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Pouco texto e muito conteúdo: a análise do Enem 2019

Professores ouvidos por VEJA dizem que a prova, famosa por suas questões interpretativas, exigiu conhecimentos prévios do aluno em cada disciplina

Por Maria Clara Vieira e Eduardo F. Filho
3 nov 2019, 22h42 • Atualizado em 4 nov 2019, 08h41
  • Apesar das polêmicas e do clima de apreensão que envolveram a primeira edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do governo de Jair Bolsonaro, professores ouvidos por VEJA afirmam que, de modo geral, os temas abordados na prova de humanidades e linguagens estavam dentro do esperado. Os textos longos e questões interpretativas que por muito tempo foram a marca registrada do teste, contudo, deram lugar a enunciados menores, nos quais nem sempre era possível encontrar a resposta sem ter algum conhecimento prévio do assunto. “Foi um exame bem elaborado, que privilegiou habilidades”, ressalta a coordenadora pedagógica do Colégio Objetivo, Vera Antunes, que classificou a prova como “cidadã”. “Vimos questões sobre o conselho de segurança na ONU, sobre a disparidade econômica no mundo globalizado, sobre violência contra a mulher e direitos humanos – sempre exigindo vocabulário específico da disciplina em questão”, afirmou.

    Entre as questões de geografia, por exemplo, tópicos como espaço físico, clima, relação entre sociedade e natureza – todos bastante frequentes nas últimas edições da prova – foram abordados de forma conteudista. “Todas as perguntas tinham textos de apoio, mas eram muito diretos. Os enunciados cobraram conceitos específicos da matéria, era preciso saber conteúdo”, afirmou o professor Rodrigo Maghalhães, do colégio A a Z. Apesar da ausência de perguntas sobre a ditadura militar, a prova de história também não foi surpreendente: as questões trataram de temas como escravidão, imigração (com brecha para o debate sobre refugiados) e história antiga. “A prova abordou mercantilismo, absolutismo e primeiro reinado – assuntos fartamente trabalhados com os alunos”, ressaltou a professora de história Roberta Luz, da mesma escola. Uma questão específica sobre o reinado de Dom Pedro I exigia conhecimentos específicos sobre o tema.

    “Havia um mistério muito grande sobre o que viria na prova de português”, afirmou o professor Victor Delmas, do A a Z. Também nesta disciplina, tudo correu conforme o previsto. Perguntas sobre gênero textual e função da linguagem dominaram a prova, intercaladas com questões sobre variações linguísticas e a formação do português. “Vimos muitos textos líricos, que costumam ser mais difíceis, e várias perguntas sobre tecnologia”, disse Delmas, que apontou para a ausência de assuntos passíveis de polêmica. “Não vimos nada que se aproximasse da questão do dialeto pajubá do ano passado”, lembrou o professor, em referência à questão chamada de “doutrinária” por Bolsonaro, por se tratar do vocabulário LGBT.

    Os professores consultados ressaltaram que, de modo geral, o exame foi mais fácil que o do ano passado. A exceção, contudo, foram as questões de filosofia e sociologia – disciplinas frequentemente relegadas ao esquecimento. “Havia dezenove perguntas dessa área com textos sofisticados que exigiam uma análise e apuração mais rigorosa”, explicou o diretor Daniel Perry, da Anglo Vestibulares. “Os alunos, acredito eu, não se sairão bem neste quesito. Por outro lado, a dificuldade de lidar com o tempo de prova foi resolvida por conta dos enunciados mais curtos, coisa que não acontecia há anos”, ponderou.

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