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“Governo anterior fechou 27 armazéns”, diz presidente da Conab, em meio a safra recorde

Segundo Edegar Pretto, plano é elevar a capacidade de armazenagem da Conab em mais de 40% com ampliações e reformas de armazéns

Por Márcio Juliboni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 mar 2025, 14h46

Com uma previsão de colher 328 milhões de toneladas de grãos neste ano – um recorde -, o Brasil enfrenta novamente o problema da falta de armazéns para estocar a produção. Estima-se que a capacidade de armazenagem seja de 211 milhões de toneladas, suficientes para guardar apenas 64% da colheita. De um lado, os grandes investimentos dos produtores em inovação impulsionaram a produtividade do campo nos últimos anos, levando a safras cada vez maiores. De outro, dificuldades de acesso a linhas de financiamento, a burocracia e os custos de manutenção brecam a expansão dos armazéns.

Com isso, pouco do que as fazendas produzem fica estocado dentro de suas porteiras. Segundo os especialistas, apenas 17% da capacidade de armazenagem está dentro das propriedades rurais, contra 50% na Europa e nos Estados Unidos. Para não deixar a safra estragar devido às más condições de estocagem, como deixá-la a céu aberto, os agricultores escoam a produção rapidamente, tão logo sai das colheitadeiras, e transformam caminhões em armazéns sobre rodas. A consequência é a disparada do frete na época da colheita e as filas de veículos aguardando para descarregar nos portos.

No meio disso tudo, está a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao ministério do Desenvolvimento Agrário. Atualmente, seus 64 armazéns são capazes de armazenar uma ínfima parte de toda a safra – apenas 900 000 toneladas, o equivalente a 0,3% do previsto neste ano. A atual gestão promete expandir a capacidade para 1,32 milhão e acusa o ex-presidente Jair Bolsonaro de desmantelar a companhia. “O último governo fechou 27 armazéns da Conab e os 64 que restaram ficaram sem a devida manutenção”, afirma o presidente da Conab, Edegar Pretto. Leia os principais trechos da entrevista concedida por e-mail a VEJA:

Estima-se que a capacidade de armazenamento de grãos seja de 211 milhões de toneladas. Por que o Brasil, reiteradamente, sofre com a questão da estocagem? Segundo o Cadastro Nacional de Unidades Armazenadoras, entre 1982 e 2000, a capacidade estática brasileira era superior à produção de grãos. Em 2001, houve uma inversão. A produção ultrapassou essa capacidade e continuou a crescer em uma proporção maior. Além disso, entre as safras de 2009/10 até 2024/25, enquanto a produção de grãos cresceu 120%, a capacidade estática aumentou apenas 52%. Esse descompasso de crescimento se dá pela alta competência do produtor brasileiro em elevar sua produtividade com tecnologia e responsabilidade. Além do fato de que infraestruturas, inclusive a de armazenagem, são caras e demoradas de se  ampliar ou construir. É preciso ainda reforçar que o último governo fechou 27 armazéns da Conab e os 64 que restaram ficaram sem a devida manutenção. Vimos fazendo esforços para recuperar essa capacidade. Não à toa, assinamos um acordo com o BNDES para reformar dez armazéns, em troca de nove que foram englobados pelo crescimento urbano das cidades e que hoje já não servem mais à nossa atividade fim, que é a de estocar alimentos. Assim, a capacidade da Conab vai subir de 900 000 toneladas para 1,2 milhão ao término destas reformas. Do mesmo modo, lançamos nesta quarta, dia 26, o acordo para reforma da nossa principal unidade armazenadora, a de Ponta Grossa, que voltará a operar, ao término da reforma, com 420 000 toneladas, contra as 300 000 que opera hoje – ou seja, mais 120 000 toneladas, totalizando 1,32 milhão. Sendo assim, nossa capacidade subirá 48% em relação à atual.

Como a Conab tem lidado com a falta de espaços para estocar a safra? A Conab tem dado suporte, por meio da disponibilização de informações, tanto para a tomada de decisão das políticas públicas, como para as decisões do setor privado, auxiliando em estudos e planejamento. Essas informações são fornecidas, principalmente, pelo Cadastro de Unidades Armazenadoras da Conab. Por exemplo, o BNDES se utiliza de informações da Conab para definir e tornar mais acertada a sua política de crédito para a construção e ampliação de Unidades Armazenadoras. Além disso, a Conab vem promovendo a revitalização de sua capacidade de armazenagem, que ora pode atuar em grandes centros de produção de forma complementar à iniciativa privada, ora dando suporte às políticas de Abastecimento e Combate à Fome do Governo Federal. Com as ações já iniciadas, espera-se em breve recuperar, pelo menos, mais 48% da capacidade de armazenagem da Conab.

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O Brasil deve registrar uma safra recorde de 328 milhões de toneladas de grãos. Se não houver uma solução de curto prazo, qual seria o destino dos mais de 110 milhões de toneladas que excedem a atual capacidade de estocagem? Não há índices, produzidos a partir de trabalhos científicos, que indiquem a capacidade estática ideal para o Brasil. Todavia, existem sinais de que o país enfrenta uma defasagem no espaço para armazenagem de grãos, que pode ser minimizada com utilização de silos bag pela iniciativa privada, forma alternativa de armazenagem quando não se tem estruturas fixas. A comparação direta entre a capacidade estática e a produção não revela o valor do déficit de armazenagem do Brasil, já que  o país produz duas e até três safras em momentos diferentes do ano, o que resulta em um mesmo armazém recebendo produto de mais de uma safra. Assim sendo, parte do “excedente”, resultante desse cálculo direto e considerando o ano agrícola, vai ser absorvido pela capacidade estática existente, outra parte por silos bolsa.

O que mais pode ser feito no curto prazo? No curto prazo, é possível o melhor planejamento das operações de produção e escoamento, para aproveitar melhor a capacidade dinâmica dos armazéns. Até modernizações de equipamentos, para agilização do fluxo, também para aumentar a capacidade dinâmica, que nada mais é do que a possibilidade de encher e esvaziar o armazém várias vezes, multiplicando a capacidade construída no tempo. Também pode-se recorrer, como já vem sendo feito pela iniciativa privada, às estruturas temporárias como os silos bolsa, mas nesse caso deve-se ter muita atenção no manejo correto, para não haver perdas.

Pensando no longo prazo, qual é a solução para a defasagem de armazéns? Uma delas é o incentivo à construção de estruturas de armazenagem, especialmente em nível de fazenda. O governo federal tem, repetidamente, nos Planos Safra, oferecido linhas de financiamentos subsidiados para esse tipo de construção. Atualmente, o percentual de armazéns em nível de fazenda no Brasil está em 17%, demonstrando taxa de crescimento (3,7%) superior ao índice geral de crescimento anual de capacidade de armazenagem, que é de 2,8%. Outra questão é a melhoria na qualidade de estrutura e operacionalização dos armazéns. Armazéns adequados em estrutura e pessoal reduzem as perdas qualitativas e quantitativas na pós-colheita, além de aumentarem eficiência, podendo ter sua capacidade dinâmica e seus fluxos de recepção e expedição otimizados, o que faz considerável diferença em uma situação de insuficiência de espaço para armazenar grãos. Exatamente o que estamos fazendo em nossa unidade de Ponta Grossa, em que a capacidade dinâmica de recepção saltará de 1 500 toneladas por dia para 3 000, assim como a capacidade de expedição, que irá de 1 500 toneladas diárias para 2 500 toneladas.

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