê de Assuntos Estrangeiros do Parlamento alemão e presidente do conselho consultivo da montadora local RUF. Alguns setores produtivos da Alemanha estão especialmente pressionados, como é o caso do automotivo. A Volkswagen, por exemplo, vem anunciando demissões em massa nos últimos meses, incluindo, mais recentemente, o desligamento de 7 500 funcionários da marca de luxo Audi até 2029. As trajetórias opostas da Rheinmetall, a maior fabricante de equipamentos militares do país, e da Volkswagen, líder do setor automotivo alemão, parecem ilustrar a Europa de ontem e de amanhã, com tanques prevalecendo sobre carros. A fabricante de armas superou a montadora em valor de mercado em março, alcançando quase 60 bilhões de euros. O presidente da Rheinmetall, Armin Papperger, disse que pode adquirir uma fábrica da VW e adequá-la para a produção de tanques. Já o presidente da montadora, Oliver Blume, não descarta a possibilidade de produzir veículos militares no futuro — algo que a empresa já fez no passado. Fundada em 1937, a Volkswagen ganhou um forte impulso nos anos seguintes por meio da produção de material bélico para o esforço de guerra nazista.

Para promover um maior alinhamento em defesa, a liderança da UE quer que seus Estados-membros realizem compras coletivas de armamento, segundo um documento interno de Bruxelas obtido pelo jornal inglês Financial Times. Em paralelo, a França considera estender a proteção de suas armas nucleares para aliados do continente, em um movimento ímpar na história, antecipando-se ao risco de os Estados Unidos se negarem a utilizar o próprio arsenal nuclear em solo europeu como garantia de segurança da região.

Continua após a publicidade
Exportação ameaçada: automóveis prontos para embarque em porto na Alemanha
Exportação ameaçada: automóveis prontos para embarque em porto na Alemanha (Alex Kraus/Bloomberg/Getty Images)

A atual política externa da Casa Branca faz com que os europeus não apenas reavaliem sua relação com os americanos, mas também se olhem no espelho e meçam seu poderio. Com um PIB de 17 trilhões de euros e uma população de quase 450 milhões, a União Europeia tem porte de potência global, mas sua influência depende do nível de coordenação entre os 27 países-membros. Para Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador do Brasil em Washington, a Europa enfrenta uma escolha decisiva entre a integração e o declínio. “Faltam dois passos fundamentais para os europeus aumentarem a unificação e se manterem relevantes: uma política externa comum e uma política de defesa comum”, diz. O diplomata avalia que a ampliação da UE é um dos acontecimentos geopolíticos mais importantes dos últimos trinta anos, mas ela se deu mais em termos territoriais — hoje tocando a fronteira com a Rússia — do que em integração institucional.

Fortalecer a política externa do bloco significa investir não apenas no hard power, ou poder duro, baseado na coerção militar, mas também no soft power, ou poder suave, que consiste em vender uma imagem externa benéfica e inclui o estabelecimento de parcerias estratégicas com outras regiões e países. Um dos instrumentos do soft power é o comércio. “Os europeus devem buscar diversificação de parcerias, é o racional a fazer”, diz Campante, da Johns Hopkins. Uma opção que já está engatilhada e pode ganhar tração é o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul. “A janela de oportunidade está bastante aberta agora”, afirma Kulitz, da RUF.

Continua após a publicidade
Fábrica de tanques de guerra da alemã Rheinmetall: a economia bélica está em alta
Fábrica de tanques de guerra da alemã Rheinmetall: a economia bélica está em alta (Fabian Bimmer/Getty Images)

A principal dificuldade para a chancela do acordo UE-Mercosul é o lobby do setor agropecuário europeu, especialmente o francês. A alta competitividade dos produtores rurais do Brasil e da Argentina intimida os pares da Europa, que acusam os sul-ame­ricanos de terem vantagens competitivas graças a leis ambientais supostamente frouxas. Emmanuel Macron, presidente da França e uma das vozes mais influentes da região, se posiciona contra o livre-comércio com o Mercosul. O efeito Trump pode ajudar a quebrar a resistência de alguns governos europeus, apesar da força política dos fazendeiros locais. A Alemanha tem todo o interesse no acordo, já que sua economia é, em boa medida, voltada para a exportação de bens de alto valor agregado. A principal economia europeia teria muito a ganhar com o fácil acesso ao Brasil e ao Cone Sul. Por muito tempo a América do Sul foi o “continente esquecido” sob a ótica europeia, mas está cada vez mais difícil de ser ignorada, mesmo que seja para compensar em parte o progressivo fechamento do mercado americano.

Somadas às promessas de mais gastos em defesa e infraestrutura, iniciativas como o possível acordo com o Mercosul vão na mesma direção: o fortalecimento da Europa na geopolítica e na economia. Como não poderia deixar de ser, a instabilidade americana em contraste com a promessa de uma Europa que investe mais em si mesma mexeu com os mercados financeiros globais. Nas duas primeiras semanas de março — sob o impacto do encontro entre Trump e Zelensky, da escalada nas tarifas de importação e dos sucessivos anúncios de aportes na economia europeia —, o euro disparou 5% em relação ao dólar. No mesmo período, enquanto as bolsas de valores americanas S&P 500 e Nasdaq caíram mais de 5% e 7%, respectivamente, a bolsa alemã DAX subiu 3,7%. Mas ainda é cedo para afirmar se a Europa será capaz de se reinventar no longo prazo para enfrentar o duplo desafio da economia e da segurança, transformando em oportunidades os riscos impostos por uma potência global que, agora sob a liderança de Trump, desistiu de liderar.

Publicado em VEJA, março de 2025, edição VEJA Negócios nº 12

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
Apenas R$ 5,99/mês*
ECONOMIZE ATÉ 59% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Nesta semana do Consumidor, aproveite a promoção que preparamos pra você.
Receba a revista em casa a partir de 10,99.
a partir de 10,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a R$ 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.