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Novos serviços de streaming levam aulas de ginástica para a TV e o celular

O isolamento social na crise do coronavírus abre espaço para os programas, que ganham milhões de adeptos no Brasil e no mundo

Por Jennifer Ann Thomas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 jul 2020, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 14h02
Novos serviços de streaming levam aulas de ginástica para a TV e o celular Priorizar nos meus resultados Google

Uma velha máxima do mundo corporativo diz que as crises são geradoras de oportunidades. Depois de 2008, quando o calote de milhões de americanos sufocados pelas hipotecas imobiliárias levou boa parte da economia global à bancarrota, dois titãs empresariais surgiram para fazer história. Nascido em agosto daquele ano, o Airbnb despontou ao oferecer oportunidade de renda para quem tinha imóveis vagos. Em março de 2009, foi a vez de a Uber acelerar ao abrir portas para milhões de pessoas que perderam o emprego. A história deverá se repetir na pandemia do coronavírus — e uma das apostas tem a ver com malhação. Com a quarentena e o fechamento de academias de ginástica em diversos países, uma nova atividade ganhou musculatura: o fitness em casa. Empresas inovadoras começaram a oferecer uma grande variedade de aulas — musculação, ioga, crossfit, alongamento — que podem ser acessadas pela televisão, smartphone ou computador. É como o streaming de vídeo que consagrou a Netflix. O usuário paga mensalidade para ter o direito de abrir quantas atividades quiser, no lugar e na hora que preferir.

Criada em 2015, a Neou só deslanchou de verdade agora, no período de isolamento social. Antes restrita aos Estados Unidos, a startup está presente atualmente em 65 países, inclusive no Brasil. Os assinantes desembolsam 15 dólares mensais, mais do que o preço médio da Netflix em território americano, para usufruir de um pacote com 5 000 aulas de ginástica. Atenta ao tremendo potencial do novo mercado, a canadense Lululemon suou ainda mais. Ela gastou meio bilhão de dólares para comprar a empresa de tecnologia Mirror, inventora de um dispositivo que permite ao usuário se exercitar enquanto acompanha o streaming de aulas e se observa, cheio de vaidade, em uma tela que reflete a sua imagem. O tal espelho custa 1 500 dólares. No Brasil, a Gympass, que oferece um serviço de benefício corporativo que dá acesso a diversas academias, correu para lançar um produto que inclui aulas de ginástica remotas. Como resultado, ganhou fôlego extra na crise ao conquistar quarenta clientes empresariais desde o início da pandemia.

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SOB DEMANDA - Na TV: a americana Neou oferece 5 000 aulas de ginástica em 65 países, inclusive no Brasil (./Divulgação)

Enquanto as concorrentes nasceram com o propósito de fornecer aulas remotas, a Gympass teve de se reinventar. Fundada em 2012, a startup se tornou um unicórnio — como são chamadas as empresas iniciantes avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares — em 2019, num caso clássico de empreendedorismo bem-sucedido. Com o coronavírus, tudo mudou e a companhia se viu obrigada a lançar uma plataforma on-line nos mesmos moldes da americana Neou. “A adaptação foi muito rápida”, diz Priscila Siqueira, CEO da empresa no Brasil. “As visitas às academias foram a zero e antecipamos o plano para colocar no mercado o projeto que tínhamos em andamento, seguindo a tendência de aulas em domicílio como que se observa em vários países.” Com 55 000 academias parceiras no mundo, das quais 23 000 estão no Brasil, a empresa ampliou o leque de serviços e passou a oferecer atendimentos também na área de saúde mental e bem-estar, com apoio nutricional e até sessões de terapia com psicólogo on-line. “Da mesma maneira que a mensalidade garante ao usuário o acesso às academias em locais fixos, o novo modelo permite contar com quarenta aplicativos disponíveis em nossa plataforma”, diz a executiva.

Com a pandemia, as empresas do setor detectaram uma nítida mudança de comportamento dos consumidores. Se antes havia dúvidas, agora as pessoas finalmente perceberam que é possível, sim, fazer exercícios em casa e contar com a ajuda de profissionais que podem estar baseados em qualquer lugar do mundo. Para isso, bastar ter disposição e os equipamentos básicos para a prática de exercícios. No Brasil, de acordo com a Netshoes, as vendas de colchonetes, tapetes e cordas para exercícios dispararam 2 000% durante a pandemia. Elásticos e faixas tiveram crescimento ainda mais robusto, de 2 500%. Produtos mais caros, como halteres para levantamento de peso, também registraram desempenho expressivo, com alta de 1 900% das encomendas. No marketplace Mercado Livre, as vendas da categoria de produtos “fitness e musculação” aumentaram 132% em março, na comparação com fevereiro. Por mais que o cenário seja animador para as empresas que ganharam espaço na pandemia, é mais provável que o futuro do setor seja híbrido, e não somente on-line. Montar uma academia em casa, com equipamentos como esteiras e aparelhos de musculação, é dispendioso. Além disso, muitas pessoas também não abrem mão do convívio com os fãs da prática de exercícios e da atmosfera de culto ao corpo que só as academias são capazes de proporcionar.

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Publicado em VEJA de 8 de julho de 2020, edição nº 2694

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