Livro mostra o que há em comum entre jovens que ascenderam socialmente
Eles mudaram seus destinos com apoio familiar e olimpíadas de conhecimento, segundo Cristovam Buarque
Entre os muitos elementos que costumam povoar o imaginário do brasileiro na busca por uma vida melhor, poucos são tão presentes quanto o diploma universitário. Dedicar-se aos estudos seria esforço bem mais recompensado do que a entrada precoce no mercado de trabalho — e é isso mesmo. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o seleto clube dos países desenvolvidos, revelam que brasileiros entre 25 e 64 anos que obtiveram o canudo ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que pararam de estudar depois da conclusão do ensino médio. A diferença de patamares é tão pronunciada que corresponde a quase três vezes mais do que a defasagem média observada entre os países da entidade, perdendo somente para a Colômbia e a África do Sul.
As características comuns entre as pessoas que ascendem socialmente são o objeto do recém-lançado livro Escola É Escada, de Cristovam Buarque, ex-ministro da Educação entre 2003 e 2004, e colunista de VEJA. Ao se debruçar sobre as histórias de jovens que conseguiram escalar as barreiras sociais, ele identificou pontos como apoio familiar, participação em olimpíadas de conhecimento e obtenção de bolsas de estudos em instituições renomadas de ensino. Parece pouco, mas não. “A educação ainda é um privilégio no Brasil, e mesmo estar em bancos escolares não basta”, diz Buarque. “Faltam oportunidades para as pessoas desenvolverem seus talentos.”
Uma das que conseguiram ultrapassar essa barreira foi Beatriz Servilha, filha de um pedreiro e de uma telefonista. Ela cresceu no subúrbio do Rio de Janeiro vendo os pais contarem moedas para pagar as contas no fim do mês. Frequentava uma escola em que as faltas dos professores eram constantes. Apesar do cenário desfavorável, nunca abandonou o sonho de ser médica. “Pedi muito para fazer um cursinho preparatório, que meus pais pagaram com dificuldade. Passava horas estudando, sozinha em casa”, lembra. Depois de três tentativas de passar no vestibular, gabaritou a redação do Enem e conquistou vaga na UFRJ, onde se formou, no ano passado. “A pobreza faz a gente comer mal, dormir mal, não ter tempo para nada, mas a faculdade mudou meu destino”, reflete ela, hoje com 27 anos.
Menos de um quinto das pessoas entre 18 e 24 anos cursa ensino superior atualmente e nada menos que 9,1 milhões de jovens entre 15 e 29 anos abandonaram os estudos antes de concluir o ensino médio. A maior parte larga os cadernos para ajudar no orçamento doméstico. Nascer em uma família que, mesmo sem ter educação formal, valoriza os estudos pode ser o primeiro caminho de esperança. “Eu não era dos melhores alunos, mas minha mãe sempre me estimulou”, diz o empresário Victor Hill, 30 anos. Nascido no interior do Ceará, ele cresceu ouvindo lamentações dos parentes que deixaram a sala de aula. Depois de ingressar em um colégio militar, participou de olimpíadas de conhecimento e conquistou ouro em matemática. Mais tarde, o excelente desempenho garantiu uma bolsa de estudos integral no Insper, faculdade particular de São Paulo. “É um ciclo difícil de quebrar. Faltam ferramentas para mudar a mentalidade de que estudar é coisa de rico”, afirma.
Outro desafio é desenvolver competências e habilidades cada vez mais demandadas no século XXI que podem fazer a diferença. “O mercado cobra capacidade colaborativa, criatividade, repertório cultural e, claro, um bom inglês”, diz Claudia Costin, especialista em políticas educacionais. Antenado com os novos tempos, André Menezes, 37, decidiu aprender o idioma ainda na adolescência, quando dividia o tempo de escola com o trabalho de feirante, em uma rotina que o obrigava a acordar às 4 da manhã para ajudar a família. Entre filmes, letras de música e livros, ingressou na faculdade de turismo e conseguiu um estágio que o tirou do comércio de rua. Anos depois, fez pós-graduação em tecnologia na prestigiada Universidade Harvard. “Eu sempre soube que minha arma era o estudo”, conta ele, que hoje é gerente global de programas na Netflix.
Embora fundamental, a educação nem sempre consegue, sozinha, romper os elos que mantêm os estudantes acorrentados à base da pirâmide social. Estudo da Universidade Federal de Pelotas, publicado na revista científica The Lancet, demonstrou que o impacto da pobreza no desenvolvimento das crianças perdura por toda a vida. “O cérebro da parcela menos favorecida é, em geral, menor”, afirma o epidemiologista Cesar Victora, coordenador da pesquisa. A escola segue representando firmes degraus para um futuro melhor, mas o desafio de torná-la mais acessível para a maioria de crianças e adolescentes persiste. Nunca é demais louvar os brasileiros que, graças a seus esforços, buscam ascender. Contudo, é preciso garantir que mais pessoas tenham condições de serem recompensadas, prontas para os desafios do presente e do futuro.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986







