O mapa dos investimentos para um ano imprevisível
Diante de eleições, juros e riscos globais, fundos multimercado apostam em diversificação máxima — uma lição para pessoas físicas
“Quem vive pela bola de cristal comerá cacos de vidro.” A sentença do investidor americano Ray Dalio sempre é lembrada como um alerta sobre a ingenuidade de tentar prever o futuro. Para o fundador da maior empresa de hedge fund do mundo, a Bridgewater Associates, com 136 bilhões de dólares sob gestão, o mais sensato é saber reagir adequadamente às mudanças de cenário, por piores que sejam. Tal habilidade será exigida ao extremo em 2026, um ano que promete ser recheado de incertezas capazes de transformar o mercado em uma verdadeira montanha-russa. Da eleição presidencial no Brasil à imprevisibilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pode acirrar ainda mais tensões geopolíticas, tudo testará o jogo de cintura dos investidores, sobretudo o das pessoas físicas que buscam manter uma carteira resistente a turbulências. Diante desse panorama, as estratégias dos fundos multimercado podem servir como um bom parâmetro, dada a sua liberdade de alocar recursos em diversas classes de ativos de renda fixa e variável, tanto no Brasil quanto no exterior.
É verdade que, desde 2022, tais fundos veem os recursos migrarem para a renda fixa, mas sua rentabilidade tem se recuperado, a julgar pelo desempenho do Índice de Hedge Funds, que reflete o desempenho dos multimercados brasileiros. Para potencializar os ganhos em 2026, os fundos diversificarão ao máximo o portfólio, a fim de protegê-lo contra eventuais más notícias ao mesmo tempo em que monitoram a esperada queda da taxa Selic.
Assim como em 2025, os multimercados abrirão o ano com 60% do patrimônio alocado no Brasil e os demais 40% no exterior, mas as semelhanças param por aqui. No ano passado, diante da alta dos juros e da disparada do dólar, 50% do dinheiro aplicado no país estava na renda fixa e os demais 10%, em apostas de queda da bolsa por meio de derivativos, algo revisto ao longo de 2025 com o retorno dos estrangeiros à B3, onda que levou o Ibovespa a sucessivos recordes. Os fundos entram no novo ano com uma exposição mais balanceada, composta de 25% em renda fixa e 35% em renda variável. O argumento é que a desaceleração da economia e a queda da inflação, que deve encerrar 2026 abaixo do teto da meta, já justificam o corte dos juros. “Com isso, os ativos de renda variável ganharão destaque”, diz Fernando Monteiro, gestor de multimercados da Bradesco Asset Management. Apesar de muitas ações serem negociadas com descontos na bolsa, os especialistas indicam papéis de setores defensivos como os grandes bancos e as concessionárias de saneamento e de energia elétrica, que oferecem abrigo contra solavancos políticos.
Anos eleitorais são sempre mais voláteis para o mercado, mas 2026 promete uma dose extra de emoção. Basta ver o histórico recente. Em 5 de dezembro, por exemplo, o Ibovespa derreteu 4,31% após o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, noticiar que será o candidato da família ao Palácio do Planalto. A notícia descontentou o mercado, que esperava o apoio do ex-presidente ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, visto como alguém pragmático e com mais chances de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por isso, o fraco desempenho inicial de Flávio nas pesquisas de intenção de voto levou muitos analistas a concluir que sua candidatura selaria a vitória de Lula e, com ela, a continuidade do populismo fiscal que alimenta a dívida pública. “O mercado não dará o benefício da dúvida para Lula outra vez”, diz Getúlio Ost, gestor da SulAmérica Investimentos. Ele se refere ao fato de que, no começo do terceiro mandato, parte dos financistas esperava que o petista repetisse a austeridade fiscal que marcou sua primeira passagem pelo governo, de 2003 a 2006. O que se viu, porém, foi a explosão da dívida, que cresceu de 72% do produto interno bruto em 2023 para uma previsão de ultrapassar os 80% em 2026.
Por isso, os gestores de multimercados sinalizam que repensarão a exposição à bolsa se o vencedor do pleito não assumir um firme compromisso com o ajuste das contas públicas. “Podemos passar a operar com posições vendidas em derivativos para lucrar com a queda do Ibovespa”, diz Eduardo Aun, gestor no fundo AZ Quest. Assim, o perfil das carteiras voltaria ao de 2025, com 60% de exposição ao Brasil, sendo metade em renda fixa e 10% em derivativos. Por ora, no entanto, o ano começará com 25% dos recursos dos multimercados aplicados em renda fixa, com destaque para os papéis pós-fixados atrelados ao CDI ou à Selic e com prazos mais curtos. Outro papel bem-visto é o Tesouro IPCA 2029, remunerado pela inflação. Poucos gestores montam posições mais longas. É o caso de Vinícius Vieira, gestor de multimercados da Santander Asset, que recomenda o Tesouro IPCA 2050. “A curva de juros de longo prazo tende a cair até o meio de 2026, o que fará com que o papel seja negociado a um prêmio atrativo”, afirma Vieira.
Para os 40% de recursos que os fundos aplicarão no exterior, 2026 também traz novidades. A primeira é que os Estados Unidos não monopolizarão as atenções como em 2025, uma vez que o dólar deve seguir em queda na esteira de novos cortes de juros pelo Fed e do aumento da dívida americana. Assim, a diversificação dará o tom. Os fundos devem investir apenas 20% da carteira em ativos americanos — e aqui está a segunda novidade. Em 2025, os gestores dividiram a exposição entre títulos do Tesouro americano e ações, mas neste ano todo o dinheiro estará nas bolsas americanas, sendo 15% em ETFs de índices de ações como o S&P 500. E 5% irão para papéis de empresas de tecnologia, sobretudo as ligadas à inteligência artificial. Mesmo após a disparada desses papéis, poucos enxergam uma bolha no setor de IA, já que a alta se concentra em empresas com boa geração de caixa. “É possível separar o joio do trigo no mercado de IA”, diz Fabio Zaclis, gestor de multimercados da Daycoval Asset. Fora dos Estados Unidos, os ETFs de índices como o Stoxx 600, que representa as 600 ações mais negociadas na Europa, são um dos destaques deste ano e contarão com cerca de 10% dos investimentos. Os gestores também reservaram até 5% do portfólio para moedas alternativas como o euro e o dólar australiano. O ouro ainda será uma importante proteção contra a instabilidade geopolítica global, merecendo outros 5% de espaço nos fundos. “O ouro continuará uma reserva de valor atraente para 2026”, diz Marcelo Bacelar, gestor de portfólio da Azimut Brasil Wealth Management. A estratégia que fez a fama e a fortuna de Ray Dalio e guia até hoje as decisões do Bridgewater Associates é conhecida como All Weather Portfolio e foi desenhada, como o nome indica, para lucrar em qualquer cenário — até o mais tempestuoso. Seu pilar é um detalhado plano de ação para responder às mudanças com rapidez e flexibilidade — uma lição que os investidores brasileiros deverão seguir de perto, se não quiserem comer cacos de vidro em um ano repleto de desafios.
Publicado em VEJA, janeiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 22








