Pecuária regenerativa mostra como o gado pode reduzir emissões e capturar carbono no solo
Sistemas regenerativos de produção de carne transformam pastagens degradadas em áreas mais produtivas, capazes de acumular carbono no solo e reduzir emissões
Nos arredores de Cristalina (GO), onde o Cerrado alterna matas retorcidas e campos abertos de horizonte amplo, as fazendas do Grupo Mec formam um mosaico de pastagens revitalizadas e áreas de manejo conduzidas em ritmo preciso. Nos 2 400 hectares da família Matté, tudo foi reorganizado como um sistema integrado: o gado se desloca em rotações planejadas, os pastos descansam em ciclos curtos e plantas de cobertura recuperam nutrientes. A mudança aparece na paisagem. O rebanho ocupa áreas sombreadas, com capim denso e raízes profundas, enquanto leguminosas fixadoras de nitrogênio sustentam a fertilidade natural. A adoção disciplinada da pecuária regenerativa reduziu a dependência de adubos químicos, aumentou a resistência das pastagens às secas e reforçou o acúmulo de carbono no solo. A linha de cortes produzida ali, a Cortte 19, chega aos consumidores de Brasília com certificação de emissões significativamente menores. “O futuro da pecuária está em gerar resultados enquanto devolvemos vida ao solo”, diz Willian Matté, responsável pela operação do grupo.
A pecuária regenerativa não é modismo. Ela mostra que uma atividade vilanizada pelas emissões de metano pode se aproximar da neutralidade de carbono com manejo adequado. Muitos pecuaristas chegaram a esse modelo pelo bolso, pressionados por insumos caros, pastagens degradadas, clima irregular e, ao mesmo tempo, por frigoríficos que passaram a exigir rastreabilidade e cortes reais nas emissões. Nesse cenário, a pecuária regenerativa virou estratégia de negócio. “A nova revolução verde está na pecuária de base biológica”, diz Clenio Pilon, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa. “Substituir insumos sintéticos por soluções naturais, com microrganismos e plantas que restauram a fertilidade e sustentam o rebanho, redefine o futuro da produção animal.”
O potencial brasileiro para uma pecuária de baixo carbono nasce da força das pastagens tropicais. Gramíneas como as braquiárias formam raízes profundas e altamente ativas, capazes de acumular carbono no subsolo em ritmo muito superior ao de plantas de clima temperado. Estudos da Embrapa indicam que pastagens bem manejadas no Cerrado e na Amazônia podem sequestrar até 4 toneladas de carbono por hectare ao ano. Além de capturar carbono, a pecuária regenerativa reduz emissões de metano, principal gás gerado pela digestão do gado. Solos mais férteis e pastagens densas aceleram a digestão, diminuindo a emissão por quilo de carne. “Pegue a braquiária: em 120 dias, ela produz 5 toneladas de carbono”, diz Henrique Debiasi, especialista em manejo e conservação do solo. “Multiplique isso por milhões de hectares e estamos falando de remoção substantiva de carbono da atmosfera.”
No Brasil, o modelo ganha espaço porque responde ao estresse climático e às pressões econômicas no campo. Solos com cobertura permanente, diversidade de plantas e pouco revolvimento acumulam mais matéria orgânica e formam uma estrutura capaz de infiltrar água rapidamente, reter umidade e resistir à compactação. Com isso, os pastos ficam menos vulneráveis a ondas de calor, erosão e enxurradas. “Temos potencial para atingir net zero até 2050, principalmente por meio da regeneração no campo”, afirma Jonas Oliveira, gerente de sustentabilidade na empresa de tecnologia agrícola Syngenta. Estudos indicam que recuperar parte dos mais de 80 milhões de hectares de pastagens degradadas no país pode tornar a pecuária brasileira, de fato, uma das mais eficientes do mundo. Pesquisadores da Embrapa trabalham na criação de protocolos capazes de medir, com precisão, quanto carbono permanece no solo, adaptando métodos ao clima tropical.
O esforço científico avança enquanto estudos começam a dimensionar o potencial da pecuária regenerativa. Uma análise da Fundação Getulio Vargas concluiu que o setor pode reduzir 80% das emissões mantendo o ritmo atual de ganhos de eficiência, e até 92% caso a adoção de práticas regenerativas seja acelerada. “O agricultor aderiu porque percebeu que regenerar o solo é proteger o seu próprio negócio”, diz Paula Packer, chefe da Embrapa Meio Ambiente. Ao fortalecer o campo, o pecuarista reduz perdas e melhora resultados, mostrando que restaurar paisagens é também uma estratégia de competitividade em um clima cada vez mais instável.
Publicado em VEJA, dezembro de 2025, edição VEJA Negócios nº 21









