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Os planos da Fifa por trás de uma Copa do Mundo ‘inchada’

O torneio de EUA, México e Canadá tem o objetivo de fazer da federação uma entidade mais abrangente e mais forte do que a ONU

Por Natalia Tiemi Hanada Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 dez 2025, 06h00 | Atualizado em 12 dez 2025, 11h04
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Pode ser comparação um tantinho exagerada, mas não custa fazê-la, por interessante: o Marrocos, o adversário do Brasil na primeira partida da Copa do Mundo de 2026, é um pouco como a canarinho em 1962. O time de Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo e cia. desembarcou no Chile depois do título de 1958, envelhecido, mas admirado e querido como a agradável novidade que explodira quatro anos antes. Os marroquinos brilharam no Catar, em 2022 — chegaram ao quarto lugar, tendo eliminado, na sequência, Espanha nas oitavas e Portugal nas quartas. O escrete do espetacular lateral-direito Achraf Hakimi, do PSG, capitão da equipe africana do Norte, é, portanto, o Brasil de Carlo Ancelotti e Vinicius Jr. se vendo no espelho do passado — o duelo é o único jogo brasileiro realmente interessante na primeira fase, antes de enfrentar o fraquíssimo Haiti e a insossa Escócia. “A presença do Ancelotti é motivo de esperança, um time organizado”, disse a VEJA o ex-meia Zinho, campeão do mundo em 1994.

O início morno da Copa dos Estados Unidos, México e Canadá, destaque-se, é retrato de um torneio que sofre de gigantismo — e que começa para valer apenas na primeira etapa de mata-mata, quando restarão 32 países. A cerimônia do sorteio, realizado na sexta-feira 5, com jeitão de Oscar e todo o exagero que o envolve, deixou evidente o tamanho da brincadeira — e o que antes, no passado, era apenas um namoro, o da Fifa com os presidentes de países que promovem a festa, ficou escancarado, com a presença de Donald Trump e um prêmio de paz entregue a ele pelo cartolão Gianni Infantino. Não resta dúvida: o sonho do brasileiro João Havelange de fazer da Fifa instituição mais poderosa do que a ONU foi concretizado.

Há, claro, um custo para a disputa, ao abrigar o número recorde de 48 equipes (veja abaixo como os grupos foram divididos) — e haja paciência e dinheiro para fechar o álbum de figurinhas que, desta vez, parecerá um catálogo de telefone de antigamente, de tão bojudo, ou uma Bíblia, como lembrou o humorista Fábio Porchat. E quem mesmo, sem preconceito, terá interesse em ver Suíça ante o Catar, Curaçao contra Equador ou Argélia e Jordânia? Pois é.

arte Copa

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Há uma outra maneira de medir os excessos da Copa em três países, ainda que México e Canadá sejam coadjuvantes (a final será em Nova Jersey). Nesse aspecto, o Brasil até teve sorte na largada, tendo de atravessar 1 800 quilômetros da Costa Leste na etapa inaugural. Cabo Verde, contudo, coitado, deve voar algo em torno de 4 700 quilômetros. E é bom ir logo avisando: para os torcedores, o vaivém doerá no bolso, no Mundial mais caro de todos os tempos. No Catar, lembre-se, todos os jogos foram disputados como se a competição se desse na Grande São Paulo. Há risco de calorão (haverá hidratação obrigatória aos 22 minutos do primeiro tempo, mesmo em estádios cobertos ou partidas noturnas). Pode haver interrupções em decorrência de tempestades, como se viu na Copa do Mundo de clubes, no meio do ano.

Mas as autoridades da Fifa não parecem incomodadas, em entretenimento muito bem imaginado, a rigor, para passar na televisão. Estima-se faturamento de 1,5 bilhão de dólares apenas pelos direitos de transmissão — e ainda que os Estados Unidos tentem novamente atrair interesse para o football (não soccer, como pontuaram as piadas no evento do sorteio), tudo indica que o salto tende a ser pequeno. Houve o primeiro ensaio com o Cosmos de Pelé, a partir de 1975, e não deu certo. Houve a Copa do Mundo de 1994, e nada, pouco avanço. A terceira chance não alimenta grandes ilusões no país da bola oval e do beisebol. Mas é certo, convém sublinhar com alguma ironia, que fãs americanos sorrirão com goleadas homéricas que tendem a acontecer: imagine-se, por hipótese, Mbappé atacando a defesa de Bolívia, Suriname ou Iraque, que ainda disputam a repescagem em março. Ou, então, Estêvão em bom dia na frente da zaga haitiana. A Copa, contudo, não pode ser assim — começará para valer a partir do bloco de 16 avos de finais, e olhe lá. Bom mesmo será depois das oitavas, e para que então tantas bandeiras no início? Pede-se paciência.

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Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974

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