Nova pesquisa mostra que falar vários idiomas funciona como valioso exercício para os neurônios
Atividade mantém a mente jovem e afiada
Enquanto integrantes das jovens gerações vivem imersos em telas e refestelados no sofá, os mais velhos estão indo à luta para aproveitar os avanços da medicina e viver mais e melhor. Muito de conhecimento já se acumulou sobre a ciência da longevidade, mas ela não para de avançar, sendo cada vez mais específica sobre o que verdadeiramente importa para um bom envelhecimento. Hábitos como cultivar dieta equilibrada e uma atividade física em dia sabidamente ajudam a esticar a corda do tempo, mas agora é o cérebro que mais tem atiçado a curiosidade dos cientistas. Eles tentam desvendar ali caminhos para que a multidão prateada mantenha a mente afiada e longe de males hoje comuns, como demência e Alzheimer. E é aí que uma nova pesquisa entra em cena, voltando os olhos para estímulos aos neurônios que funcionam como malhação pesada para a cabeça: o aprendizado de línguas estrangeiras, que se descobriu uma potente barreira ao declínio cognitivo. E é bom começar cedo: quanto mais idiomas, melhor, enfatiza o estudo.
Não é a primeira vez que a atenção de pesquisadores se concentra no que o mergulho em uma nova língua pode trazer de vantagem ao cérebro, pondo suas engrenagens em plena ação, mas nunca uma investigação científica tinha batido o martelo de forma tão assertiva sobre a diferença que faz o exercício de se embrenhar em um vocabulário desconhecido. O estudo, capitaneado por um consórcio de universidades da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina e agora publicado na prestigiada revista Nature Aging, observou mais de 86 000 pessoas de 51 a 90 anos em 27 países, colocando lado a lado os que só sabiam o idioma materno com o grupo dos pelo menos bilíngues. O que os neurocientistas queriam era comparar a idade no RG de cada um a outro medidor, conhecido como idade biocomportamental, que alia o nível cognitivo à saúde geral.
O resultado veio junto a uma boa notícia: os falantes de outras línguas (uma a mais que seja) apresentavam até metade dos sinais de queda cognitiva, tendo todos uma cabeça mais jovem. “Ficou claro que esta proteção ao cérebro vai subindo conforme o indivíduo assimila mais idiomas”, disse a VEJA Lucía Amoruso, uma das autoras do estudo e líder do grupo de neurologia da linguagem do Centro Basco de Cognição. “O empenho envolvido nesse aprendizado equivale a uma academia mental”, resume. A valiosa constatação é sentida na pele (ops, no cérebro) por quem se aventura por dicionários variados — tal como o médico Marcus Figueiredo, 61 anos, fluente em inglês, que decidiu ampliar as fronteiras para o francês. “Para mim, aprender línguas tem contribuído para deixar a cabeça ativa, melhorando minha capacidade de reter informações”, relata. Não é por acaso que ele e tanta gente percebem mudanças dessa natureza. Quando alguém lê, fala ou escreve em outro vernáculo, entram em ebulição regiões do cérebro como o córtex cingulado e o lóbulo parietal (veja o quadro), justamente ligadas a atenção, memória e pensamento criativo, capacidades bem-vindas a uma mente jovem.
De tão poderoso o efeito, os cientistas afirmam que, aliada a outras medidas, a apreensão de uma língua pode adiar em até sete anos os sintomas de Alzheimer. No caso dos poliglotas, o treino imposto ao cérebro não é para amadores — ao pinçar uma língua dentre várias, é preciso pôr as outras em um canto da mente e suar para escolher a palavra certa. O esforço é alto, mas a recompensa, maior. Não adianta, porém, não praticar o conhecimento, porque aí os circuitos vão perdendo aquele impulso que desencadeia o ciclo virtuoso. “Não basta saber um idioma, é preciso fazer uso dinâmico dele, treinando as habilidades associadas a um envelhecimento mais saudável”, pondera Jason Rothman, especialista em ciência cognitiva da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. No dia a dia, as pessoas vão encontrando brechas para deixar a língua viva na memória. “Escuto podcasts, leio em outros idiomas, converso quando dá, e assim mantenho as línguas que sei”, conta a auditora fiscal Simone Godoy, 57 anos, que vai bem no inglês e no italiano e arranha o francês.
O aprendizado de línguas também se desdobra em avanço no campo das hoje tão valorizadas habilidades socioemocionais. Segundo um artigo que repercutiu entre a nata da academia, Another Language Is Another Soul (outra língua é outra alma), os tímidos usam um segundo idioma como espécie de escudo, “uma máscara para se esconder”, o que os ajuda a destravar e abrir-se a mais experiências. Também há evidências de que o domínio de outra língua acaba por conferir uma sensação de liberdade, inspirando novos modos de se expressar e agir. Naturalmente, exprimir uma ideia em outro idioma exige pensar mais. “As pessoas são mais racionais em uma língua estrangeira”, observa o especialista Jean-Marc Dewaele, da University College London. Como se vê, além de ensejar a agilidade de raciocínio, a memória e a lucidez, preciosas para uma vida longa de qualidade, lançar-se na vastidão de um novo dicionário é também abrir a porta para códigos e culturas capazes de enriquecer o olhar. “Falar uma língua é como estar em um mundo novo”, já intuía o psiquiatra francês Frantz Fanon (1925-1961). Dito isso, bon voyage.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974







